01/06/2022 às 11h25min - Atualizada em 01/06/2022 às 10h31min

Como é administrada a MotoGP

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
MotoGP ou Moto Grand Prix é a categoria principal do Campeonato Mundial de Motovelocidade, um dos mais antigos do mundo de esportes motorizados, cuja primeira competição oficial aconteceu em 1949.
 
A administração da MotoGP é compartilhada por processos de interação e tomada de decisões pelos atores envolvidos, que pode de certa forma ser descrito como os processos políticos (conciliação de interesses) que existem entre instituições formais.
 
As regras e regulamentos da MotoGP são definidas por um comitê chamado Grand Prix Commission, que inclui representantes dos quatro principais órgãos com interesse na competição: (1) Dorna Sports (promotora); (2) FIM (Federação Internacional de Motociclismo - órgão que aprova; (3) MSMA (Associação dos Fabricantes de Motocicletas Esportivas – entidade formada pelas indústrias que produzem as motos); e (4) IRTA (International Road-Racing Teams Association - que representa as equipes que disputam o certame). Os atuais componentes titulares da Comissão do Grande Prêmio são Carmelo Ezpeleta (CEO da Dorna), Ignacio Verneda (Diretor Executivo da FIM), Hervé Poncharal (IRTA) e Takanao Tsubouchi (MSMA)
 
Um exemplo dessa colaboração é a recente atualização das regras relativas a discos de freio com mais massa, necessários para determinadas pistas, atendendo solicitações dos pilotos.
 
 

Ignacio Verneda - Diretor Executivo da FIM
 
A FIM (Fédération Internationale de Motorcyclisme) é o órgão geral de todos os esportes de motociclismo a nível mundial desde que foi reestruturada na década de 1940. É uma associação sem fins lucrativos, criada em 1904 com o nome de Fédération Internationale des Clubs Motocyclistes (FICM). Em 1949 organizou o primeiro campeonato mundial de motociclismo, atual MotoGP.
 
Desde 1920, a FIM reconhece e administra os recordes de velocidade em motocicletas, conhecido como Motorcycle land-speed records. É a entidade responsável por reconhecer e organizar todos os campeonatos de motocicletas em todo o mundo
 
 

Hervé Poncharal - IRTA
 
A IRTA (International Road-Racing Teams Association) foi formada em 1986 e representa todas as equipes do Grand Prix, uma voz coletiva nos processos de tomada de decisão. A organização trabalha ao lado da FIM e da Dorna para manter os padrões do Campeonato de MotoGP.
 
 

Carmelo Ezpeleta -CEO da Dorna
 
Dorna Sports é a promotora e braço comercial, que detém os direitos comerciais e de transmissões de TV exclusivos para os campeonatos de motociclismo em todo o mundo. A entidade administra e organiza todos os eventos do Grand Prix, também é responsável pela gestão comercial do esporte em cada evento, incluindo marketing, serviços de mídia, segurança, manutenção de tempo e coordenação de patrocínios à produção e promoção de TV.
 
 

Takanao Tsubouchi – MSMA
 
A MSMA (Associação dos Fabricantes de Motos Esportivas) representa a indústria e cuida dos interesses de todos os fabricantes envolvidos no mundial. A MSMA representa todas fábricas e controla as regras técnicas da MotoGP.
 
Para a realização de uma prova há a formação de vários grupos que supervisionam os diversos aspectos do evento. Na maioria das vezes, há um conjunto de funcionários que desempenham funções importantes nos fins de semana de corrida.
 
São responsáveis por administrar todo o evento e supervisionar tudo, desde a extensão total da corrida, ocorrências que resultem em atrasos, problemas com espectadores, segurança dos pilotos, analisar e investigar incidentes durante a prova.
 
 

Direção de Prova – O “VAR” da MotoGP “

A Direção da Corrida é composta por três representantes reunidos da seguinte forma: (1) Representante da FIM; (2) Representante da DORNA e; (3) Representante da IRTA (que acumula as funções de Diretor de Prova). Cada membro tem um voto e as decisões são baseadas em uma maioria simples.
 
Além da reunião com os pilotos e equipes na sexta-feira, a Direção de Corrida (Race Direction) pode se reunir a qualquer momento necessário durante o evento ou mesmo depois, se houver algum incidente que exija a sua análise, como um acidente grave ou um recurso por equipe ou piloto em relação a uma penalidade emitida. Em um fim de semana de corrida também podemos ouvir falar do Painel dos Comissários, responsável por: (1) Tomar decisões conforme previsto no Regulamento; (2) Impor penalidades para quaisquer infrações do Regulamento e (3) Julgamento de qualquer protesto relacionado a infrações do Regulamento.
 
Em 2022 temos a inclusão de mais um funcionário no controle da prova quando se trata de emitir penalidades, é o Juiz de Fato. Este controlador pode ser nomeado para julgar qualquer ocorrência factual ou questão de elegibilidade em um evento. As decisões do Juiz de Fato têm aplicação imediata e não permite que pilotos e/ou equipes recorram.
 
É comum os pilotos recorrerem à Direção de Prova para que tomem atitudes que eles consideram importantes sobre a segurança na pista ou até mesmo táticas de outros pilotos, quando isto acontece as decisões e sanções podem ser aplicadas nos dias posteriores.
 
Se necessário, a Comissão do Grande Prêmio pode fazer mudanças permanentes, como é o caso das recentes atualizações das bandeiras de advertência.
 
Atendendo a solicitações dos pilotos preocupados com os avisos de pista para problemas de condições de superfície, a Comissão do Grande Prêmio, tomou a seguinte decisão em 4 de março de 2022, redefinir as situações em que determinadas bandeiras e painéis de luz que alertam sobre problemas de aderência da pista são exibidos.
 
Os novos significados das bandeiras serão:
 
Bandeira listrada amarela e vermelha
 
 

A aderência neste trecho da pista pode ser afetada por qualquer outra razão que não seja chuva (por exemplo: óleo, cascalho, grama ou outros detritos). 
 

Bandeira Branca com cruz vermelha diagonal
 
 
Gotas de chuva neste trecho da pista afetando a aderência da pista.
 

Existe a possibilidade de pilotos alertarem a direção da corrida sobre o comportamento de outro piloto, onde penalizações são menos comuns. Em Jerez houve um exemplo quando Aleix Espargaro reclamou acintosamente da atitude de Marc Márquez durante os treinos classificatórios.
 
 

Aleix Espargaro reclama por ser seguido por Marc Márquez na etapa de classificação
 
Há momentos em que a Direção da Corrida toma atitudes que parecem exageradas e os pilotos não concordam, mas devem obrigatoriamente obedecer para evitar uma punição maior como uma bandeira preta e exclusão da prova, ou penalidades de tempo que podem custar um pódio a um piloto e pontos de campeonato.
Recentemente houve um exemplo disso com Marco Bezzechi no Grande Prêmio das Américas, o piloto discordou da Direção da Corrida após receber uma bandeira preta e laranja depois de um acidente na volta de abertura, que causou danos suficientes à sua moto para deixá-la gerando fumaça. No entanto, enquanto as preocupações iniciais eram sobre um vazamento de óleo graças à fumaça que saía da Ducati Desmosedici danificada, Bezzecchi foi inflexível após a corrida, ele deveria ter sido autorizado a continuar porque uma avaliação detalhada da condição da moto não revelou nenhum dano substancial, e ele acabou sendo obrigado a abandonar a prova.
 
 

Marco Bezzechi abandonando o GPdas Américas (2022)

Do lado oposto da moeda, em 2021 Fabio Quartararo teve um incidente de corrida interessante em que o zíper de seu macacão abriu e ele se livrou de um equipamento de proteção durante as voltas finais do Grande Prêmio da Catalunha.
 
 

Fábio Quartararo com o macacão aberto na Catalunha
 
Pareceu difícil acreditar que a Direção de Prova não o tirou da corrida ou pelo menos o fez ir para os boxes para reparar o dano.
 
Após a corrida, os pilotos e as equipes foram altamente críticos a Direção da Prova por permitir que ele continuasse tanto pelo macacão aberto quanto por descartar seu protetor de peito na pista enquanto outros pilotos estavam por perto (3pontos no campeonato).
 
Uma penalidade de 3 segundos foi emitida para Fábio vários dias depois, colocando-o em 6º em vez do 4º obtido na pista.
 
Por que a diferença alguém pode perguntar?
 
A resposta talvez não seja evidente, porém é simples.
 
A Direção de Prova tem que considerar mais do que apenas um dia do piloto ou a busca pela vitória. Ela tem a responsabilidade por tudo o que acontece na pista e a segurança dos pilotos é sua prioridade máxima. Há uma diferença entre os riscos colocados para todos os pilotos nestas duas ocorrências
 
O risco maior de Fabio Quartararo foi para si mesmo na maior parte do tempo. Se ele tivesse batido, seu equipamento não teria fornecido os recursos de segurança para os quais é projetado. O caso é semelhante a uma queda que aciona o air-bag do macacão e o piloto consegue recuperar a moto e voltar para a competição. É muito diferente do risco de derramamento de óleo e vazamento na pista.
 
Aconteceu no Grande Prêmio de Le Mans de Moto3 em 2017, onde 17 pilotos caíram em um belo espetáculo após um derramamento de óleo na pista na volta 2 da corrida. Milagrosamente não houve feridos.
 


Moto3 em Le Mans (2017) – Massivo acidente causado por óleo na pista
 
No entanto, tem outras ocorrências nos eventos do dia das provas que a Direção de Corrida deve ter em mente, as que criam entraves econômicos. Isso é importante devido aos horários de transmissão ao vivo para os quais Dorna é obrigada a respeitar o máximo possível, até quando coisas como clima ruim ou um temido derramamento de óleo acontecem.
 
Embora Bezzecchi tenha se irritado com essa decisão, a segurança de todos os pilotos que é primordial e correr a chance de vazamento de óleo não é um risco aceitável para a Direção de Corrida.
 
Na verdade, muitos estão pedindo que as regras de estilo SuperBike sejam colocadas em prática na MotoGP, onde um acidente significa que a corrida do piloto acabou, não importa o tamanho do dano no equipamento.
 
Será interessante ver se isso é algo que os fabricantes de regras da MotoGP considerariam no futuro.
 
Estes são os anônimos que trabalham nos bastidores de uma prova e na gestão da MotoGP.
 
Juntas, essas associações, corporações e órgãos de tomada de decisão regulam um esporte cuja audiência cresce ano a ano.
Trabalhando duro nos bastidores para habilitar um dos campeonatos de velocidade mais sensacionais do planeta.
 
Juntos, fazem um trabalho fantástico para tornar a experiência incrível para os espectadores e garantir que ela chegue àqueles que estão vendo de casa, bem como cuidando da segurança e bem-estar de nossos pilotos favoritos.
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