11/10/2020 às 13h21min - Atualizada em 11/10/2020 às 13h13min

Síndrome de abstinência

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Tradução livre de um artigo de Mat Oxley
https://www.motorsportmagazine.com/

Já se passaram meses desde que Marc Márquez, o maior piloto de sua geração – talvez o maior de todos os tempos- está afastado das pistas. Muitas pessoas já estão com sintomas de síndrome de abstinência.



Márquez sempre faz tudo no estilo Schwantz

Tem sido estranho não ler reportagens sobre Marc Márquez nos últimos meses. Desde meados de 2012, quando assinou seu primeiro contrato na MotoGP, ele roubou a maioria das manchetes, assim como fizeram Mick Doohan e Valentino Rossi antes dele.

A MotoGP passou por um longo período sem atrativos antes de Márquez aparecer. Os anos dos motores 800cc foram caracterizados por corridas entediantes. Os pilotos que se sobressaiam na época, Dani Pedrosa, Jorge Lorenzo e Casey Stoner não tinham desempenhos eletrizantes, eram pouco mais que corretos, talvez as rixas com Valentino Rossi tenham notabilizado o australiano um pouco mais.

As performances de Marc Márquez começaram a deslumbrar o público enquanto disputava o título mundial de Moto2 de 2012. Óbvio, como todo o novato ele alternou sequências inconsequentes com pura magia. Foi considerado muitas vezes um piloto irresponsável, mas sua performance quase sempre contribuiu para fazer o espetáculo.

Até agora, o piloto de 27 anos venceu 82 GPs (todas as classes), número inferior apenas a Angel Nieto (90), Valentino Rossi (115) e Giacomo Agostini (122), mas foram os momentos mágicos que protagonizou que permanecem na história. Ele controlou situações que teriam resultado em quedas para qualquer piloto incontáveis vezes. 

A prova de Moto2 em 2013 em Motegi é exemplar. Apesar de ter a segunda posição no grid, Marc não conseguiu engatar a primeira marcha quando as luzes de largada apagaram – teve muita sorte por não ser atropelado – e foi ultrapassado por 26 concorrentes. Recuperou 3 posições na Curva 1, na saída acelerou o máximo possível e ultrapassou mais 9 pilotos, todos andando o mais rápido que ousavam com os pneus ainda fora da temperatura ideal. Entre eles havia uma árdua disputa de posições entre Andrea Iannone e Alex De Angelis, Márquez passou por eles como se estivessem parados.

Nos 100 metros que separam até a Curva 2 ele acelerou o máximo que sua máquina permitiu, no contorno deixa o pneu traseiro deslizar e, quase sem controle, deixou mais um para trás. Na curva seguinte ultrapassou mais 4 rivais, o que totaliza em 17 ultrapassagens nas 3 primeiras curvas da primeira volta. Márquez venceu a prova com 4 décimos de vantagem sobre Pol Espargaro, seu futuro companheiro na equipe Repsol-Honda em 2021. A mídia teve dificuldades em escolher os termos mais adequados para descrever a magnitude da sua atuação, a palavra mais utilizada foi “hipnotizante”.



Márquez na tentativa fracassada de voltar em Jerez no final de julho

A habilidade de Márquez de controlar uma moto é o diferencial que o torna único. Quando chegou à MotoGP, em 2013, inventou uma nova maneira de pilotar, que muitos ainda estão tentando imitar. Marc exerce um controle absurdo ao deslizar o pneu dianteiro, quando a maioria dos pilotos desliza a traseira. Ele consegue controlar a moto nestas condições porque tem doses sobrenaturais de talento, tempos de reação incríveis, combinados com força física, audácia e bravura. 

Todos compreendem que entrar em uma curva deslizando a dianteira sem perder o controle é complicado, especialmente quando o pneu está frio. Há poucas condições piores de pilotar um protótipo com o pneu dianteiro frio – basta perguntar aos 38 pilotos de Moto2 e MotoGP que se acidentaram com a baixa temperatura de Barcelona (2020) em curvas para à esquerda, porque o lado de seus pneus dianteiros não estava quente o suficiente. (O total de acidentes de Moto2/MotoGP durante todo o fim de semana foi de 42)!

Com o pneu dianteiro frio é quase impossível acelerar muito e manter o controle. Paradoxalmente a única maneira de manter a temperatura adequada do componente é acelerando forte, os pilotos têm que fazer uma escolha delicada.

É como andar no fio de uma navalha, e Márquez utiliza toda a sua habilidade nestas condições. É por isso que ele é tão bom em condições duvidosas e úmidas, quando a linha entre glória e a brita é mais tênue. A quantidade de recursos de Márquez no comando de uma moto é espantosa, quando ele está na pista não há como prever o que pode acontecer no momento seguinte. De uma certa maneira, lembra muito a Kevin Schwantz. 

Há diversos momentos memoráveis da atuação de Márquez. Há aquele momento absurdo quando ele desliza afrente e a traseira para ajudar a virar a sua Honda, Cal Crutchlow diz que consegue no máximo uma ou duas vezes por prova realizar o que ele define como “queda controlada”, Márquez faz isso em praticamente todas as curvas da corrida. Há ainda aqueles momentos mágicos que colegas, espectadores e telespectadores ficam se perguntando, como ele conseguiu fazer isso?

Márquez tem várias histórias incríveis, como a pole na COTA em 2015, estava na 4ª colocação quando sua moto parou na pista, faltando 3 minutos para encerrar a classificação. Ele estacionou a moto contra o muro do pit lane, correu até o seu box e montou na RC213V sobressalente. Abriu a sua última volta faltando poucos segundos para encerrar a qualificação, fez um tempo fantástico e conseguiu a pole.



Márquez mantém uma equipe unida ao seu redor

Houve ainda o GP de Brno em 2019 quando ele conseguiu a pole por uma eternidade de 2,5 seg sobre o 2º colocado na chuva, com uma particularidade: usando slicks! Seus rivais reagiram com incredulidade: “Não entendo como a pista estava seca exclusivamente para Marc, não para o resto de nós", desabafou Danilo Petrucci da equipe oficial da Ducati, interpretando o sentimento da maior parte do grid.

Talvez a performance mais marcante tenha sido em Sachsenring 2016, porque destaca sua capacidade de fazer coisas com um pneu dianteiro frio, que ninguém mais consegue.

A corrida começou em uma pista fria e encharcada, Márquez não estava à vontade e lutou para se manter com os líderes. Com um terço da prova ele saiu da pista em alta velocidade e fez um passeio na brita, conseguiu manter o controle e voltou muito atrasado. Estava em 9º e não conseguia progredir, então tentou fazer algo diferente. Com a pista ainda fria e úmida, entrou nos boxes e trocou pela segunda moto, equipada com pneus slicks.

Pol Espargaro o seguiu até os boxes – sem dúvida confiando na capacidade de seu compatriota de tomar a decisão certa na hora certa – e o trocou seu equipamento para um com a mesma configuração de Marc. O que Espargaro faz em seguida só serve para ilustrar a magia de Márquez, ele caiu na primeira curva à esquerda. A pista estava muito traiçoeira.

Márquez continuou a andar no fio da navalha, forçando o pneu dianteiro o suficiente para gerar calor, mas não para perder o controle e sair da pista. Voltou em 14º, 38 seg atrás do líder Andrea Dovizioso, mas nas voltas seguintes Márquez foi o piloto mais rápido da prova, utilizando as poucas partes sem água da pista, mesmo que a trilha formada não tivesse mais de um metro de largura em certos lugares. Houve voltas em que o espanhol rodou mais de 5 seg mais rápido que os líderes. 

Quando depois de muitas voltas outros pilotos param para trocar de moto, muitas equipadas com pneus intermediários, Marc assumiu liderança ultrapassando Jack Miller – ainda com pneus de chuva – e cruzou a linha de chegada dez segundos à frente do segundo colocado Cal Crutchlow.

Essa vitória resume Márquez melhor do que qualquer uma de suas outras 55 vitórias na MotoGP. (Uma média de oito por temporada na era mais competitiva do motociclismo).



Com pneus slick em Sachsenring -  Márquez comemora vitória em 2016

Claro, na abertura de temporada em Jerez, em julho, ele ultrapassou o limite e pagou o preço. Alguns argumentam que a lesão no braço, por causa do estilo exagerado de pilotagem, era inevitável.

Na medida em que motociclismo é um esporte de risco, acidentes não devem ser novidade para Marc Márquez, mas o fato é que ele quase nunca lidera o ranking de quedas. Apenas em uma temporada nesta década ele foi o piloto com o maior número de acidentes. A história da MotoGP não vincula acidentes com vitórias, como ilustra o caso entre Kevin Schwantz e Wayne Rainey – Schwantz caiu duas vezes mais vezes, mas foi Rainey que acabou em uma cadeira de rodas.

Nenhum jornalista sério se arrisca a prognosticar quando Márquez voltará s pistas. Ele tentou na segunda prova de Jerez e não conseguiu. Talvez tenha sido muito otimista, mas é assim a natureza dos pilotos.

Corredores voltam precocemente de lesão e saem impunes são aclamados como super-heróis. Se tentam voltar muito cedo e não conseguem, são rotulados de inconsequentes. 

Quando Mick Doohan voltou muito cedo de sua lesão na perna ninguém o qualificou como imprudente. Quando ele fraturou a tíbia e a fíbula realizando um treinamento intenso, ninguém o chamou de irresponsável. E quando ele bateu e quebrou a clavícula porque a perna ainda estava muito fraca para comandar uma motocicleta, ninguém escreveu que ele era maluco. Em vez disso, todos reconheceram que estavam diante de um piloto preparado para ir muito além do os simples mortais para alcançar um objetivo.

Poucos campeões mundiais conseguem o título sem levar seus esforços a limites extremos, Marc Márquez é um deles. Certo ou errado, é isso que os diferencia dos outros concorrentes.

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