03/06/2020 às 08h21min - Atualizada em 03/06/2020 às 08h21min

MotoGP: um dia para esquecer!

Por Carlos Alberto Goldani

Carlos Alberto Goldani - STH NEWS
 
A MotoGP busca um modo de sobreviver ao caos social gerado pelo Corona Vírus, muitos indicam o ano de 2020 como mais um ponto de inflexão na trajetória do evento regulamentado pela FIM (Federação Internacional de Motociclismo) em 1949. As esperanças de organizadores, fabricantes, pilotos e pessoal de retaguarda envolvido é que o Mundial de Motociclismo retorne com o brilho habitual de competição e espetáculo, porém todos entendem que deve ser mais adequado à economia e ao ambiente mundial depois da pandemia. O histórico da motovelocidade indica que o esporte sobreviveu a outros tempos complicados, que prenunciavam um futuro nebuloso. Os 71 anos do mundial já conviveram com diversas ocorrências que forçaram mudanças de características e atitudes firmes para a readequação a novos valores, o evento mais trágico aconteceu no início da prova de 250cc do GP da Itália, disputado na pista de Monza, em 20 de maio de 1973.
 
O fato tem que ser contextualizado. Os regulamentos dos anos 70 permitiam que um piloto competisse simultaneamente em mais de uma categoria, em 1973 especificamente havia a disputa das classes 50cc, 125cc, 250cc, 350cc & 500cc. A pista de Monza ainda não tinha a chicane que antecede a primeira curva e áreas de escape simplesmente não existiam, a proteção para evitar que os espectadores pudessem ser atingidos por equipamentos fora de controle era realizada por defensas metálicas (guardrails) e fardos de feno.


Pista de de Monza com chincane que antecede a grande curva.
 
Na largada da classe 250cc todo o conjunto de motos despejou potência em direção à Grande Curva, cujo contorno era realizado acima de 220 km/h. O alemão Dieter Braun liderava com sua Yamaha, seguido de perto por Renzo Pasolini em uma Harley-Davidson e Jarno Saarinen em outra Yamaha. Saarinen havia vencido Pasolini por um ponto na disputa pelo título mundial da categoria no ano anterior e o finlandês foi o segundo na classe 350cc, 11 pontos à frente do italiano na mesma temporada (Giácomo Agostini foi vencedor das 500cc e 350cc). Jarno Saarinen estava realizando uma temporada fantástica, venceu 2 das três primeiras provas da 500cc e todas (3) realizadas na classe 250cc, era considerado o melhor piloto em atividade e favorito para ambos os títulos em 1973.
 
No ponto de tangência da curva um dos pistões da Harley-Davidson quebrou, travou a sua roda traseira e jogou Pasolini na pista, Saarinen não conseguiu evitar o choque com a moto avariada. O finlandês de 27 anos perdeu o controle da sua Yamaha e bateu com violência no guardrail, que o jogou de volta para a pista onde foi atropelado pelos demais competidores, provocando a queda de vários pilotos. Alguns bateram com violência na defensa metálica, houve vazamento de combustível e uma fagulha causou um enorme foco de incêndio, alimentado pelos fardos de feno que inutilmente estavam forrando a Armco (identificação do fabricante da defensa, a American Rolling Mill Company). Não havia como parar as motos e alguns pilotos tentaram atravessar o inferno em alta velocidade, muitos não conseguiram evitar a queda. O resultado do acidente foi trágico, 14 pilotos caíram, alguns seriamente feridos, Saarinen e Pasolini foram declarados mortos na pista. Apesar da cena de horror, nenhuma bandeira de sinalização foi acionada e a corrida não foi interrompida. Por algum tempo os sobreviventes continuaram correndo, atravessando o caos a cada giro, até que entendendo o absurdo da situação pararam nos boxes por conta própria, a
corrida terminou por falta de competidores.


 
Dois meses depois, motos voltaram a correr em Monza na disputa de um campeonato nacional. O Dr. Claudio Costa (que mais tarde foi responsável pela Clínica Móvel da MotoGP) teve um pedido de autorização para colocar uma ambulância na Grande Curva negado, o custo não estava previsto no orçamento da prova. Houve outro engavetamento, desta vez sem fogo. O socorro médico levou 20 minutos para chegar ao local, tarde demais para evitar a morte de mais três pilotos.
 
Em 1973, ano da única vitória do piloto tupiniquim Adu Celso em campeonatos mundiais de motovelocidade, a integridade dos pilotos não era um item valorizado pelos organizadores. Monza não era a única pista com segurança precária, o circuito da montanha na Ilha de Man com todo o seu histórico de fatalidades constava no calendário.
 
Em função do acidente em Monza em 1973 a Yamaha retirou sua equipe oficial de fábrica pelo resto da temporada, era necessário proteger melhor o tanque de combustível que, supostamente, não resistiu ao impacto. Diversas pessoas atribuíram a culpa pelo acidente às condições da pista, a Benelli de Walter Villa sofreu um vazamento de óleo durante a corrida de 350cc que antecedeu à fatídica prova, vários pilotos solicitaram aos organizadores para limpar a pista antes da largada das 250cc ser autorizada, não foram atendidos. Uma investigação posterior descobriu que um pistão da Harley-Davidson estava quebrado, concluíram que o estado da pista não foi a causa do acidente e atribuíram a culpa a um sistema rudimentar de refrigeração a água na moto de Pasolini.
 
O acidente de Monza não teria sido fatal se o circuito não estivesse cercado por Armco. Pasolini e Saarinen morreram porque a rigidez das barreiras os mandou de volta para a pista depois do primeiro impacto, infelizmente na frente dos outros competidores. De certa forma foi semelhante ao que aconteceu com Marco Simoncelli em Sepang (2011), as diferenças foram que o piloto não foi jogado pelas barreiras (que não existem naquele trecho da pista da Malásia) e não houve fogo.
 
Armco passou a ser um problema no início da década de 1970, depois que a Fórmula 1 exigiu providências para evitar que carros fora de controle atingissem os espectadores. Para os pilotos de motos as defensas de aço são tão perigosas quanto as paredes de concreto ou muros de pedras em alguns trechos na Ilha de Man. Um passo à frente para a segurança dos pilotos da Fórmula 1 criou armadilhas mortais para os pilotos de motocicletas. Na época parte do financiamento dos organizadores era a indústria de apostas, o faturamento com os carros era muito superior ao das motos e os pilotos de duas rodas eram relegados a um segundo plano nas especificações dos circuitos.
 
A criação da International Road Racing Teams Association (IRTA) em 1986 estabeleceu uma voz formal dos pilotos no diálogo com os organizadores. Houve um avanço notável quando a Dorna assumiu o controle da MotoGP em 1992, um acordo que não haveria provas em circuitos que não tivessem a segurança adequada. Atualmente quando alguém como Hermann Tilke (criador de, entre outros, Sepang, Xangai, Yas Marina, Austin e autor do projeto de Deodoro no Rio de Janeiro) desenha um novo circuito, existem normas que devem ser seguidas para haver provas de motociclismo.
 
A segurança perfeita nunca pode ser alcançada. Corridas de motos sempre convivem com a possibilidade de acidentes, muitos argumentam que o perigo é necessário para diferenciar as qualidades de um piloto campeão quando o homem e a máquina estão buscando o seu melhor desempenho. Perigo desnecessário e sem sentido pode e deve ser eliminado, esta é a obrigação dos organizadores da MotoGP.
 
 
Jarno Saarinen



Jarno Saarinen era um tipo de Marc Márquez da época, tinha tudo para ser o maior de todos os tempos. Sua técnica exclusiva foi desenvolvida como piloto em pistas de gelo na Finlândia. Suas habilidades inspiraram Kenny Roberts a criar o seu estilo, arrastar os joelhos e andar de lado. Em uma entrevista após a conquista do título em 1978 o americano explicou: "Comecei a andar no Ontario Motor Speedway em 1972, a pista tinha uma ferradura onde eu me sentia desconfortável, como se uma queda fosse inevitável. Então me inspirei em Jarno, ele se inclinava na moto com o joelho para fora, eu o imitei e o sentimento ruim desapareceu”. Pilotos finlandeses que disputavam provas no gelo como Jarno Saarinen influenciaram toda uma uma geração de pilotos americanos como Kenny Roberts e Fredie Spencer, que iniciaram suas carreiras em dirt tracks (pistas de terra).
O finlandês tinha formação acadêmica em engenharia mecânica e sempre foi muito meticuloso preparação das suas motos. Sua principal característica era posicionar seu guidão em um ângulo extraordinariamente íngreme, que ele alegava ajudar a controlar a roda traseira derrapando. Sua curta carreira contabiliza 46 largadas, 15 vitórias e 32 pódios, para efeitos de comparação o percentual de pódios em relação às largadas de Jarno Saarinen foi de 70%, os números de Rossi e Márquez são, respectivamente, 58% e 65%. O finlandês foi campeão mundial da classe 250cc na temporada de 1972. Em 1973, antes de Monza, disputou 6 provas nas categorias 250cc e 500cc, venceu 5.

Largada GP Itália - Circuito de Moza  1973
 
Revisão: Renata Verissimo

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