25/05/2020 às 09h00min - Atualizada em 24/05/2020 às 17h10min

MotoGP: Duas Rodas x Quatro rodas

Por Carlos Alberto Goldani

Carlos Alberto Goldani - STH Automobilismo
George Orwell, o autor do distópico romance 1984 publicado no Reino Unido em 1945, também escreveu uma obra satírica chamada “A revolução dos bichos”, que guarda alguma semelhança com o que acontece nos esportes a motor dos dias atuais. O livro narra a insurreição dos animais de uma granja, comandados pelo porco Major.  Para alcançar seus objetivos, os porcos ensinam às ovelhas a recitarem continuamente o mantra “Quatro patas bom, duas patas ruim”. Progressivamente a rebelião degenera para uma tirania, a elite no comando (os porcos) passa a imitar hábitos humanos. As palavras de ordem então são alteradas para: “Quatro patas bom, duas patas melhor”. A evolução descrita na granja pode ser acontecendo nos esportes motorizados, a maturidade e competência na gestão da MotoGP (duas rodas) está aproximando a competição, em termos de sucesso comercial, ao mundial de Fórmula 1 (quatro rodas).
 
O mundial de motociclismo foi oficializado em 1949, um ano antes do primeiro campeonato da Fórmula 1. F1 é a mais popular e avançada categoria dos esportes motorizados, regulamentada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e administrada pela Liberty Media Corporation (USA). Durante as 21 etapas de 2019 a F1 contabilizou mais de 4 milhões de ingressos vendidos, os GPs transmitidos pela TV para todo o planeta alcançaram mais de 1,9 bilhão de pessoas. Os números da MotoGP, que segue regras da FIM (federação Internacional de Motociclismo) e tem os direitos comerciais gerenciados pela Dorna Sports (Espanha) também impressionam, 2,88 milhões de ingressos vendidos em 19 GPs e sinais de TV distribuídos para 101 redes com cobertura em todos os continentes.
 
As entidades que administram os dois esportes trabalham para evitar o desequilíbrio no desempenho dos competidores, para equalizar a performance e aumentar a competitividade, resultando em um espetáculo com diversas disputas. Os esforços das duas entidades, entretanto, esbarram no talento diferenciado dos pilotos. Os últimos 10 títulos mundiais da F1 foram divididos por apenas três pilotos, Lewis Hamilton (2014, 2015,2017, 2018 & 2019), Nico Rosberg (2016) e Sebastian Vettel (2010/2011/2012 & 2013). Na MotoGP a concentração é semelhante, os campeonatos foram vencidos por Jorge Lorenzo (2010/2012 & 2015), Casey Stoner (2011) e Marc Márquez (2013/2014/2016/2017/2018 & 2019).
 
Liberty e Dorna tem orientações divergentes em relação a distribuição dos resultados financeiros das duas competições. Na Formula1 os representantes com maior poder econômico têm uma participação maior na distribuição dos bônus, o que implica em três equipes grandes serem mais evoluídas que o resto do grid. Este problema não existe na MotoGP, onde a competição nunca esteve mais acirrada. Os acordos comerciais beneficiam mais as equipes privadas que os representantes oficiais dos fabricantes. A MotoGP oferece às equipes de fábrica uma contribuição adicional se fornecerem seus equipamentos para as privadas, foi uma solução encontrada para permitir que todos possam competir em condição de igualdade.
 
Tem um ponto onde não há discussão possível, a F1 está mais centrada em tecnologia e a MotoGP acredita mais no ser humano, é um esporte em que a importância de todos é fundamental, mas onde o piloto é o fator mais importante. O acompanhamento via telemetria e sistemas de comunicações entre pilotos e boxes comuns nas quatro rodas inexistem nas duas rodas. Depois da largada o piloto da MotoGP é um lobo solitário que, quando muito, pode ser informado por sinalização ou painéis no muro do pitlane ou via uma minúscula tela em um painel.Não existe a possibilidade de compartilhar com aos boxes o estado dos pneus, se algo estranho está ocorrendo ou solicitar a localização de adversários na pista. Na Fórmula 1 a comunicação biderecional é uma feramenta da competição, boxes e pilotos podem trocar ideias sobre estratégias e repassar orientações o tempo todo.     
 
A Fórmula 1 investe em tecnologias de conservação de energia e proteção do meio ambiente. As unidades de potência são híbridas, um motor combustão tradicional de 6 cilindros em V (V6), de 1,6 litros com turbocompressor, que utiliza os gases do escapamento para comprimir mais ar do ambiente na câmara de combustão, resultando em mais potência. A UP (Unidade de Potência) também utiliza dois sistemas de recuperação de energia, o MGU-K (Motor Generator Unit – Kinetic) que é uma evolução do KERS (Kinetic Energy Recovery System) utilizado há alguns anos com a finalidade de reaproveitar a energia cinética dos freios para oferecer mais potência. O MGU-H (Motor Generator Unit – Heat) recupera o calor gerado pelo turbo para contribuir com mais potência ao conjunto.
 
Uma análise comparativa entre o comportamento de um protótipo da MotoGP e um monoposto da F1 indica que a aceleração inicial é equivalente, com ambos partindo da imobilidade total até atingirem a velocidade de 100 km/h. No intervalo de 0 a 200 km/h a moto tem alguma vantagem porque os sistemas eletrônicos da F1 não permitem o crescimento brusco de velocidade, nas motos o comando da aceleração é todo da sensibilidade do piloto. Do 0 a 300 km/h o monoposto leva vantagem porque a traciona melhor em função da sua aerodinâmica. A velocidade pontual máxima em um trecho linear volta a pertencer às motos, enquanto nos resultados em voltas completas em circuitos é inegável a superioridade dos monopostos. A explicação é simples, apesar da maior velocidade final conseguida pelas motos, os pneus mais largos e a aerodinâmica mais sofisticada dos carros permitem curvas mais ousadas. A aerodinâmica dos Fórmula 1 é muito superior à utilizada pelas motos, até pela possibilidade de utilizar alterações dinâmicas como, por exemplo, “abrir a asa traseira” para reduzir o arrasto.


 
Downforce é o termo técnico que identifica a força que faz uma máquina em movimento a ficar colada na pista, principalmente em curvas de alta velocidade. Com melhor aerodinâmica, o F1 tem muito maior estabilidade, por exemplo, para entrar na curva 1 após a reta principal do circuito Ricardo Tormo em Valência, o carro de F1 reduz de 312 km/h para 240 km/h, o moto reduz de 327 km/h para 115 km/h. Em alguns casos o piloto da F1 só precisa aliviar o acelerador (usar o freio motor) para entrar na curva, enquanto o piloto de MotoGP precisa acionar agressivamente os freios. A aerodinâmica mais elaborada e a área de contato maior dos pneus faz da frenagem outro ponto onde um F1 leva ampla vantagem.  Um monoposto da F1 tem uma vantagem adicional, o carro é mais estável graças ao centro de gravidade baixo e melhor tração. A moto, em aproximações de curvas, precisa frear com antecedência e o piloto trabalha com todo o corpo criando um centro de gravidade dinâmico.


 
O trabalho de um piloto na MotoGP é muito mais desgastante que na F1. O condutor de um Fórmula 1 utiliza um cinto de cinco pontas, que passam por cima dos ombros, nas laterais e entre as pernas, com tensão suficiente para não permitir que o corpo se desloque dentro do cockpit por conta das forças (g) exercidas em curvas e freadas. O piloto da MotoGP depende apenas de sua força física para se manter na moto e joga com a posição do corpo para alterar o centro de gravidade e equilibrar o veículo nas curvas. Por conta do esforço físico exigido dos pilotos, os GPs de motos são mais curtos, uma prova na Fórmula 1 tem pouco mais de 300 km de extensão, na MotoGP fica entre 95 e 130 km, dependendo do circuito. As dimensões menores da moto implicam em desvantagens em alguns momentos, mas são elas que habilitam a maior agilidade, a magia e as disputas eletrizantes que faltam à Fórmula 1 atual, onde em geral corridas são vencidas nas trocas de pneus e não dentro da pista.



Revisão Renata Veríssimo

 
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