05/09/2020 às 19h20min - Atualizada em 05/09/2020 às 18h49min

MotoGP - Gravidade da lesão e recuperação de Márquez

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
Adaptado de original publicado na MotoRaceNation

A atual temporada da MotoGP será lembrada pela pandemia de COVID 19 e suas inúmeras consequências no calendário, restrição de mobilidade confinando todo o campeonato na Europa e e pela ausência de Marc Márquez. Muito foi comentado e ainda vai ter manchetes na mídia sobre a lesão do campeão, sua abrangência e a recaída que obrigou o piloto voltar à mesa de cirurgia. Estes acontecimentos resultaram em Márquez descartar definitivamente a temporada 2020 e iniciar a preparação para 2021.


Cadeira vazia

O que aconteceu para causar esta mudança de atitude e planos, depois de sua fracassada tentativa de competir novamente em Jerez 2? 

Provavelmente a verdade nunca vai ser divulgada completamente, em busca de uma resposta os editores da MotoRaceNation realizaram um trabalho de pesquisa abrangente, consultando o Dr. Rubén García Ruiz, fisioterapeuta e especialista em osteopatia na avaliação de danos corporais, para emitir a sua opinião baseada nas imagens que foram divulgadas pelo próprio staff do campeão.
Sua primeira avaliação partiu do pressuposto que “coisas ruins acontecem”, o filósofo Forest Gump (personagem fictício criada pela indústria do cinema) imortalizou a gíria em inglês “Shit Happens”. Se uma sucessão de eventos ruins acontece, então as chances de terminarem mal são ainda maiores. Este texto não busca identificar culpados pelo que aconteceu.

O que realmente aconteceu? 

Segundo o Dr. Garcia “ a percepção inicial foi que o nervo radial foi afetado, fato descartado na primeira cirurgia. O procedimento cirúrgico foi um sucesso, embora o braço do campeão ficasse parecendo o úmero do exterminador do futuro, todos ficaram surpresos depois de ver o espanhol fazendo flexões três dias após a intervenção. Um atleta profissional deve lutar para estar sempre recuperado o mais rápido possível, mas o que vimos com Márquez foi desumano. O úmero foi submetido a um stress significativo que exigiu um segundo procedimento que, aparentemente, não foi bem sucedido”



Twitter de Marc Márquez

O Dr. Ruben entende que a mobilidade da placa “causou uma pseudoartrose no úmero, ou seja, um espaço físico oco que não permite a consolidação óssea adequada”. Esta posição não é oficial porque o sigilo sobre as lesões dos pilotos é absoluto, não sabemos se por razões legais ou de competitividade (já aconteceu outras vezes, por exemplo, com Pedrosa na 250cc quando Alberto Puig, atual diretor da HRC, era seu eu gerente), mas para o especialista “o fato de que desapareceram dos perfis sociais de Marquez todas as fotos sobre a primeira intervenção é um indício...”e oferece pistas sobre a extensão do prejuízo real.




“ Foi divulgada uma foto de Marquez com um gesso que o cobre até o primeiro dedo da mão direita. E essa foto é significativa: para um resultado normal da segunda intervenção, o gesso não deveria chegar lá. No máximo, até o cotovelo ou talvez um pouco mais baixo.

 


“Vendo nas redes sociais uma foto não oficial com a placa da primeira intervenção cirúrgica quebrada, é bem possível que o segundo procedimento tenha utilizado um pino intramedular colocado ao longo do eixo do úmero. Esta haste teve que ser inserida do cotovelo e só isso explicaria o gesso ao primeiro dedo da mão direita. É necessário imobilizar completamente o cotovelo. Existe uma segunda hipótese mais arriscada: a segunda intervenção pode não ter sido tão exitosa como deveria”.

O que poderia ter falhado no segundo procedimento? 

Para o especialista “o úmero pode, de alguma forma, ter esmigalhado no ponto de ruptura, algo que geralmente acontece neste tipo de intervenção e que poderia explicar o gesso. A verdade é que todo o material e esforço que o osso foi submetido não facilitam a realocar tudo em condições”.

A opinião do especialista deve ser avaliada em conjunto com muitos outros fatores para estabelecer um equilíbrio entre o que aconteceu e o contexto da competição: o eterno debate sobre o peso que os pilotos têm ao decidir se podem ou não pilotar a moto ou até onde a opinião médica da organização deve pesar ao declarar um piloto apto ou não para ir à pista, até mesmo o quanto a opinião da equipe deve ser considerada para vetar o piloto ou compartilhar sua ambição competitiva. Talvez seja o caso da Federação Internacional de Motociclismo (FIM) avaliar até que ponto seria intrusivo definir uma escala com dias de recuperação que podem ser exigidos de acordo com o tipo de lesão. Tudo o que aconteceu com Marc Márquez, a pressa para voltar a competir é apenas mais uma consequência do sucesso de sua carreira.


 

Para estabelecer o alcance da lesão de Márquez, a última foto publicada nas redes sociais do piloto aparece com uma proteção em todo o seu braço direito. Esta proteção só é utilizada para obter uma imobilização total do membro, e só pode ser explicada porque a pseudoartrose no braço do campeão e o deslocamento da fratura foram significativos. Cabe então a pergunta, qual foi o resultado da nova intervenção e que tipo de recuperação está sendo esperada.

A opinião do o Dr. Rubén García Ruiz é que “Márquez terá dificuldade em recuperar o cotovelo e mesmo que volte a pilotar nesta temporada não será com a consolidação completa”.  O cotovelo é uma articulação importante para um motociclista, é por onde é exercida  toda a força necessária para pilotar um protótipo.  

Todos estes pontos devem ser considerados quando o debate é realizado sobre o equilíbrio entre uma recuperação mais rápida possível para interesses esportivos e o tratamento ou cirurgia mais aconselhável para uma recuperação correta. Na MotoGP usualmente a decisão costuma ser tomada pelo próprio piloto, que assume as consequências.  Um fato não pode ser desprezado, “uma placa é usada para imobilizar, não para substituir a carga de trabalho que um osso está submetido durante a um GP. A MotoGP gira com recursos financeiros vultuosos, o próprio Márquez tem contrato assinado até 2004, não é razoável centrar todas as responsabilidades sobre médicos, este tipo de decisão requer uma análise aprofundada. 

Para o bem da MotoGP, só nos resta desejar ao piloto uma pronta recuperação.

Carlos Alberto Goldani
 
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