20/08/2020 às 16h14min - Atualizada em 20/08/2020 às 15h49min

MotoGP – Etapa 4 de 2020 (Red Bull Ring)

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
Na reta mais rápida do Red Bull Ring, que não é uma das mais rápidas do campeonato, os pilotos atingem velocidades perto de 315 km/h, contornam a curva 2 e reduzem para entrar na 3, que é feita a 75 km/h. Uma sequência arriscada e complexa, principalmente quando os pilotos estão disputando posições e tem equipamentos com performance muito semelhante. É um procedimento complicado, a moto está desenvolvendo mais de 300 km/h, o piloto precisa acionar o freio dianteiro com uma inclinação de 50° na curva 2, com a certeza que, se algo acontecer, é possível que as motos deslizem até a curva 3.

 

Johann Zarco – Avintia
 
No final do ano passado a Dorna, administradora da MotoGP, realizou um grande esforço para arrumar uma equipe para Johann Zarco. Foi uma decisão pragmática endereçando o mercado francês, onde o piloto tem grande popularidade. Os franceses defendem os interesses de sua pátria e, por extensão, de seus conterrâneos. Fabio Quartararo é francês de nascimento e embora seja mais bem-sucedido, desenvolveu toda a sua carreira na Espanha, Zarco é considerado um francês legítimo e tem a preferência do público. Negociando com fabricantes e donos de equipes independentes, a Dorna conseguiu colocar Zarco na Avintia, com uma moto Ducati de 2019 e garantia de assistência técnica da fábrica. Nas três etapas que antecederam o primeiro GP em Red Bull Ring, Zarco foi 11º e 9º nas provas escaldantes de Jerez e surpreendentemente o 3º colocado em Brno, na frente das Ducati GP20 da equipe oficial e da satélite Pramac. É considerado um piloto impetuoso, suas manobras na pista nem sempre são bem aceitas por outros competidores. Na República Checa ele esteve envolvido em uma colisão que que causou a queda de Pol Espargaro e na primeira prova na Áustria foi acusado de causar o acidente que causou a bandeira vermelha ao tentar defender a sua posição.
 
Na 8ª volta da prova no Red Bull Ring Zarco abriu demais a curva 2 e a partir deste ponto as versões divergem. Zarco diz que não teve opção e buscou a tomada para a curva 3 sem ter notado a presença da moto de Morbidelli. Alguns observadores entendem que o francês sabia a posição da Yamaha 21 e tentou proteger a sua colocação fazendo uma manobra defensiva, Morbidelli ficou sem opção e sua roda dianteira chocou com a traseira da Ducati. Lembrando, era um dos trechos de velocidade mais alta de toda a pista. Morbidelli caiu e sua moto desgovernada foi capotando até a curva 3, onde passou como um projétil pelo estreito espaço entre Vinales e Valentino que estavam saindo da curva. O equipamento de Zarco, depois de descartar o piloto, continuou rodando alinhado e em linha reta, comandado pelo movimento giroscópio, até bater na proteção da defensa metálica e ser catapultado de volta para a pista, passando a centímetros do capacete de Vinales. Por milagre os dois pilotos da Yamaha oficial não foram atingidos e os dois diretamente envolvidos no incidente não sofreram ferimentos graves.

 
 
Moto de Morbidelli passando entre Vinales e Rossi



Ducati de Zarco passando sobre Vinales


 
Destroços da Ducati GP19 de Johann Zarco

 

No calor da emoção as críticas ao piloto francês foram excepcionalmente cáusticas, Morbidelli disse que Zarco é um assassino em potencial e Valentino Rossi apelou para a intervenção dos organizadores porque, em suas palavras, “Ele está louco”. Muitos pilotos quando reduzem a velocidade procuram fechar a porta para impedir a oportunidade de ultrapassagem de quem vem atrás. Na opinião de Valentino, Zarco abriu demais e travou para Morbidelli não o ultrapassar. “Isto é muito perigoso quando se está acima de 300km/h, Morbidelli nunca teve qualquer oportunidade de evitar a batida”.  A atitude do francês pôs em risco todos os que estavam na pista.
 
O comportamento de Johann Zarco nas pistas não é exatamente de um piloto preocupado com a segurança. Dani Pedrosa lembra que ele sempre está envolvido em situações controversas. Um toque de Zarco derrubou Dani na Argentina em 2017, no mesmo ano nas vésperas da última e decisiva etapa em Valência a mãe de Marc Márquez afirmou para a mídia que temia que um acidente com Zarco impedisse a conquista do campeonato pelo filho. A equipe do gaulês liberou dados da telemetria que, segundo afirmam, comprova que o piloto não causou o acidente, a Federação Francesa de Motociclismo também saiu em defesa do piloto. Valentino Rossi abrandou as críticas ao dizer que talvez não tenha sido proposital, mas com certeza foi uma ação irresponsável que colocou em risco todos os pilotos. Por sorte Zarco não vai estar presente na segunda prova de Red Bull Ring, o que pode servir para acalmar os ânimos.
 
Parte da culpa pode ser repartida entre as características do autódromo e os regulamentos da MotoGP. O livro de regras da competição está orientado para todos os participantes terem possibilidades de vitória, os protótipos que disputam a competição estão com o desempenho muito semelhante. Durante os últimos dez anos, as regras técnicas para MotoGP, Moto2 e Moto3 foram reescritas inúmeras vezes para reduzir a diferença de performance entre diferentes máquinas de modo a tornar as corridas mais emocionantes.
 
Esses regulamentos criaram provas com muitas disputas. Novos recordes, quando acontecem, sempre são com uma diferença mínima sobre os anteriores. Um documento publicado pela organizadora da MotoGP, com estatísticas elencando as 10 corridas com a menor diferença entre os 15 primeiros colocados nos 71 anos do mundial indicou que todas são das últimas 3 temporadas.
 
Quando os pilotos usam protótipos e pneus muito semelhante, os tempos por volta tem uma diferença mínima e durante as provas os pilotos ficam muito próximos. Esta é a magia da MotoGP, é ótimo para os espectadores, porém tem consequências. Aumenta a possibilidade de contatos entre os pilotos como também torna as ultrapassagens mais complicadas, o comportamento das motos é semelhante nas frenagens, em curvas ou em retas. Nos dias atuais é quase impossível fazer uma ultrapassagem limpa, a menos que o piloto na frente cometa um erro.
 
 
A consequência é que pilotos se arriscam e usam mais agressividade quando estão tentando passar uns aos outros, ou tentam bloquear os que vem atrás. Nestas condições as colisões são inevitáveis. A natureza humana indica que é necessário procurar um culpado, quando em muitas vezes a responsabilidade por uma ocorrência é difusa.
 
O GP da Áustria
A sabedoria popular é baseada no senso comum, está presente em nosso cotidiano e passa de geração a geração. É lícito afirmar que esse tipo de conhecimento é culturalmente aceito, o que não garante a sua validade. A cultura popular resulta da observação de fatos que se repetem e não obrigatoriamente está correta.  Não é possível confiar nesse tipo de conhecimento como se acredita na ciência, mas também não pode ser desconsiderado, não estabelecer uma metodologia de testes comprobatórios não implica necessariamente que está errado.
 
Os exemplos encontrados na MotoGP são inúmeros. A Honda, fabricante mais vitoriosa desde que as bases das regras atuais foram estabelecidas em 2002 (motores de 4 cilindros e quatro tempos), devia saber o que todos os comentaristas esportivos, usualmente profetas do acontecido, sempre afirmam: “Quem tem um, pode não ter ninguém”. Quando Dani Pedrosa foi aposentado no final de 2018, todas as esperanças da equipe foram centradas na habilidade de Marc Márquez e no currículo de Jorge Lorenzo. A junção de dois pilotos campeões do mundo não funcionou, Márquez continuou a apresentar bons resultados, porém diversos acidentes prejudicaram Lorenzo que, desencantado, solicitou desligamento da equipe no final da temporada passada. Sem alternativas no mercado, a Honda acreditou que competência era genética e contratou o campeão da Moto2 Alex Márquez, irmão de Marc, que ainda não justificou o investimento. Com o acidente de Marc Márquez na prova de abertura da temporada (fraturou o úmero), somado com a infelicidade de Cal Crutchlow, principal piloto da equipe satélite LCR no mesmo fim de semana (fraturou o escafoide), a Honda ficou sem os seus dois melhores pilotos e conseguiu zero pódios nas 4 provas já realizadas. Os poucos pontos que somou para o mundial de construtores foram em sua maioria obtidos com uma RC213V modelo antigo (2019), tripulada por Takaaki Nakagami, Alex Márquez e Stefan Bradl comparecem apenas como figurantes. Nada indica que vai haver mudanças no próximo fim de semana (segunda prova no Red Bull Ring), considerando que o campeão do mundo continua ausente e o britânico ainda não está nas melhores condições.
 
A KTM, que investiu muito nesta temporada, também está amargando os resultados de outro ditado popular: “Goleiro azarado não joga na seleção”. Embora a fábrica tenha conquistado a primeira vitória na República Checa com o novato Brad Binder, seu principal piloto, Pol Espargaro, foi afastado da disputa em Brno por uma manobra atrapalhada de Johann Zarco (sempre ele) quando tinha um ritmo consistente que o creditava para a vitória. No primeiro GP da Áustria, onde liderava, a prova foi interrompida por bandeira vermelha. Depois da relargada não reprisou o seu desempenho brilhante do início e caiu em consequência de um toque com Miguel Oliveira.
 


Pol Espargaro e Miguel Oliveira

 

Nesta temporada o protagonista tem sido do clima. Nas duas provas Jerez foi o calor, em Spielberg, embora o radar meteorológico de grande confiabilidade tenha previsto chuva, o dia da primeira corrida na Áustria esteve ensolarado. Foi um drama em dois atos, um acidente entre Zarco e Morbidelli causou uma bandeira vermelha, que serviu para quebrar o ritmo da KTM de Pol Espargaro, que estava liderando a prova. A corrida foi atípica, com muitos acidentes.
 
Previsível foi o resultado, vitória de Andrea Dovizioso, que manteve o histórico perfeito de cinco vitórias da Ducati nas cinco GPs realizados no circuito. Dovizioso, que no dia anterior havia confirmado que não estaria na equipe no próximo ano, conquistou a 50ª vitória da fábrica, ratificou o seu histórico pessoal de, em número de vitórias para a Ducati na classe principal, só perder para Casey Stoner (23 de Casey e 15 de Dovi). As Ducati, que utilizam recursos que alteram por comandos mecânicos/hidráulicos o ajuste da geometria (metamorfo), são particularmente eficazes nas grandes retas de Red Bull Ring.
 
As Yamaha que assombraram nas etapas de Jerez (5 pódios em 6 possíveis) não repetiram o bom desempenho, Valentino Rossi obteve a 5ª colocação, a melhor classificação entre os equipamentos da fábrica. As esperanças no desempenho de Quartararo, Vinales e Morbidelli não corresponderam às expectativas, o francês, atual líder do campeonato, ficou desconsolado. Como Alex Márquez venceu o mundial de Moto2 na temporada passada por escassos 5 pontos, o seu objetivo era abrir uma vantagem na liderança da pontuação que proporcione alguma tranquilidade quando Marc Márquez voltar a competir, os poucos pontos obtidos na Áustria foram decepcionantes.
 
A fábrica que desafiou a superioridade das Ducati neste traçado (que parece ter sido projetado para as características do equipamento) foi a Suzuki, garantiu o primeiro pódio de Joan Mir com uma ultrapassagem fantástica por Jack Muller na última volta, conseguindo a 2ª colocação. Alex Rins, ainda sem as melhores condições, caiu enquanto tentava alcançar a liderança. 
 
A referência da 3.155º GP do Mundial de Motociclismo com certeza vai ser o incidente entre Zarco e Morbidelli, não pelo que foi, mas pelo que poderia ter sido. Como sempre acontece nestes casos houve uma divergência de narrativas, muitos acusando a temeridade de Johann Zarco, uns poucos dividindo as consequências com falhas do circuito.

Revisão: Renata Veríssimo
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