27/11/2020 às 19h45min - Atualizada em 27/11/2020 às 19h19min

2020 - A pior temporada de Rossi

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Valentino Rossi marcou uma média de 4,7 pontos por corrida na última temporada, mas ainda adora o desafio das provas, não há razão para pensar em aposentadoria.

 
 
Rossi na disputa posições em Portimão no circuito do Algarve
 
Valentino Rossi provavelmente não quer saber, embora provavelmente já saiba, 2020 foi sua pior temporada desde que entrou para o circo dos GPs em 1996. Um caminho longo. Seu 25º ano no mundial foi ainda pior do que suas duas temporadas estéreis na Ducati e sua campanha de estreia no GP de 125cc, quando ele tinha 16 anos. Tudo o que poderia dar errado para o 9 vezes campeão mundial em 2020 aconteceu.
 
Rossi tem 41 anos, perto do dobro da idade do campeão da MotoGP de 2020 (Joan Mir, 23), então já não é tão rápido quanto costumava ser (seus reflexos não são mais os mesmos, ele sabe disso), mas foi muito prejudicado por uma motocicleta abaixo da média, motores quebrados, acidentes e finalmente Covid-19.
 
A média de pontos por corrida, do máximo de 25, foi apenas 4,7, inferior à sua segunda menor pontuação na campanha 1996, quando sua média foi 7,4 pontos por corrida. Desconsiderando as duas provas em que esteve ausente por causa da Covid-19, sua pontuação média é de 5,5 pontos por corrida. Uma comparação com seus melhores anos, nas temporadas de 2002, 2003 e 2005 ele alcançou uma média próxima de 22 pontos a cada fim de semana.
 
Rossi não venceu uma única corrida em 2020, sua última vez no degrau mais alto do pódio foi em Assen, em junho de 2017, terminou o ano em 15º na classificação geral. Suas piores posições anteriores foram em 9º lugar no campeonato mundial de 125cc de 1996 e 7º no mundial de MotoGP de 2011 e 2019. Nesta temporada seu último desempenho brilhante foi o 3º lugar no GP da Andaluzia (pódio triplo da Yamaha com Quartararo, Vinales e Rossi), mas uma andorinha (pódio) só não faz verão.
 
 
É uma situação muito triste e muitos admiradores esperam que Rossi se aposente e ceda o lugar para alguém mais jovem montar sua Yamaha YZR-M1 (ele já perdeu o lugar na equipe oficial). Acreditem ou não, ele ainda adora corridas e o desafio de correr, mesmo quando os resultados conduzem a um buraco aparentemente sem fundo.
 
Na última prova de 2020 em Portimão Rossi terminou em 12º lugar, um resultado miserável, embora os outros pilotos usando os M1s de mesma especificação (Maverick Vinales e Fabio Quartararo) tenham se classificado em 11º e 14º. Ainda assim Rossi teve uma grande disputa, rodando na montanha-russa de Portimão em um grupo de até oito pilotos, todos eles lutando por posições intermediarias ao longo das 25 voltas. “Tive muitas batalhas e sinceramente gostei da corrida, foi um grande desafio do começo ao fim” foi o seu comentário ao encerrar seu 414º GP. “O resultado não foi lá estas coisas, mas a corrida foi melhor em relação a Valência, as diferenças de tempos para os líderes foram muito menores."
 
A corrida anterior de Rossi em Valência havia sido sua primeira completa desde a etapa de San Marino. Depois da prova em Misano ele caiu na segunda corrida no mesmo circuito, em Barcelona e em Le Mans, depois perdeu ambas as rodadas de Aragon por estar em quarentena por causa da Covid-19. Foi um longo tempo sem qualquer quilometragem, e em Valência seus reflexos não estavam no auge. Detalhes como esse importam quando está competindo rivais que rodam todos os fins de semana, eles desenvolvem uma intimidade com seu equipamento e sabem exatamente onde o limite está localizado.
 
A pergunta que não quer calar, Rossi deveria abrir caminho para o talento mais jovem? A resposta é óbvia, enquanto ele quiser quer correr e, igualmente importante, enquanto as fábricas entenderem que é um bom negócio deixá-lo correr suas motos, então ele continua nas pistas. É simples assim.
 
Esta situação não é nova na MotoGP, já aconteceu antes. O bicampeão mundial de 500cc Barry Sheene foi apoiado pela Suzuki até o final de sua carreira em 1984, quando já não conseguia apresentar resultados nas pistas. Há pouca dúvida que Sheene não teria recebido uma RG500 da equipe oficial caso não tivesse uma história na sua relação com o fabricante. O ídolo britânico venceu os mundiais de 1976 e 1977 e sua última vitória foi no verão de 1981. Em 1984, marcou apenas um pódio, na chuva em Kyalami, África do Sul. Muito parecido com o Rossi atual.
 
Rossi e Sheene desfrutam de status especial entre os pilotos de motos porque desenvolveram um perfil diferenciado. Suas bases de fãs e seu apelo comercial transcendem ao mundo do motociclismo, o que os faz valer um bom dinheiro e, nas pistas, boas motos.
 
Barry Sheene, o primeiro superstar britânico da MotoGP
 
Assim como Rossi, Sheene encantava fora das pistas e transitava com igual desenvoltura nas páginas sociais e esportivas dos jornais do Reino Unido. Criava fatos para virarem notícias, uma vez abriu om furo no capacete para poder fumar antes da largada. No início de sua última temporada de grandes prêmios, após 3 anos de resultados pífios, Sheene montou na sua RG500 no palco de TV durante um programa ao vivo em horário nobre na British Broadcasting Corporation (BBC). Esse tipo de exposição não tem preço para empresas que tentam vender motocicletas, ou qualquer outra coisa nesse caso. É assim que funciona, o dinheiro faz o mundo dar voltas e os motociclistas participam deste arranjo.
 
Este tipo de status dá a um piloto um poder especial. Como Sheene, Rossi está na posição de comando de seu próprio destino; até um certo ponto é claro. Então ele decidirá quando escreverá o capítulo final e quando a história deve terminar.

Rossi saindo dos boxes para uma sessão de classificação

Rossi está planejando a sua 26ª temporada de GPs e estudando como ele pode melhorar a si mesmo.“Eu tenho que trabalhar muito para melhorar em algumas áreas onde não sou forte, como a qualificação, que agora é tão importante”, ele comentou recentemente. Rossi tem lutado com a qualificação desde que a MotoGP introduziu o atual formato de etapas de 15 minutos em 2013. Na medida que os adversários são mais competitivos, fica mais complicado buscar a vitória se não estiver classificado nas duas primeiras filas, isto tem sido um problema recorrente para ele nas últimas oito temporadas. Também espera que a Yamaha possa reverter suas performances decrescentes dos últimos anos e construir uma M1 melhor para 2021.
 
Vamos ajudar  a Yamaha como sempre para fazer um bom trabalho e melhorar em algumas áreas, pois nos últimos anos (inclui 2020) fomos fortes no início da temporada. Nossos concorrentes são mais ágeis em corrigir problemas e melhorar o desempenho, então no final da temporada as coisas ficam complicadas. Este ano, o primeiro na equipe Petronas e com uma especificação igual às da equipe oficial, será um desafio difícil e precisamos chegar prontos na primeira corrida”.
 
Rossi venceu sua última corrida aos 38 anos, terá 42 anos quando a próxima temporada começar e muitas pessoas já estão supondo que vai pendurar o macacão no final do ano. Talvez, mas se aproveitar 2021 e conseguir alguns pódios, pode querer continuar até 2022. As possibilidades de mais vitórias são complicadas, mas certamente não impossíveis.
 
No entanto, é improvável que ele se torne o vencedor mais velho da classe principal. Atualmente, o piloto mais velho a conquistar a vitória nas 500cc/MotoGP foi Fergus Anderson, que venceu o GP da Espanha de 1953, realizado em Montjuic, aos 44 anos. A história de Anderson é interessante. Ele foi uma das primeiras estrelas britânicas da década de 1930 e ajudou a financiar sua carreira escrevendo sobre suas realizações para a imprensa britânica. De alguma forma, suas reportagens criaram problemas com os nazistas, a ponto de ser incluído no Livro Negro de Hitler. Esta publicação da Gestapo incluiu a lista dos mais indesejáveis e procurados, que seriam presos e neutralizados (eufemismo para assassinados) pelo departamento de contra-espionagem assim que os países fossem invadidos pelas forças alemãs.
 
Sobrevivendo a guerra, Anderson ganhou os títulos mundiais de 350cc nos anos 1953 e 1954 montando equipamentos Moto Guzzi. Morreu em um acidente em 1956 disputando com uma BMW a última prova realizada um circuito de rua em Floreffe, Bélgica.
 

Circuito de rua de Floreffe, Bélgica
 
 
 
 
 
 
(Baseado em um texto de Mat Oxley publicado em novembro de 2020 na Motorsportmagazine.com)

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