26/05/2020 às 19h22min - Atualizada em 26/05/2020 às 19h22min

MotoGP: Meu GP inesquecível

Por Carlos Alberto Goldani

Carlos Alberto Goldani - STH NEWS

Consenso nunca deve existir quando as discussões endereçam cores, gostos e preferências em esportes. Com o período de confinamento, necessário para adaptar os recursos de saúde pública para o confronto com a pandemia do Corona Vírus, proliferaram nas redes sociais várias enquetes visando eleger qual a melhor prova da MotoGP de todos os tempos. Sempre tive uma predileção especial pelas edições de Phillip Island em 2015 e Rio Hondo em 2018
 
Phillip Island 2015

A 16ª etapa do mundial de MotoGP de 2015 foi realizada na Austrália, autódromo de Phillip Island. Após a corrida no Japão na semana anterior, Valentino Rossi liderava o campeonato 18 pontos à frente de seu companheiro de equipe Jorge Lorenzo, os dois eram os únicos com chances de vencer a temporada. Na etapa anterior no Japão a Movistar Yamaha havia conquistado com antecedência o mundial por equipes e o título de construtores ainda estava em aberto.
 
 Marc Márquez obteve a pole e, em um momento raro para o esporte, Iannone e Lorenzo empataram em segundo lugar, ambos os pilotos com exatamente o mesmo tempo de qualificação. Os critérios de desempate favoreceram Iannone, que obteve seu tempo antes Lorenzo durante o treino classificatório.  A Ducati de Iannone liderou a corrida na curva 1 depois da largada e foi ultrapassada por Lorenzo na curva 8. No início da segunda volta Iannone retomou a liderança, atropelou uma gaivota e perdeu a concentração, permitindo que Lorenzo voltasse para a primeira posição e que Márquez se juntasse a eles na disputa. A luta entre os três primeiros tornou evidente as diferentes características dos equipamentos Ducati, Yamaha e Honda. A Ducati de Iannone tinha maior entrega de potência e ultrapassava os concorrentes com facilidade na reta principal, a Yamaha de Lorenzo tinha a melhor velocidade de curva e a Honda de Márquez era mais consistente em todo o circuito. As constantes disputas de posições entre os três primeiros permitiram que Rossi se juntasse ao grupo. Lorenzo gradativamente começou a estabelecer uma vantagem deixando Márquez, Iannone e Rossi disputando pela segunda colocação.


 
Um ponto alto da prova ocorreu na volta 25 (das 27 programadas), Lorenzo ainda mantinha uma vantagem com Márquez, Rossi e Iannone em seu encalço. Rossi tentou passar Márquez, a manobra deixou espaço aberto para Iannone ultrapassar os dois pilotos pulando de quarto para segundo, com certeza uma das mais espetaculares ultrapassagens da temporada. No início da volta final Lorenzo estava em primeiro, Iannone em segundo, Márquez em terceiro e Rossi em quarto, com o talento dos grandes campeões e independente do desgaste dos pneus Marc Márquez protagonizou sua volta mais rápida da corrida, conseguindo ultrapassar Iannone no meio do circuito e Lorenzo a duas curvas do final para vencer. Enquanto Lorenzo encerrava a prova atônito com a segunda colocação, Iannone conseguiu passar Rossi nas curvas finais para assumir o terceiro lugar. A diferença entre os dois candidatos ao título ficou reduzida exatos 11 pontos.
Na prova aconteceram 52 ultrapassagens entre os quatro primeiros pilotos, incluindo 13 trocas de liderança. A mídia classificou a prova como uma das melhores desde o início da era quatro tempos. Márquez ficou surpreso por ter ultrapassado Lorenzo a poucos metros do final, seu pneu dianteiro já estava detonado.



Lorenzo admitiu que ficou desolado quando Márquez o ultrapassou, mas reconheceu e elogiou o piloto da Honda por sua “inacreditável última volta”, também classificou a corrida como a “melhor do ano e provavelmente dos últimos cinco ou dez anos”. O evento entre Iannone e a gaivota abriu um rombo na carenagem da Ducati, viralizou nas redes sociais horas após a corrida e, apesar do incidente, o desempenho de Iannone é descrito como a melhor corrida de sua carreira na MotoGP. Rossi não compartilhou as mesmas opiniões positivas da prova, acusou Márquez e Lorenzo de conspirarem contra ele para garantir o título mundial para o espanhol. Denunciou o piloto da Honda por o prejudicar deliberadamente durante a prova e criou um ambiente pesado, que resultou uma semana depois no Incidente em Sepang e impediu o seu 10º mundial.
 
Rio Hondo 2018
 
O segundo GP da temporada de 2018 foi realizado no circuito de Termas do Rio Hondo e entra em qualquer relação de provas diferenciadas em função de uma série de ocorrências na pista. Inicialmente a prova foi definida pela organização como “Wet Race”, ou seja, em um circuito com o piso molhado e permite aos competidores a troca de equipamentos. A volta de apresentação foi autorizada com todos os competidores, à exceção do pole Jack Miller, calçados com pneus para chuva. Como o piso já estava quase seco todos, excetuando a Ducati de Miller, entraram nos boxes após a volta de aquecimento para trocar o equipamento ou os pneus para pista seca. A visão era surreal, uma moto isolada no grid de largada e 23 no pitlane. O regulamento prevê que nestes casos os pilotos do pitlane devem largar após a passagem da última (no caso única) moto na pista. Quando o livro de regras foi escrito, ninguém previu uma situação onde 23 pilotos estariam nestas condições, era impossível garantir a segurança de todos na largada. Depois de algum tempo e muita argumentação, organizadores e chefes de equipes chegaram a uma solução salomônica. Foi criado um grid falso com um tipo de distanciamento social, Miller largou com uma vantagem de 50 m dos demais concorrentes.
 
A sequência de acontecimentos absurdos mal estava começando, instantes antes da largada ser autorizada Marc Márquez começou a gesticular da sua posição no grid, indicando que o motor da sua Honda havia parado. Ato contínuo o piloto empurrou a moto pela pista e a fez pegar no tranco, percorreu então o sentido inverso para reassumir a sua colocação para a largada.  O regulamento não contempla dúvidas, quando isto acontece o piloto deve largar no final do grid e não foi o que aconteceu.



 
Finalmente foi autorizado o início da prova, ainda na primeira volta houve um toque entre as duas Honda da equipe oficial, ambos seguiram na prova, até que um segundo toque entre Dani Pedrosa e Johann Zarco provocou a queda do espanhol. Um fato hilário aconteceu no início da segunda volta, bandeiras brancas começaram a ser agitadas pelos fiscais de pista causando perplexidade aos responsáveis pela cobertura por TV, era apenas a direção da prova comunicando aos pilotos que a troca de equipamento já estava autorizada.
 
A alegria do líder Jack Miller durou apenas duas voltas, logo viu a Honda laranja nº 93 colada na sua rabeta e em seguida foi ultrapassado. Márquez pilotava possuído, sabia que havia cometido uma irregularidade e tinha certeza que seria penalizado, tentava abrir a maior vantagem possível. Quando a sanção foi oficializada, teve que cumprir um ride through e caiu para a 19ª posição, iniciando então uma recuperação alucinada buscando colocações que habilitassem a soma de pontos para o campeonato.
 
Com uma moto excepcionalmente bem adaptada para o circuito e utilizando uma técnica de condução extremamente agressiva, Márquez foi galgando posições. Tentando ultrapassar onde era virtualmente impossível, provocou um contato com a Aprilia de Aleix Espargaro, pela manobra arriscada foi penalizado em devolver a posição, porém quando a penalização foi oficializada já havia ultrapassado outros dois outros concorrentes. Franco Morbidelli não entendeu absolutamente nada, foi ultrapassado por Márquez, recuperou facilmente a posição e foi novamente ultrapassado, tudo em menos de 400 metros.
 
O nonsense atingiu o ápice quando Márquez alcançou Valentino Rossi faltando 4 voltas para o final. Estava em disputa a sexta posição e a Honda muito mais rápida, porém Valentino Rossi não é exatamente fácil de ser ultrapassado, ele ocupou os espaços na pista licitamente, Márquez forçou onde não havia a menor possibilidade e o choque entre as motos foi inevitável. Ambos perderam a trajetória ideal, a Honda ficou melhor posicionada e forçou a Yamaha para fora dos limites da pista, Rossi passou sobre a grama úmida e, totalmente sem aderência, caiu. Pela manobra inconsequente, Márquez foi novamente penalizado. A direção da prova fez a conta exata para tirar a Honda #93 da zona de pontuação, 30 segundos. 


 
Resumo da ópera: Um pódio improvável (Crutchlow, Zarco e Rins), um britânico na liderança do mundial, fato que não acontecia desde os tempos de Barry Sheene, e um descaso acintoso da mídia. A sala das entrevistas (obrigatória) dos vencedores estava às moscas. Todos os repórteres estavam nos boxes garimpando manchetes bombásticas para divulgarem em seus veículos nos dias seguintes. Márquez foi barrado pela claque contratada de Rossi quando tentou uma visita ao seu box para se desculpar. O espanhol também registrou mais um recorde em sua carreira, foi o primeiro piloto da história a ser penalizado três vezes em uma única prova.
 
Pela primeira vez em muitos anos houve uma disputa agressiva entre Rossi e outro piloto em que o italiano não levou a melhor. Em declarações para a imprensa italiana, Rossi tentou fazer pressão psicológica, assegurou que passou a temer pela própria vida ao dividir uma pista com Márquez. Estranho, quando em disputas semelhantes em que se envolveu com o próprio Márquez (Sepang, 2015), Casey Stoner (Laguna Seca, 2008) e Sete Gibernau (Jerez, 2005) ele considerou os toques entre equipamentos incidentes normais em competições.
 
Em termos de disputas, poucas provas na última década rivalizam com a realizada no paradisíaco circuito de Phillip Island em 2015. Para os que curtem adrenalina e não se importam com os lamentáveis acontecimentos, a prova do Rio Hondo em 2018 é imbatível.
 
Revisão: Renata Veríssimo
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