07/06/2022 às 18h35min - Atualizada em 07/06/2022 às 18h01min

Márquez versus Quartararo

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br

Um motociclista, quando consegue um contrato com uma equipe para participar da MotoGP, alcançou o Nirvana (do budismo: estado de felicidade perfeita; um lugar idílico). Pode, parafraseando torcida de um time gaúcho de futebol que pretensamente venceu o mundial interclubes, argumentar que nada pode ser maior.
 
A MotoGP é um clube muito exclusivo, que só permite a entrada do melhor entre os melhores. Não existe na categoria uma figura que é comum em outras competições, a do piloto pagante. Quando muito, um patrocinador pode sugerir um representante qualificado, identificado com o mercado de seu interesse, por exemplo, a ligação existente entre Takaaki Nakagami e a Idemitsu, empresa japonesa que produz óleos lubrificantes em parceria com as principais montadoras nipônicas de automóveis. Um comentário recorrente no paddock é a promoção do tailandês Somkiat Chantra que atualmente compete com sucesso na Moto2, para estimular a venda de motos no mercado oriental.
 


Somkiat Chandra -Piloto da Moto2
 
Todos os pilotos da MotoGP são diferenciados, embora, assim como na democracia brasileira, uns são mais iguais que os outros. No monte Olimpo (morada dos deuses) dos motociclistas, brilham com mais intensidade as figuras do francês Fábio Quartararo e o espanhol Marc Márque

Ao contrário do espanhol, Fábio não teve uma passagem brilhante pelas classes de acesso no início de sua carreira.  Fez sua estreia na Moto3 em 2015 pela Estrella Galicia pilotando uma moto Honda. Promovido à Moto2 em 2016, seu melhor resultado na divisão intermediária foi um quarto lugar, obtido em 2 corridas. Em 2019 e 2020 correu na Moto GP pela Petronas Yamaha STR, conquistando as primeiras poles nas temporadas de sua estreia na categoria principal. Um fator notável é que mesmo dispondo de um equipamento defasado, somou mais pontos no campeonato que a lenda Valentino Rossi na equipe oficial de fábrica.
 



Valentino Rossi & Fábio Quartararo- 2020
 
Suas primeiras vitórias vieram nas etapas de abertura da temporada de 2020, ambas no Circuito de Jerez, no estranho campeonato marcado pela pandemia que assolou o mundo e que foi vencido por Joan Mir. Na prova onde comemorou a sua primeira vitória ocorreu o acidente com Marc Márquez, cujos desdobramentos acontecem até os dias atuais. Foi contratado em 2021 para substituir o sete vezes campeão do mundo Valentino Rossi, compondo a equipe oficial de fábrica com Maverick Vinales. Obteve 5 vitórias e 10 pódios, conseguindo seu primeiro título mundial.

Fábio Quartararo tem o mesmo estilo metrônomo de outra lenda da MotoGP, o espanhol Jorge Lorenzo. É imbatível quando dispõem de pista livre, onde possa extrair toda a velocidade em curvas que seu motor de quatro cilindros em linha disponibiliza. Parece que desliza sobre trilhos.
 
Marc Márquez é uma das quatro pessoas que venceram títulos mundiais em três categorias diferentes, junto com Mike Hailwood, Phil Read e Valentino Rossi. É um dos pilotos de motociclismo mais bem sucedidos de todos os tempos. Já venceu 8 campeonatos mundiais, 6 na classe principal. Márquez foi o terceiro espanhol, depois de Àlex Crivillé e Jorge Lorenzo, a conquistar um título da primeira classe, e é o piloto espanhol mais bem sucedido na MotoGP até o momento, com 85 vitórias em todas as categorias (59 na classe principal), perdendo em número total de GPs apenas para Giacomo Agostini, Valentino Rossi e Angel Netto. Em 2013 ele se tornou o primeiro piloto desde Kenny Roberts, em 1978, a conquistar o título da classe principal em sua primeira temporada, e o mais jovem a ganhar o título em geral, com 20 anos e 266 dias de idade.

Por sua postura arrojada, Márquez é frequentemente considerado um dos maiores inovadores das corridas modernas da MotoGP, devido à sua técnica exagerada de inclinação em curvas trabalhando o corpo sobre a moto, que parece estar em constante perigo de deslizar para fora. De uma família de motociclistas, seu irmão mais moço e piloto da equipe LCR/Honda Alex Márquez foi campeão mundial de Moto3 de 2014 e campeão mundial de Moto2 em 2019.
 


Marc Márquez
 
Marc Márquez em 2014 defendeu seu título, vencendo o campeonato com três rodadas de antecedência em um ano em que foi vitorioso em dez corridas seguidas. Márquez igualou o recorde do número de pole position de todos os tempos em 2016. No mesmo ano garantiu o título com três rodadas antes do final da temporada e em 2017 confirmou sua hegemonia na prova final em Valência. Em 2018 já era campeão faltando ainda três provas, sagrou-se o terceiro maior vencedor de todos os tempos do Grand Prix. Ele assegurou o título de 2019 faltando ainda quatro corridas para o encerramento da temporada, no Circuito Internacional de Chang, em Buriram, Tailândia, marcando seu 8º Campeonato Mundial e o 6º lugar da classe principal.

Em 2020 o piloto perdeu quase toda a temporada disputada apenas na Europa por causa da Covid, completou 26 voltas da primeira corrida, antes de fraturar o braço em uma queda. O mau gerenciamento da fratura o manteve afastado no início da temporada de 2021, ao retornar venceu três provas (Alemanha, Austin e Misano) e ficou em 7º lugar, a melhor Honda na classificação geral. No próximo fim de semana acontece o GP da Alemanha em Sachsenring, prova vencida por Márquez por onze anos consecutivos.
 
Fábio Quartararo e Marc Márquez são estrelas do mesmo esporte, mas cultivam hábitos totalmente diferentes. Quando foi submetido a uma fasciotomia, nome técnico para a cirurgia de correção da bomba no braço, Fábio manifestou sua preocupação do efeito da cicatrização em suas tatuagens. Márquez não cultiva estes ornamentos pessoais.

No ano de encerramento de seu contrato com a Yamaha, Fábio surfou em seu bom momento e ofereceu seus serviços a diversos concorrentes, Marc tem um relacionamento exclusivo com a Honda e nunca pilotou para outros fabricantes.



Capacetes de Marc Márquez (Formiga) & Fábio Quartararo (Diablo)
 
No nível pessoal, Quartararo demonstra uma tendencia para comportamento estilo “bad boy”, orgulha-se de estampar seu codinome “Diablo” no macacão e arte do capacete, tem uma maneira desleixada de se vestir mantendo seu macacão aberto enquanto não está correndo, aparentemente fazendo propaganda de roupas íntimas.
 
 

Contrastes entre Marc e Fábio
 
Em sentido diametralmente oposto, Márquez cultiva uma atitude “clean”, suas vestimentas estão sempre compostas e mantém a face glabra. Sua identificação externa é apenas seu nome “Marquez” e seu capacete tem uma arte inspirada no apelido “Formiga”, lembrando suas características físicas (1,69m) e enorme aptidão para o trabalho.

A equipe de apoio a Marc é praticamente a mesma que o acompanha desde 2013 e o piloto cultiva uma lealdade quase doentia entre seus membros. A última modificação aconteceu com a chegada da engenheira de dados Jenny Anderson no ano passado, a nova integrante foi homenageada participando do pódio pela sua contribuição na primeira vitória de Marc em 2021 no Circuito das Americas. Jenny ocupou o lugar de Gerold Bucher que prestava serviços à equipe desde a Moto2 e decidiu se aposentar. A engenheira foi muito bem recomendada pelo piloto que utilizou seus serviços na KTM, Pol Espargaro.
 
Outra diferença significativa é o tratamento da mídia. Nunca houve um único registro público de Márquez reclamando sobre seu equipamento, inclusive em 2019 no GP dos Estados Unidos em Austin onde estava invicto, uma estranha queda do piloto suscitou dúvidas, Marc assumiu o erro, enquanto observadores próximos indicam que foi em função um de mau funcionamento da RC213V. Exceto quando ganha, Quartararo costuma questionar a falta de potência e velocidade final da Yamaha.
 
O espanhol é um piloto humilde, que reconhece sua atual deficiência e busca “pegar carona” com pilotos mais eficientes. Houve uma época folclórica quando a sua saída dos boxes para tomadas de tempo era alvo de marcação cerrada de Andrea Ianonne. Tempos atrás ficou registrado um ato falho, ao buscar recusar uma carona a Márquez o então piloto da Yamaha Maverick Vinales fez uma passagem pelo pit-lane, e foi acompanhado pela máquina nº 93.

Nesta temporada Aleix Espargaro reclamou acintosamente que Marc tentava pegar o seu turbilhão. Quando estava em plena forma e em condições de liderar um grupo, nunca se ouviu uma reclamação sequer do espanhol.
 
Uma simples consulta às tabelas de pontos deste campeonato ilustra a diferença entre Quartararo e Márquez dos outros pilotos que utilizam o mesmo equipamento. Com o afastamento por motivos médicos de algumas provas, Marc Márquez é ainda a máquina Honda com maior número de pontos. Na Yamaha a coisa não é diferente. Quartararo tem mais de 100 pontos de vantagem sobre Franco Morbidelli, Darryn Binder e Andrea Dovizioso somados, que pilotam equipamentos iguais ao seu.
 
Nestas duas últimas temporadas não houve ocasião para um confronto direto entre Marc Márquez e Fábio Quartararo. Os dois só disputaram posições em 2018/2019, porém na época Quartararo utilizava um equipamento inferior. Neste ano os dois se encontraram disputando a 6ª posição no GP dos EUA. Márquez, que havia caído para a última posição na largada, foi o vencedor depois de uma acirrada disputa.
 


Disputa entre Márquez e Quartararo (Circuit of the Américas -2022)
 
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