07/10/2020 às 22h49min - Atualizada em 07/10/2020 às 22h24min

Eu tenho um sonho!

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Há mais de meio século, falando para uma multidão de mais de 250 mil pessoas reunidas no Lincoln Memorial em Washington, o ativista pelos direitos civis Martin Luther King Jr. pronunciou um discurso épico que ficou mundialmente conhecido por sua frase inicial: “I have a dream! (Eu tenho um sonho)”. Citado inicialmente no contexto de promover a integração racial, este jargão foi portado para o cotidiano das pessoas para expressar um desejo intenso, uma meta a ser alcançada.

Gestão do Mundial de MotoGP
 

Uma análise de decisões recentes da Dorna Sports, uma empresa de gestão esportiva, marketing e mídia, que tem o monopólio comercial da MotoGP, indica que seus diretores e executivos têm um sonho. Recapitulando, o mundial de motociclismo tem a gestão compartilhada por quatro entidades: FIM (Federation Internationale de Motocyclisme) que promove o campeonato; Dorna que controla os direitos comerciais, leia-se o dinheiro envolvido; a associação dos fabricantes MSMA (Motorcycle Sports Manufacturer’s Association); e a IRTA (International Road Racing Teams Association) que representa os interesses de equipes, principais fornecedores e patrocinadores.

O sonho da Dorna, compartilhado com estas entidades, é operacionalizar um campeonato com 24 participantes distribuídos entre 6 fabricantes, cada qual com 4 pilotos, 2 representando a equipe oficial e 2 em uma independente, competindo em um campeonato com no máximo 22 etapas.  Um regulamento rígido que impeça uma escalada de custos de desenvolvimento, para evitar que empresas com orçamentos abundantes monopolizem a competição como já aconteceu em um passado recente. Desde o fenômeno Case Stoner com a Ducati em 2007, todos os campeonatos foram vencidos por pilotos da Yamaha (2008, 2009, 20010, 2012 & 2015) ou da Honda (2011, 2013, 2015, 2016, 2017, 2018 & 2019).

Antes da pandemia, a MotoGP estava buscando maior presença na Ásia, onde o desenvolvimento econômico é acelerado e o mercado de motocicletas ascendente. A Dorna assinou em 2018 um protocolo de intenções com um grupo de empresários para que o Brasil volte a hospedar uma etapa no calendario de 2022, em um circuito a ser construído em Marechal Deodoro no Rio de Janeiro. A empresa também planejava promover uma prova na Finlândia (Circuito de Kymiring),  avaliava a viabilidade de um circuito urbano na Indonésia e um possível retorno ao México. O Corona Vírus implodiu este planejamento e arquivou estes projetos por algum tempo.
 
Os fabricantes já estão em processo de adequação a esta nova realidade. As antigas relações de fornecedor/cliente que existiam entre as fábricas e satélites migraram para o conceito de parceria. Com grandes inovações tecnológicas severamente limitadas pelo regulamento, cresce a necessidade de pilotos com sensibilidade e quilometragem em testes para coletar dados que, com o auxílio de simuladores digitais, orientem ajustes e adequações dos equipamentos. Ducati, Yamaha e Honda já fornecem aos principais pilotos das equipes satélite pelo menos um protótipo do modelo mais recente. Nesta temporada Cal Crutchlow da LCR utiliza uma RC213V idêntica às disponibilizadas para Alex Márquez e Stefan Bradley, Jack Miller da Pramac tem uma GP-20 igual às de Dovizioso e Petrucci, Fábio Quartararo da SIG Petronas pilota uma YZR-M1 com especificação idêntica à de Rossi e Vinales. A KTM expandiu este conceito e as quatro motos que disputam o mundial, 2 da equipe oficial e 2 da Tech3, são da mesma geração. Mais dados e observações fornecem indicações mais apuradas de como ajustar melhor os protótipos para um GP.

Os contratos das equipes que disputam o campeonato atual se encerram em 2021, com uma série de possibilidades a surgirem na constituição do paddock para 2022.


Equipes inscritas no Mundial de MotoGP 2020

Para cada fábrica patrocinar também para uma independente teria de haver mais uma equipe no grid, uma vez que só existem 11 inscritas. Suzuki e Aprilia teriam uma equipe satélite e a Ducati perdia uma das duas (Pramac & Avintia) que tem neste momento.

O primeiro caso a ser analisado é a situação da Petronas. Segundo a rádio paddock (conversas informais no pit-lane) a equipe não está satisfeita em relação a Yamaha. Não tem duas motos de fábrica como as a Ducati fornece para a Pramac e a KTM disponibiliza para a Tech3. Franco Morbidelli tem uma M1 antiga e, embora já tenha vencido nesta temporada, poderia render mais. Também não ficaram muito satisfeitos com a solução encontrada para manter Rossi atrelado à Yamaha em 2021. Nada a reclamar quanto a presença do “The Doctor”, mas porque a ideia central da equipe é trabalhar com jovens talentos que possam ser catapultados ao estrelato, como foi feito com Quartararo. É uma mudança de paradigma, perder um piloto que pode evoluir em troca de uma lenda, que tem pouco ou quase nada a comprovar. O que pode ser ouvido no paddock é que, como o financiamento aparentemente não é problema para os malaios, a equipe pode migrar para a Suzuki em 2022.

 A Yamaha ficando sem satélite poderia optar por patrocinar a evolução da VR46, que já disputa Moto2 e Moto3. É uma ideia antiga de Rossi ter a sua própria equipe, até para poder promover os talentos da sua academia de pilotos. Não está descartada a hipótese de que "The Doctor"  Rossi possa resolver adiar a sua aposentadoria e correr por sua própria equipe em 2022.

Valentino Rossi em sua própria equipe

A Aprilia é a pedra no sapato dos planos. A equipe não tem uma equipe oficial de fábrica, é representada pela Gresini Racing. Se Pramac e Ducati tem um relacionamento perfeito, a Avintia tende a sobrar. Quando Massimo Rivola assumiu a administração da Aprilia na MotoGP, prometeu uma equipe de fábrica própria e faz sentido pensar na Gresini como uma equipe satélite. A Avintia tem contrato até 2021, porém pode faltar fôlego (financeiro) para uma equipe bancada para garantir um assento para Tito Rabat.
 
Renovação em andamento
Existem atualmente cinco equipes de fábrica no grid do Mundial de MotoGP: Ducati, Monster Energy Yamaha, Red Bull KTM, Repsol Honda e a Suzuki Ecstar. Um fato notável é que todas, à exceção da Honda, as outras apostam na nova geração de condutores, todas serão representadas por pilotos que estrearam na categoria máxima a partir de 2015. Ou seja, pilotos calejados estão migrando para as equipes independentes. A aposta das equipes oficiais é contratar talentos promissores que possam manter por muitos anos. O único contratado de representações de fábrica que passou da barreira dos 30 é Pol Espargaro, que deve ser o companheiro de Marc Márquez na Repsol Honda.

A Ducati confirma a sua aposta nos jovens que tem apoiado nos últimos anos, Francesco Bagnaia e Jack Miller que devem tentar conseguir mais que os vice-campeonatos alcançados pelo veterano Andrea Dovizioso. A Yamaha conta com Maverick Vinales, que está na equipe a 4 temporadas e recebe Fabio Quartararo, que a equipe aposta poder reprisar seu desempenho na independente Petronas. Toda a experiência de Valentino Rossi, de 41 anos, é transferida para a representação malaia.

Com u m trabalho consistente de formação de (Red Bull MotoGP Rookies Cup), a Red Bull KTM coloca todas as suas fichas em jovens talentos e deve ter uma das duplas mais inexperientes em 2021, Brad Binder a Miguel Oliveira. Os dois desenvolveram suas carreiras dentro do espírito de lealdade e confiança na marca austríaca, ambos já venceram na MotoGP.

A aposta em pilotos que podem fazer carreira na equipe é extensiva à Suzuki Ecstar, Álex Rins e Joan Mir chegaram ao MotoGP com o construtor nipônico e devem ser mantidos em 2021, na esperança de reviver os tempos áureos de Barry Sheene (1976-1977), Kevin Shwantz (1993) e Kenny Roberts Jr. (2000).

Na Repsol Honda, Marc Márquez apesar da pouca idade estreou na equipe em 2013 e não é uma aposta, Pol Espargaro com sua idade não pode ser considerado um investimento no futuro, sua contratação se deve mais a uma garantia imediata de consistência e bons resultados. A presente temporada, com os infortúnios de Márquez e Crutchlow, pode ser considerada um fracasso total. A equipe aposta na independente LCR na formação de Alex Márquez e Takaaki Nakagami para o futuro.

A Aprilia é um caso à parte. A fábrica não tem atualmente uma representação oficial e é representada nas pistas por uma equipe independente, a Gresini Racing. A fábrica foi prejudicada nesta temporada com a perda de Andrea Iannone, penalizado por doping, e já informou que pretende ter uma equipe oficial em 2022 e deve contratar um piloto para ajudar Aleix Espargaro a desenvolver o equipamento em 2021 e preparar a transição para a estrutura oficial em 2022.

Apostar nos jovens pilotos tem vantagens e inconvenientes. Por um lado, os contratos são mais em conta e podem trazer algo de novo, seja em termos de técnicas de pilotagem, desenvolvimento de equipamentos ou de imagem. Há os riscos associados, estando em uma fase precoce de suas carreiras, não há como prever sucesso futuro ou discernimento no desenvolvimento de um protótipo, que pode enveredar por caminhos errados. Pilotos mais calejados como Andrea Dovizioso, Cal Crutchlow ou Valentino Rossi podem se comunicar melhor com os engenheiros, trazendo sugestões além de sentimentos.
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