29/06/2020 às 09h25min - Atualizada em 29/06/2020 às 09h25min

MotoGP: Wet Race

Colaboração Carlos Aberto Goldani

Carlos Alberto Goldani - STH Automobilismo

 O GP da Fórmula 1 no circuito do Estoril em 1985 foi disputado abaixo de mau tempo. Desde aquela ocasião as casas de apostas de Londres passaram a adotar como regra “devolver” as apostas em Ayrton Senna quando a previsão do tempo indicava chuva para o horário da prova. Devolver significava pagar £1,01 por cada libra apostada, era o reconhecimento formal da capacidade do piloto em controlar o equipamento na chuva. Onze anos depois, em 1996, Damon Hill e Jacques Villeneuve dominavam a F1 com os Williams Renault, os melhores carros das pistas. Os F310 da Ferrari, apelidados de “banheirão”, em condições normais não eram páreo para os FW18 da equipe britânica. Então aconteceu o GP da Espanha, sétima corrida da temporada, com a pista em péssimas condições. O clima chuvoso nivelou os carros e o talento de Michael Schumacher fez a diferença. Em pistas molhadas vale a capacidade dos pilotos.
 
Os exemplos citados foram portados da F1, porém podem ser aplicados sem nenhuma chance de erro na MotoGP. O clima hostil separa os verdadeiros pilotos dos bons condutores.
 
Para quem costuma imaginar que uma etapa da MotoGP (inclui Moto2 & Moto3) implica em pouco mais de algumas horas confortavelmente sentados em frente a uma TV, não imagina o trabalho insano que é preparar um par de protótipos para um fim de semana. As condições em que acontece um evento nunca são iguais.
 
Mesmo quando o circuito hospeda um GP em anos seguidos, as condições da pista nunca se repetem, como pôde ser observado na temporada passada no Circuito da Américas em Austin, onde o asfalto deteriorou, ou no desastre em que se transformou o piso de Silverstone em 2018.
 
Todos os aspectos da pista e dos equipamentos são analisados, permitindo que os mecânicos configurem as motos de acordo com as condições do piso e preferências de cada piloto. O clima, mesmo com todo o avanço científico na análise das previsões, ainda pode reservar surpresas inesperadas.
 

 
Se existe a previsão de chuva para o fim de semana as equipes configuram dois equipamentos, um para piso molhado e um para piso seco. Planejar detalhes como a alocação de pneus é o mais fácil, porém, mesmo que os fatores climáticos indiquem com razoável certeza como o tempo deve se comportar, a imprevisibilidade sempre existe. Em Phillip Island, por exemplo, pela proximidade do oceano o clima muda de forma imprevisível em pouco mais de 15 minutos. Esta inconstância também existe em Silverstone e em outros circuitos do calendário. Em caso de mau tempo repentino, as equipes têm protocolos para ajustar uma moto para seco ou molhado em menos de 5 minutos.
 
O roteiro para reconfigurar o equipamento inclui troca de pneus, freios, amortecedores, molas, reequilibrar a moto, adequar o software eletrônico e uma pequena alteração na parte inferior da carenagem, removendo os receptores que servem o para evitar derramamento de óleo em caso de falha técnica para não acumular água.
 
Embora as mudanças óbvias endereçam pneus e freios, as outras que não comentadas com frequência são igualmente importantes. A suspensão e o amortecedor da frente são trocados. A troca da parte traseira é mais complexa, requer muito mais trabalho e só é possível no curto espaço de tempo se a equipe já tiver um sistema todo configurado e pronto para ser instalado. Isto só acontece com os equipamentos das equipes oficiais de fábrica (orçamentos mais robustos). O protótipo exige um reequilíbrio total, um processo delicado que é realizado por um profissional qualificado, essencial para um bom desempenho na pista. Um especialista em eletrônica atualiza os parâmetros da ECU e IMU (o núcleo do software é padronizado).



Suspensão dianteira
 
Até recentemente, chuva indicava o retorno para os discos de freios de aço, porque a eficiência dos discos de fibra de carbono requer uma janela de temperatura muito estreita. Esta limitação foi removida graças aos avanços tecnológicos realizados pela Brembo, fornecedora de todos os fabricantes.  Os pilotos podem optar manter os discos de carbono, mas as pastilhas devem ser obrigatoriamente serem trocadas por peças mais eficientes de acordo com as condições do tempo. Caso a equipe decida reverter para os discos de aço, requer uma mudança completa do sistema, incluindo as pinças e drenagem do sistema hidráulico.
 
Os pneus para piso molhado têm o mesmo processo de fabricação dos pneus slick (para pista seca). Uma seleção de compostos é desenvolvida pela Michelin considerando as condições para melhor desempenho em pistas secas ou molhadas, podem ser simétricos ou assimétricos dependendo do layout do circuito. As opções para piso molhado normalmente são variações de pneus macios. Os compostos para tempo úmido normalmente têm ranhuras porque, embora a superfície de contato com a pista seja mínima (menor que um cartão de crédito), pode ocorrer o fenômeno de aquaplanagem.
 

 
Muitas outras coisas podem acontecer quando autorizada uma largada com chuva. Atrasos, a corrida pode ser interrompida, reiniciada ou até ser encurtada. Houve até um caso, GP da Inglaterra de 2018, que foi cancelada por absoluta impraticabilidade da pista. Quando isto acontece todos perdem, ingressos não são vendidos, pilotos que não podem competir, equipes que investiram em transporte e infraestrutura, patrocinadores que não obtém retorno publicitário e equipes de TV que reservaram canais internacionais.
 
Quando uma prova é declarada pelo diretor como pista molhada (Wet Race), usualmente permite a troca de equipamento porque o desgaste dos componentes tende a ser é mais acentuado. O público e os pilotos são informados por bandeiras brancas nos postos dos comissários de pista. Os pilotos são então autorizados para entrar nos boxes e trocar de equipamento, o mesmo acontece caso tenham iniciado a corrida no molhado e a pista secar ou vice-versa. Este procedimento é chamado de Flag-to-Flag.
 

 
A condição de pista molhada é indicada claramente pela direção da prova por uma placa classificando a prova de “Wet Race”. Neste caso todos iniciam com configuração para pista molhada.
 
Diversas provas já foram decididas na troca de equipamentos. O GP de Brno em 2017 foi declarado como Wet Race e todos os pilotos começaram com pneus de chuva. A pista secou rapidamente e os pilotos começaram a entrar no pit para trocar de moto. A Honda havia preparado para Márquez um protótipo para molhado e um segundo para tempo seco, a Ducati teve de se manter seus pilotos na pista enquanto o box readequava a sua segunda moto. Márquez venceu a prova com facilidade.
 
Pode acontecer que uma prova declarada para pista seca e, depois de iniciada, começar a chover. Neste caso a direção de prova mostra a bandeira branca permitindo que os boxes reabram para a troca de motos.
 
Uma prova pode ser retardada se houver uma indicação clara de mudança rápida do tempo. Neste caso os pilotos permanecem nos boxes para os ajustes necessários, a formação do grid e a volta de apresentação são mantidas. Caso um equipamento não consiga ser preparado a tempo, o condutor deve permanecer no box e largar do pit lane depois que o último competidor passar.
 
O Regulamento Geral da Competição cobre qualquer omissão com a seguinte cláusula:
"As condições climáticas e sua gravidade nunca podem ser previstas com precisão de modo a cobrir todas as possíveis ocorrências. A Direção de Corrida pode reagir a situações específicas emitindo instruções diferentes. Todas as instruções serão exibidas nos monitores de cronometragem e as equipes serão informadas pela equipe do IRTA"
 
O texto dessa regra permite que a direção da corrida tome qualquer decisão necessária para garantir a segurança dos pilotos e espectadores. Foi o que aconteceu em Rio Hondo, 2018. Todos os pilotos voltaram aos boxes depois da volta de apresentação, com exceção de Jack Miller, que ficou isolado no grid. Como era impossível garantir a segurança de 22 pilotos largando do pit lane, a direção da prova optou por um tipo de distanciamento social, Miller largou com uma vantagem de 50m.
 

 
Se durante uma prova o tempo tornar impraticável a sua continuidade, uma bandeira vermelha deve ser acionada. Os competidores devem voltar aos boxes e, se as condições melhorarem, um procedimento de largada rápida mantendo as colocações quando da interrupção (sem volta de aquecimento) pode ser realizado. Pode acontecer algum imprevisto que provoque a entrada do safety car, a MotoGP utiliza dois veículos, um para atender a ocorrência e um segundo para manter os pilotos em uma velocidade segura. Há também a possibilidade de a corrida ser encurtada para apenas dois terços de seu comprimento original. Quando a bandeira vermelha é acionada e a prova não puder ser reiniciada, se mais de três quartos da corrida tiverem sido disputados a contagem de pontos é integral.
 
Em raras circunstâncias, o evento é cancelado. Aconteceu na etapa da Inglaterra 2018, chegou a ser aventada a possibilidade de postergar o evento pata a segunda feira, mas não foi possível.

 
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