28/07/2020 às 18h34min - Atualizada em 28/07/2020 às 18h12min

Herói ou maníaco imprudente

Colaboração: Carlos Alberto Goldani

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
Highside de Márquez em Jerez

A tentativa de Márquez em disputar o segundo GP de Jerez no último fim de semana, menos de uma semana depois da cirurgia no braço fraturado, mesmo frustrada atingiu parte de seus objetivos. Como todos os grandes campeões que o precederam, Marc Márquez não quer apenas vencer, quer dominar, impor a sua superioridade sobre todos os competidores, não apenas ser o mais veloz. Seus rivais devem temer qualquer disputa com ele, Marc é capaz de fazer o impossível, coisas que não podem ser replicadas por seus concorrentes. 

No dia 20/07 todo a mídia especializada comentava sua brilhante recuperação na 1ª prova e como havia jogado fora o campeonato por não ter se contentado com o pódio, arriscando até cometer um erro bobo e desnecessário. Desde 22/07 a tônica passou a ser a força de vontade, a resiliência física e mental de considerar competir naquele estado. Marc Márquez provou aos seus rivais que está disposto a ir mais longe do que eles imaginavam.

 

Braço inflamado de Marc Márquez

A atitude e postura do campeão, um herói para alguns e um maníaco imprudente para outros, por paradoxal que pareça é bem recebida por seus colegas competidores. Aleix Espargaro, da Aprilia, sintetizou o sentimento da maioria dos pilotos: “É assim que somos. Isto é a MotoGP”. Demonstrações de força de espírito extraordinária, que beira a insanidade, não são novidade em corridas de motos. Já são  lendárias atitudes como a do piloto Dale Quarterley da AMA Superbike, que esmagou o dedo mindinho em um acidente nos testes que antecediam uma Prova em Laguna Seca na década de 80. Atendido no hospital o cirurgião ponderou 3 procedimentos possíveis, uma série de cirurgias para reconstruir o dedo, um pino que o imobilizaria definitivamente ou a amputação, que talvez o habilitasse a correr no dia seguinte. Dale escolheu a terceira opção e alinhou para a corrida no dia seguinte. Desde então passou a ser conhecido como “Fingerless”.

Em 2012 o britânico Cal Crutchlow quebrou o tornozelo esquerdo no FP3 do GP da Inglaterra. Os médicos prescreveram um repouso de oito a 10 semanas, devia ficar ausente de 4 etapas da temporada. Era o GP na casa do piloto, uma rara oportunidade de estar próximo de seus torcedores. Cal simplificou o conselho dos médicos: "Não colocar peso no pé por oito a dez semanas implica, para um piloto, um tempo entre 8 e dez horas". Quando voltou para o paddock afirmou aos médicos do circuito que estava apto para correr, foi submetido a um rigoroso teste de aptidão e alinhou para a largada no fim do grid por não ter participado da qualificação. Chegou em 7º.

Em 2013 Jorge Lorenzo estava na disputando com Dani Pedrosa a liderança do mundial quando em uma queda no FP2 em Assen quebrou a clavícula. Como estava com a vaga garantida no Q2 pelo tempo obtido no FP1, fretou um jato, voou para Barcelona e foi operado na mesma noite. Voltou para a Holanda e participou da prova, largou na 12ª posição e chegou em 5º. 

Marc Márquez decidiu não participar da 2ª prova de Jerez porque seu braço inflamou devido as características do circuito, que exigem muito esforço do lado direito. Pilotos são dedicados, porém a racionalidade se sobrepõem à imprudência. Quando não há condições sabem que está em risco, além da sua própria integridade, a dos outros competidores. 

Este tempo reduzido para a recuperação de fraturas são resultados de uma técnica cirúrgica de fixação e revestimento de ossos. A técnica conhecida pelo acrônimo ORIF (Open Reduction Internal Fixation), consiste em realinhar os pedaços de ossos quebrados e com pinos, placas e parafusos realizar a fixação interna. O ORIF existe desde o final do século XIX, mas a tecnologia só foi aperfeiçoada por engenheiros médicos nas últimas décadas. O médico que atendeu Márquez utilizou a técnica ORIF no úmero direito que ele quebrou no domingo anterior. O atual campeão estava rodando com um bom ritmo no FP3 e FP4, quando sobreveio uma inflamação, provavelmente originada da trepidação do guidão e do esforço de frenagem (até 2 g), que restringiu a força no braço.


 
Fabio Quartararo já é o piloto francês mais bem-sucedido em mais de 70 anos de campeonatos mundiais da classe principal. Sua segunda vitória consecutiva o habilita a aspirar o título deste ano, mesmo porque ainda não está garantido sequer o número de etapas desta temporada. O calendário provisório indica 13, porém ainda podem haver cancelamentos em função da pandemia. O piloto parece ter personificado o que foi chamado no final da era Bridgestone na MotoGP de “Modo Lorenzo”. O espanhol aperfeiçoou a arte de fugir do apagar das luzes para liderar cada volta.

 
 

Valentino Rossi & Maverick Vinales

As motos Yamaha só tiveram a sua supremacia ameaçada pela Ducati de Peco Bagnaia, que escalou posições até chegar na vice-liderança, quando seu motor falhou. A Yamaha colocou 3 motos nas primeiras posições e a pior classificada, embora o resultado muito comemorado, foi a de Valentino Rossi. A Honda foi representada por Nakagami (4º) e Alex Márquez que fez uma ótima prova, partiu da última posição para finalizar em 8º. Duas Suzuki marcaram presença entre os top 10, Joan Mir em 5º e Alex Rins em 10º, Pol Espargaro conduziu a única KTM até a sétima colocação e as Ducati de Dovizioso (6º) e Johann Zarco (9º) fecharam a relação dos 10 primeiros. 

A euforia dos resultados no início da temporada, 5 pódios dos 6 possíveis, não entusiasma muito os dirigentes da Yamaha e é acompanhada por uma grande preocupação por seus engenheiros por falhas de motor, duas na primeira semana (Vinales nos treinos e Rossi na prova) e Morbidelli na segunda prova.  No último fim de semana os quatro pilotos utilizaram motores novos, o segundo de um total de cinco. Maverick Vinales já perdeu um motor, o que pode complicar as suas aspirações ao título.

Se confiabilidade dos motores Yamaha eventualmente pode ser um problema, a falta de potência com certeza é. Os motores V4 tem aproximadamente 30 HPs mais sobre o motor em linha da M1, não foi significativo no circuito plano de Jerez com uma reta curta de pouco mais de 600 metros, pode ser desastroso no resto previsto da temporada,  Nos circuitos de Brno, Red Bull Ring, Misano, Barcelona, Le Mans, Aragão e Valência a vantagem da velocidade nas curvas da Yamaha pode não fazer a diferença, Em todas elas a potência das Motos V4 deve ser privilegiada. Na República Checa o circuito apresenta um desnível de 75 metros, em 2019 a Yamaha melhor colocada foi a de Valentino Rossi em 6º a 9 segundos do vencedor. O Red Bull Ring já foi definido como três provas de quilometro de arrancada intermediadas por um balão, o atual traçado tem a exclusividade de vitórias da Ducati, em 2019 Fábio Quartararo classificou em 3º, a 6 segundos do vencedor Andrea Dovizioso. 

Os engenheiros da Yamaha nunca param de trabalhar para conseguir mais potência do motor da M1, mas um 4 cilindros em linha simplesmente não é tão robusto quanto um V4. Quanto mais alteram para aumentar a potência, maior a probabilidade dos motores apresentarem problemas.

 

 

Há uma outra variável que deve ser considerada, a atual pandemia. O combate ao Corona Vírus pode interromper ou mesmo terminar a temporada a qualquer momento. Dorna realizou um grande esforço para programar 13 etapas, porém picos ou segunda onda de contágios podem causar fechamento de fronteiras ou restrições em áreas localizadas. É uma situação bizarra, os pilotos não sabem se estão disputando um campeonato de nove, 13 ou até mesmo 16 corridas, se as 3 fora da Europa forem confirmadas. Nesta ótica a situação de Quartararo é confortável.

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