20/05/2020 às 08h56min - Atualizada em 20/05/2020 às 08h56min

MotoGP: Motores desligados, dias estranhos

Por Carlos Alberto Goldani

Carlos Alberto Goldani - STH Automobilismo



Estamos vivendo dias estranhos. Nem os meus sonhos mais delirantes imaginei que seria bem recebido ao entrar mascarado em um estabelecimento bancário, seria atendido por um funcionário educado, sairia com dinheiro no bolso e ainda ouviria de um segurança “tenha um bom dia Sr., volte sempre”.
 
Parodiando Lulu Santos, ”Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia.” A situação atual da MotoGP é semelhante à de um piloto correndo em uma pista molhada, com pneus slick e a viseira do totalmente embaçada. Ninguém sabe o que vai acontecer em um futuro próximo, se vai haver e como será a temporada de 2020. A única certeza que temos é que a MotoGP que todos estavam acostumados já não existe. Todos na organização do campeonato estão trabalhando em diferentes cenários para, se houver chance, retomar as provas este ano. A atual crise em que se encontra o esporte deve mostrar o que é absolutamente necessário para a competição e o que é supérfluo, sem alterar a essência das corridas.
 
Economia é a palavra central do processo. Um dos primeiros objetivos é descobrir qual é o número mínimo de pessoas necessárias em um circuito para não descaracterizar uma prova. Uma equipe de fábrica em tempos antes da crise deslocava uma centena de funcionários para cada GP, incluindo pessoal de marketing, gestão e hospitalidade. Este número pode ser reduzido para 40 em cada prova, para manter o show sem sacrificar o espetáculo. Equipes independentes calculam um mínimo entre 20 e 25 funcionários, incluindo chefe de equipe, responsável pela eletrônica, analista de telemetria, três mecânicos, um especialista em pneus/combustível, incluindo também os técnicos do fabricante de pneus (Michelin), do fornecedor da suspensão (Ohlins ou WP) e do especialista em freios (Brembo), além do pessoal administrativo. Considerando o universo das três classes (MotoGP, Moto2 e Moto3) o contingente de pessoas em serviço nas provas pode ser reduzido de 3.000 para 1.500 pessoas. Ainda assim é um número razoável, que pode esbarrar em restrições sanitárias dos países que hospedam circuitos. Há ainda o problema do transporte, empresas aéreas foram particularmente prejudicadas durante a pandemia e não há uma previsão de quando podem voltar a prestar bons serviços.
 
A organização da MotoGP está negociando com as autoridades regionais e administrações de autódromos sobre a prováveis datas para iniciar a temporada de 2020. A Dorna manteve contatos com o Governo Regional da Andaluzia e com o Prefeito de Jerez, propondo realizar duas provas sem público nos dias 19 e 26 de julho. É necessária a aprovação do governo espanhol e deve ser criado um protocolo que permita assegurar a segurança de todos os envolvidos. O fluxo financeiro deve ser invertido, em vez de cobrar uma taxa pela realização de um evento a organização da MotoGP deve alugar a pista, pagando por sua manutenção e segurança. Ainda não houve uma resposta. Existem procedimentos semelhantes com os governos dos países que tem autódromos habilitados a receber a competição e, talvez, na primeira quinzena de junho possa ser proposto um calendário. Há ainda o complicador da Fórmula 1, seria desejável não haver a coincidência de datas, mas há pouco tempo para muitos eventos. A tarefa é insana, diversos países impõem restrições e alguns especialistas insistem que grandes eventos esportivos, festivais e assim por diante, não devem recomeçar até meados de 2021.
 
A administração da MotoGP não especifica um número mínimo de corridas por temporada e está ciente que provavelmente todas sejam realizadas sem a presença do público. Os participantes já se comprometeram com a economia de custos ao concordar em ficar com as mesmas motos utilizadas nos testes no Catar, no início deste ano, para a temporada de 2021. Em verdade não é um programa de economia de custos, é um programa de sobrevivência. A International Road Racing Teams Association (IRTA), que é formada por equipes, fornecedores de suprimentos e patrocinadores que participam da MotoGP, já liberou uma contribuição financeira para as equipes Moto2 e Moto3 e planeja ajudar as equipes independentes da MotoGP. A Dorna está fazendo um trabalho incrível porque entende que ao ajudar as equipes a continuar, quando a crise passar pode reiniciar tudo sem perder muito tempo. Se equipes forem à falência, perderão funcionários e o grid de largada pode ser muito reduzido prejudicando o espetáculo. A próxima tarefa é desenvolver regulamentações de corte de custos a longo prazo, porque quando o mundo sair dessa crise haverá mais desemprego e menos dinheiro, o que significa menores vendas e lucros reduzidos para os fabricantes. O raciocínio das fábricas é linear, só gastar o que ganha, menos lucros implica forçosamente em orçamentos menores para competições. É uma equação complexa, a MotoGP tem por finalidade desenvolver motocicletas ao mais alto nível. Manter as mesmas motos pelos próximos dez anos implicaria em uma economia muito grande, mas também haveria menos dinheiro dos patrocinadores porque todos querem ver novidades. As fábricas estão tomando medidas drásticas para superar esta crise e sobreviver às suas consequências. No ambiente da MotoGP todos, pilotos, gerentes, técnicos e pessoal da retaguarda já concordaram em cortar os salários, até porque a produção e comercialização de motos está paralisada
 
Antes da pandemia no longo prazo estavam planejados 22 GPs por temporada, objetivo que dificilmente vai ser alcançado. A economia mundial vai ser diferente, por isso é difícil imaginar 22 corridas por ano a partir de 2022.Talvez o número se estabilize em 18, com alteração no modelo de financiamento do negócio. Até o final da temporada passada as equipes independentes recebiam 50% das despesas dos patrocinadores e 50% dos organizadores, esta proporção pode mudar. Os organizadores ficarão este ano sem as taxas pagas pelos circuitos, que por sua vez não poderão contar com ganhos das bilheterias e turismo na região.
 
A pandemia complicou o mundial de motovelocidade de muitas maneiras diferentes, algumas e inesperadas e foram necessárias uma série de exceções às regras para a temporada 2020. Uma medida já havia limitado o desenvolvimento de motores porque os fabricantes tiveram suas fábricas fechadas, todos os concordaram em usar os motores que deveriam homologar para a temporada de 2020 na temporada 2021. A Aprilia ficou em uma situação complicada porque acabou de produzir um novo motor de V4 90°, uma reformulação radical e ainda não suficientemente testada, ou seja, sem a confiabilidade comprovada. Para não penalizar o fabricante, as regras admitem que as fábricas com concessões – não obtiveram 2 pódios nas últimas duas temporadas (KTM e Aprilia) - continuem desenvolvendo seus motores até 29 de junho. As regras de concessões são outro complicador que foi agravado pela pandemia. O sistema permite que fábricas que não apresentam resultados possam desenvolver seus motores durante a temporada, com testes ilimitados. As concessões são baseadas em resultados obtidos nas duas últimas temporadas, se uma fábrica consegue o mínimo dois pódios, perde o direito a testes e desenvolvimento de motores. As regras também contemplam os fabricantes que não conseguem pódios em uma temporada inteira, então passam a ter o direito a concessões. Em uma temporada normal de 19 ou 20 provas essa é uma boa medida. Em 2020, com a temporada encurtada e um número ainda desconhecido de corridas no calendário, pode acontecer que uma fábrica de com orçamento farto apresentar desempenho ruim e se habilitar a ter concessões. Exagerando, se nenhuma Ducati terminasse no pódio em qualquer uma das corridas, a Ducati teria concessões, apesar de Andrea Dovizioso ter terminado em segundo lugar no campeonato nos últimos três anos. Para enfrentar essa improvável anomalia, concessões não serão concedidas (retiradas pode) a nenhum fabricante no final da temporada 2020.
 
Não faz sentido em um ambiente rígido de economia consentir que uma equipe inscreva três pilotos em uma única prova. É possível que as corridas deste ano sejam realizadas sem espectadores, convidados, grid-girls, VIPs e com um número restrito de credenciais para a mídia. Permitir engenheiros e mecânicos necessários para um piloto extra, além dos necessários para a equipe oficial, é um risco desnecessário e pode ser um fator para complicar as negociações com as autoridades sanitárias locais e nacionais sobre a segurança da realização dos eventos. O cancelamento dos “wildcards” significa que Jorge Lorenzo não correrá pela Yamaha em Barcelona, como havia planejado originalmente. Isso também significa que pilotos de testes como Sylvain Guintoli, Stefan Bradl, Michele Pirro e Mika Kallio não estejam presentes em competições nesta temporada. Bradley Smith só permanece no grid se o apelo ao CAS (Court of Arbitration for Sport) de Andrea Iannone ao não for aceito.
 
Em 1687, consolidando as teorias de Galileu e Kepler, Isaac Newton publicou um trabalho intitulado Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, que é um dos alicerces da física atual e explica os resultados observados em relação ao movimento dos corpos. O conjunto de leis físicas contidas nesta publicação permitiu a Newton demonstrar matematicamente que “As forças que fazem com que os planetas se desviem constantemente do seu movimento retilíneo e se mantenham em suas órbitas, estão dirigidas para o Sol e são inversamente proporcionais aos quadrados das distâncias ao centro deste”. Newton generalizou a afirmação em um dos princípios fundamentais da Física, a Lei da Atração Universal. Como bom matemático, Newton considerou a possibilidade de não ter examinado a questão sob todas as óticas possíveis e enunciou a lei da seguinte forma: “Tudo acontece como se a matéria atraísse a matéria na razão direta de suas massas, e na razão inversa do quadrado das distâncias”.
 
Os princípios físicos enunciados por Newton nunca foram desmentidos, a evolução da humanidade, em termos de corpos em movimento, incluindo o comportamento dos equipamentos da MotoGP e viagens espaciais à Lua, estão lastreados em suas teorias. No entanto, as leis de Newton não correspondem a uma verdade absoluta, uma prova consistente que existem aspectos não contemplados nos princípios enunciados é o voo do besouro. O besouro é pesado demais, seu desenho não é aerodinâmico, as asas são muito pequenas e a frequência com que o inseto as agita é, matematicamente comprovado, insuficiente para alçar e manter um voo. No entanto ele voa. Desajeitado, mas voa.
 
O calendário da MotoGP em 2020 tem o mesmo grau de incerteza das teorias de Newton. Tudo acontece como se os protótipos utilizem a pista de Jerez em 15/07 para uma sessão de testes e a primeira prova da temporada seja realizada em 19/07.
 
 
Revisão: Renata Verissimo


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