03/09/2020 às 16h08min - Atualizada em 03/09/2020 às 15h40min

MotoGP – Temporada 2020 até agora

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
No início dos anos 2000 aconteceu a última grande revolução no principal campeonato de motociclismo do mundo. Alinhada com o esforço global de redução da emissão de gases que prejudicam o meio ambiente, a Federação Mundial de Motociclismo (FIM) e as organizações que administram o campeonato mundial comcordaram em regulamentar motores 4-tempos e baniram os poluidores 2-tempos. Em 2002 o campeonato adotou a marca MotoGP e permitiu um período de transição com o uso simultâneo de motos 990cc 4-tempos e 500cc 2-tempos. Neste ano começou a se impor o talento de Valentino Rossi que em uma temporada de 16 GPs obteve 11 vitórias com uma Honda RC211V, 4-tempos. O tupiniquim Alexandre Barros faz parte desta história, iniciou a temporada com uma Honda NSR500 (2-tempos) e trocou nas últimas provas por uma RC211V (4-tempos), equipamento com que conseguiu 2 vitórias.
 
Em 18 temporadas e meia desde 2002 já foram disputados 321 GPs da principal categoria, quase três quartos foram vencidos por apenas 5 pilotos, Valentino Rossi (65), Marc Márquez (55), Jorge Lorenzo (47), Casey Stoner (38) e Dani Pedrosa (31). Destes apenas 2, Valentino e Marc continuam em atividade, Dani e Jorge atuam como pilotos de testes e Casey frequenta as pistas apenas como espectador.

Casey Stoner - Desmosedici GP7 na Malásia em 2007
 

Entre 2002 e os tempos atuais houveram diversas mudanças que resultaram em vantagens temporárias para um tipo específico de equipamento, por exemplo, quando houve a redução da capacidade volumétrica para 800cc em 2007, a potência do motor Ducati permitiu à fábrica desenvolver um protótipo com desempenho superior aos demais. Com esta máquina Casey Stoner conseguiu 10 vitórias e o título da temporada, o único mundial conquistado com um protótipo da equipe. A alteração da especificação dos motores para 1000cc em 2012 proporcionou 4 anos de vitórias exclusivas das equipes oficiais da Honda e Yamaha. Em 2016 a eletrônica foi padronizada e as fábricas que monopolizaram as vitórias, em grande parte devido à excelência de seu software proprietário, foram surpreendidas com o protagonismo de novos atores, houve 9 vencedores na temporada representando 4 fabricantes.
 
A temporada de 2020 pode de certa forma ser um ponto de inflexão da correlação de forças entre as equipes que disputam a MotoGP. Um novo pneu traseiro produzido pela Michelin necessita de uma nova forma de pilotar para alcançar o seu máximo desempenho. Esta é, talvez, a principal razão para o sucesso de pilotos que normalmente não seriam considerados candidatos a vitórias. São condutores que não tem os chamados vícios de origem, não desenvolveram sua técnica em equipamentos com outro tipo de comportamento. Depois do fenômeno Márquez em 2013, a vitória de um rookie (novato) não era concebível, no entanto aconteceu com Brad Binder em sua 3ª participação em provas do mundial.
 
Valentino Rossi, um nome que é reconhecido como sinônimo de motociclismo esportivo, tem em seu currículo 65 vitórias, 20% dos GPs disputados desde 2002. Rossi não sobe no degrau mais alto do pódio desde Assen em 2017. Sempre considerando a temporada de 2002 como referência inicial, a Honda é a fábrica com o maior número de vitórias, 153, em 2019 venceu 12 das 19 etapas. Este ano os pilotos da fábrica nipônica, depois de 5 provas realizadas, ainda não conseguiram subir ao pódio. Seu piloto mais bem classificado em pontos é Takaaki Nakagami, da satélite LCR, que atualmente ocupa a 6ª colocação com 46 pontos, a frente de Alex Márquez (15º com 15 pontos) e Cal Crutchlow (21º com apenas 7). Embora com o motor esteja atualizado, o chassi utilizado por Nakagami é o modelo 2019.
 

Valentino Rossi em sua Yamaha YZR-M1
 
Durante alguns anos da última década uma pergunta recorrente era qual seria o futuro da MotoGP sem a presença dos seus principais ídolos, Valentino Rossi & Marc Márquez, que atraem multidões aos circuitos. Os dois inclusive dispõem de arquibancadas exclusivas para as suas torcidas, com ingressos vendidos com muita antecedência que ajudam a garantir o retorno financeiro do evento. As primeiras etapas da temporada de 2020 apresentaram a resposta, absolutamente nada. Valentino Rossi está com sérias restrições de equipamento e ainda não encontrou a maneira ideal de lidar com o novo componente traseiro. Marc Márquez está afastado da competição por optar por uma estratégia errada ao tentar apressar a sua volta depois de ter o braço direito fraturado. O seis vezes campeão já ficou afastado de 5 etapas e é quase certo que fique mais duas. A pandemia também obrigou a realização de GPs sem público nos autódromos, um fator adicional para a ausência dos dois ídolos não ser muito sentida. A ausência de Márquez resulta em um campeonato bem mais disputado que em outras ocasiões, com a vantagem de abrir espaços para novos protagonistas.  
 
A temporada de 2020, depois de uma complexa engenharia dos organizadores para programar 14 etapas em um ambiente com restrições de deslocamento causadas pela pandemia, resultou em GPs confinados na Europa e com início no auge do verão. As duas primeiras em Jerez foram realizadas com clima muito quente, não só a ambiente como também a temperatura da pista, que desafiou ao extremo a habilidade e resistência física dos pilotos. Neste cenário a Yamaha foi bem-sucedida, cinco participações em seis pódios. A superioridade apresentada por Fábio Quartararo foi tanta que, com o acidente de Márquez na primeira prova, os mais afoitos prognosticaram que 2020 seria uma reedição de 2019, com a troca do piloto da Honda pelo condutor da Yamaha Petronas.
 
Quatro pilotos e 3 fabricantes dividem as cinco vitórias de provas realizadas até agora, a Yamaha venceu duas vezes com Quartararo, a KTM também venceu 2 com Binder e Oliveira e a Ducati tem 1 vitória com Dovizioso. A Honda, Suzuki e Aprilia ainda não venceram. Binder e Dovizioso são pilotos de representações oficiais, Quartararo e Oliveira disputam por equipes satélite.
 
Na prova da República Checa, terceira do ano, começaram os bons resultados da KTM. A fábrica Austríaca optou por ter apenas um modelo nas provas, as máquinas de Brad Binder e Pol Espargaro da equipe oficial e de Miguel Oliveira e Iker Lecuona da independente Tech3 são da mesma geração. Em Brno e nas duas provas de Spielberg a KTM mostrou um nível de desenvolvimento que a credencia a lutar pelo título.
 
Durante o fim de semana do Grande Prêmio da Styria, antes da KTM conseguir sua segunda vitória na temporada com Miguel Oliveira, Pol Espargaro, o principal piloto da fábrica disse que toda a extensão do progresso do RC16 não estaria completamente clara até o retorno de Marc Márquez. Lembrou que o atual campeão venceu 12 das 19 corridas da temporada passada e está afastado desde que quebrou o braço na abertura do mundial em Jerez. “Tento sempre ser otimista, porém o melhor piloto do grid não está competindo”, explicou Espargaro. “Eu gostaria de comparar com os melhores. Ele não está aqui e eu não sei o que faria, porque Nakagami é muito rápido (com um modelo 2019) e Marc normalmente é mais rápido que ele”. A RC16 é um equipamento muito bom, mas fracassou no calor excessivo das duas provas de Jerez,
 
Espargaro está surpreso com a evolução do equipamento e lembrou que não houve um único avanço em termos de transformar o RC16 em uma máquina de vencedora nesta temporada. O chassi é o mesmo do ano passado, o motor recebeu algumas atualizações e a configuração da eletrônica está bem melhor. Por alguma razão os pneus traseiros, que causaram problemas para algumas fábricas, funcionaram bem com a KTM. Um fato causou estranheza para Espargaro, a KTM respondeu melhor com o pneu dianteiro hard em Red Bull Ring, enquanto Nakagami e os outros pilotos Honda (Alex Márquez, Cal Crutchlow e Stefan Bradl) optaram pelo médio. Exatamente o inverso da temporada passada, onde a Honda sempre usou compostos mais duros do que a KTM.
O sucesso da fábrica austríaca está sendo espelhando na Suzuki, que também vem impressionando em várias pistas nesta temporada, embora tenha conseguido um único um pódio até agora. A moto japonesa tem velocidade, tração e giro. Quando tem pista livre, a GSX-RR tem um ótimo ritmo, como todas as motos com cilindros em linha não é muito eficiente no tráfego.
 
 
Joan Mir com a Suzuki
 
A FIM (Federação Internacional de Motociclismo) está recebendo muitas críticas de pilotos e dirigentes de equipes depois do segundo GP em Red Bull Ring pela ausência ou excesso de punições no Mundial de Motovelocidade.
O mais irritado de todos é era Johann Zarco que se considera injustiçado por ter sido penalizado para largar dos boxes devido ao acidente que envolveu Franco Morbidelli na primeira prova em Spielberg. Zarco foi explícito ao dizer que não confia no atual Painel de Comissários.  Depois da corrida ganha por Miguel Oliveira vários pilotos e a direção da equipe Suzuki criticaram a falta de critério para aplicação das regras.
 
Como diria o comentarista de arbitragem da emissora do Jardim Botânico, a regra é clara, o piloto que ultrapassar os limites da pista na última volta é penalizado com a perda de uma posição. Jorge Martin (Moto2) perdeu a vitória em Spielberg por esse motivo, porém a mesma punição não foi aplicada para Pol Espargaro na prova da MotoGP. “Solicitei na Comissão de Segurança para mudar as regras sobre exceder o limite da pista. O que se passou na última curva no GP da Styria foi diferente, Miller foi agressivo na defesa da sua posição e jogou Pol para fora. A forma como aplicam as regras é estranha. Basta imaginar se o asfalto pintado de verde fosse cascalho ou grama, o resultado seria muito diferente. Posso não estar de acordo, mas as regras existem e temos que competir de acordo” explicou Andrea Dovizioso.
 
Danilo Petrucci, colega de Dovi na Ducati, também contesta as decisões dos comissários: “A maioria dos pilotos não está satisfeita com os comissários porque não existe coerência, O que vale em uma ocasião não é aplicado em outra”.
 
Aleix Espargaro emprestou a sua voz ao coro de críticos: ”Tenho muitas dúvidas sobre o Painel de Comissários, não estou de acordo com muitas decisões”. Zarco vai mais longe: “Eles não têm um trabalho fácil, mas não confio neles. Não acho que sejam as pessoas certas para o posto que ocupam”. Muitos defendem que Jorge Martín não tirou vantagem ao colocar as duas rodas na zona verde da pista que limita o traçado, mesmo assim penalização foi aplicada e sua vitória transformou-se em um 2º. Outros acreditam que também Marco Bezzecchi, que herdou a vitória, também saiu da pista e não foi punido.
 

Pol excedendo os limites da pista
 

Depois da discórdia na corrida da classe intermédia as decisões, ou a falta delas, do Painel de Comissários na prova da MotoGP foram muito criticadas. Pol Espargaro não teve opção pela forma como Jack Miller protegeu sua posição, saiu dos limites da pista e foi autorizado a subir ao pódio. Na mesma prova Joan Mir foi obrigado a ceder uma posição e a corrida por ter ultrapassado os limites da pista. A direção da Suzuki queria seu piloto no pódio no lugar de Espargaro. O antigo campeão Freddie Spencer lidera os três elementos que compõe o Painel de Comissários.
 
 
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