26/05/2022 às 10h21min - Atualizada em 26/05/2022 às 09h49min

Economia Global e Contratos de Pilotos

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
A economia mundial está em um processo lento de retorno à normalidade depois da pandemia da Covid-19, e administra o impacto do conflito na Ucrânia simultaneamente com  quatro dificuldades diferentes, efeitos colaterais da crise que abalou o planeta: (1) as perspectivas de crescimento da China, prejudicadas pelos rígidos “lockdowns” para conter uma onda com variantes do coronavírus; (2) o Federal Reserve (banco central americano) corre o risco de administrar em um curto intervalo de tempo a transformação de uma forte expansão econômica nos EUA em colapso; (3) as famílias da Europa enfrentam custos crescentes de energia e produtos de consumo em geral; e (4) em países pobres  há sinais de crises alimentares e até de fome. Não surpreende que o clima esteja ficando sombrio.

 
Economia mundial em clima sombrio


Esta conjuntura ruim encontrou a MotoGP em uma situação peculiar, a maioria dos pilotos está sem contrato para 2023, transformando as negociações salariais em problemas.  A situação atual não contempla as expectativas dos aumentos pretendidos pelos pilotos. Patrocinadores e fabricantes tiveram suas margens de lucro reduzidas e pressões da sociedade alimentadas por ecologistas exigem investimentos pesados em tecnologias neutras em carbono.

O empresário de Joan Mir, Paco Sanchez, disse que a oferta inicial da Suzuki para seu representado havia sido menor do que seu primeiro contrato em 2019, enquanto existem candidatos a participar da MotoGP com salários aviltantes de até  100.000 Euros anuais (pouco menos de R$ 45,000.00 por mês), ou mesmo sem custo.
A Suzuki fez uma oferta inicial para o campeão de 2020 durante a etapa de Portimão, no final de abril deste ano, com um valor menor do que foi oferecido ao novato Joan Mir em 2019. Depois de várias rodadas de negociações, em Jerez (maio de 2022), a equipe concordou em tentar convencer o fabricante no Japão em aceitar uma redução no salário de Mir para o biênio 2021/2022, recompondo a paridade com os ganhos de Alex Rins. 

“Para nós estava tudo bem. Joan não fez maiores exigências porque entendemos a situação econômica mundial. Não existe a possibilidade no momento de solicitar um contrato semelhante ao de Marc Márquez ou equivalente ao que Fabio Quartararo está pedindo à Yamaha”.

“Quando decidimos assinar o contrato, fomos surpreendidos pela notícia que a Suzuki está saindo da competição no final do ano”.

Sanchez, que agora busca um lugar alternativo para o campeão mundial de 2020, acrescentou:

“Vou tentar manter condições financeiras equivalentes ao que solicitamos à Suzuki para 2023. Essa é nossa prioridade. Se não conseguir, Joan irá parar. Ele não vai pilotar por zero ou por um desses contratos ridículos que agora KTM, Ducati e todas as outras fábricas estão oferecendo aos seus pilotos.”


 
Remy Gardner – KTM Tech3 em Mandalika – Indonésia


Sanchez também gerencia a carreira de outro piloto da MotoGP, Remy Gardner da KTM Tech3, e sabe que o contrato atual é unilateral, só contempla o lado do fabricante. Não quer correr este tipo de risco com Joan. “Remy ficou deslumbrado com a oportunidade de correr na MotoGP e assinou sem a minha anuência. Considero inaceitável porque este é um negócio com um grande potencial, como tênis, golfe, futebol e outros esportes. Os pilotos da MotoGP são estrelas neste mundo”.

Pit Beirer da KTM, discorda das ideias de Sanchez. “Fizemos um bom trabalho com Remy no Campeonato Mundial de Moto2, ele subiu para a MotoGP conosco como campeão mundial e teve a chance de estar no grid da classe principal com um contrato justo”.  Paco Sanchez reclama na mídia que os contratos da KTM e TECH3 são ruins. Pit Beirer manda um recado ao empresário e ao piloto: “Gostamos muito do Remy e gostaríamos de continuar com ele. Mas seria melhor se o gerente dele não nos criticasse constantemente na mídia. Seria mais fácil para nós estender o contrato. Não vamos exercer a opção contratual de Remy contra a vontade do piloto. Se ele não quer ficar conosco, a decisão é dele. Entendo pelo que o gerente dele disse que não somos o parceiro desejado”.

O recente exemplo de Andrea Dovizioso comprova que um ano sabático não é uma boa opção. O piloto ficou contrariado porque a Ducati nunca lhe ofereceu um salário nem perto do pago a Jorge Lorenzo, mesmo ele apresentando melhores resultados. Decidiu ficar um ano parado e, em seu retorno, a melhor oferta que teve foi muito inferior ao seu último contrato com a fábrica italiana.


 
Pódio em Rio Hondo – Primeira vitória da Aprilia na MotoGP (Jorge Martin, Aleix Espargaro & Alex Rins) 

Aleix Espargaro é outro que está frustrado. Ele se considera o principal responsável pelo sucesso da Aprilia este ano e ficou muito contrariado ao verificar os números que foram propostos para a sua renovação. Entende não ter seus esforços valorizados e há ainda o aspecto familiar, Aleix não concebe como um dos líderes do atual campeonato pode ter um salário quatro vezes menor que o do seu irmão mais novo (Pol Espargaro na Repsol/Honda).

Paco Sanchez tem algumas opiniões formadas, uma delas é sobre a questão de um salário mínimo para os pilotos de MotoGP. “Não sei se Dorna, equipes ou fabricantes, mas alguém precisa pagar um mínimo. Não estou falando de quantias astronômicas como a de Marc Marquez, mas um salário mínimo justo porque esquecemos às vezes que eles estão brincando com sua vida”.

"Agora há muitos jovens pilotos que querem pilotar na MotoGP, se você oferecer 100.000 euros, eles assinam. Se oferecer só a possibilidade, sem remuneração, eles assinam”.

O empresário duvida que a falta de patrocínio depois do título da Suzuki tenha sido um fator significativo na decisão da fábrica de sair. “Acho que não, porque sei mais ou menos quanto os principais patrocinadores pagam e isso não é um grande impacto para uma fábrica”, diz ele. “O único grande patrocinador atual da MotoGP é a Repsol. O resto das contribuições dos patrocinadores podem ser considerados trocados”.

“Quanto a Monster Energy paga à Yamaha? Talvez uns 5 ou 6 milhões por ano, em um orçamento de 50 a 60 milhões, equivale aproximadamente a 10%. Isso não é motivo para tomar a decisão de abrir mão da vitrine da MotoGP em uma grande empresa. No futuro, mesmo que a Repsol não renove o contrato, com certeza a Honda continuará. Talvez a Repsol contribua agora com 14 milhões por ano. Não tenho informação do valor exato, porém não é significativo no orçamento total da divisão Honda de motos direcionada para consumo. Para a corporação Honda é 0,00001% do valor.”

Na opinião de Sanchez, a decisão da diretoria da Suzuki foi tomada por "pessoas de terno que não são apaixonadas pela MotoGP. Nunca estiveram em um paddock. A preocupação dos executivos da empresa nipônica nunca foi centrada nas pessoas que trabalham nas provas”.



Staff Suzuki 2022

“A equipe fez, com um orçamento muito inferior às gigantes Honda e Yamaha, um excelente trabalho e obteve resultados expressivos. Campeões mundiais em 2020, terceiro em 2021 e estavam liderando o Campeonato de Equipes este ano. Joan e Alex estão perto o suficiente para lutar pelo campeonato de pilotos. Na minha opinião, todos na equipe estão fazendo um trabalho extraordinário. Eles não mereciam ser abandonados”.

Mas talvez haja pessoas no conselho da Suzuki que pensam diferente. “O que é MotoGP? Por que gastamos 50 milhões por ano na MotoGP? Com que objetivo? A corporação poderia aplicar estes investimentos para desenvolver tecnologias em carros elétricos ou em outra estratégia de marketing”. É complicado especular. “Com certeza há algumas pessoas que não gostam da MotoGP, eles atualmente são a maioria na direção da Suzuki”.

A mágoa de Paco Sanchez é evidente. “Comunicaram para a equipe que a Suzuki estava desistindo da MotoGP, provavelmente para aumentar os seus bônus por resultados financeiros.”

Existe uma outra face da moeda que não está incluída nos raciocínios de Paco Sanchez. Ele é um empresário que representa pilotos, logo as dificuldades financeiras das fábricas ou equipes não fazem parte de suas preocupações. Na MotoGP, ao contrário de outras modalidades esportivas, bons resultados não garantem um retorno financeiro imediato aos pilotos, salvo se estiverem previstos em contratos. A Dorna, entidade organizadora, não paga premiação para vencedores. 

Por outro lado, despesas não programadas, como as resultantes de quedas ou acidentes com os pilotos, são cobertas, integralmente, pelas equipes. O custo de um protótipo está avaliado por volta de 2 milhões de Euros, e o simples conserto de uma queda pode custar mais de 200 mil Euros. 

Há também riscos com os pilotos. Marc Márquez ficou ausente por motivos de saúde durante toda a temporada de 2020, mais umas poucas etapas em 2021 e 2022. Seu salário astronômico continuou a ser depositado regularmente. Há uma versão, não confirmada pelas partes, que seu empresário tentou devolver os valores por serviços não prestados em 2020 e esta oferta não foi aceita pelo fabricante.



Marc Márquez desafiando as leis da  gravidade

Já houve o caso de um piloto submeter-se a uma cirurgia estética e os efeitos colaterais o impediram de vestir o capacete, privando a equipe de sua participação em uma etapa. Quando Andrea Iannone foi penalizado por dopping, a Aprilia cumpriu integralmente suas obrigações contratuais. 

Houve na etapa de Le Mans uma reunião da Comissão de Segurança onde os pilotos da MotoGP discutiram uma série de questões, incluindo o retorno do esporte à Finlândia, contratos e salários.

O GP da Finlândia previsto para o Mundial deste ano da MotoGP foi cancelado. O calendário de 2022 será encurtado e o regresso da corrida finlandesa na categoria principal ficou adiado para 2023. A FIM (federação internacional), IRTA (associação das equipes) e a Dorna (promotora do campeonato) anunciaram que “o atraso na homologação do circuito combinada com a atual situação geopolítica na região (Existem 1.340 km de fronteira entre Finlândia e Rússia) obrigaram ao cancelamento do GP em KymiRing em 2022”. Na comunicação ainda informa que o GP da Finlândia não será substituído por outra prova e que o calendário de 2022 será limitado a 20 etapas em vez das 21 inicialmente previstas.

 

Romano Fenati aprontando na Moto2

Outro tópico levantado pelos pilotos na reunião em Le Mans foram os contratos e salários, particularmente após Romano Fenati ser defenestrado da equipe Speed Up Moto2. "Mais do que os salários, está difícil manter os contratos” disse Alex Rins.

Romano Fenati é um piloto controverso. Em 2018 ele foi demitido da equipe Moto2 Marinelli Snipers Team após um perigoso incidente onde acionou o freio de outro competidor durante uma prova. Este ano foi obrigado a largar no fim do grid no GP da Argentina por haver chutado outro piloto durante os treinos. A penalização neste caso foi semelhante a sansão dada a Valentino Rossi após um incidente semelhante envolvendo Marc Márquez em Sepang, 2015. Na época, Rossi jogou o campeonato no colo de seu desafeto e colega de equipe Jorge Lorenzo, que estava de partida para a Ducati.

O piloto italiano não obteve resultados convincentes nas primeiras seis corridas da temporada da Moto2 e teve seu contrato rescindido com uma declaração da equipe Speed-up que é um primor de concisão: “A equipe Team Speed-up anuncia o fim da colaboração com o piloto Romano Fenati”. 

O teor do contrato do piloto com a equipe não é conhecido, por isto não se sabe se havia cláusulas de produtividade, tipo se não obtivesse resultados suficientes, estava fora.

Alex Rins avalia que: “Se existe um contrato, deve ser respeitado, ou a parte não conforme com os resultados deve pelo menos pagar uma multa ou algo assim”.

Os pilotos insistem em que deve existir um tipo de renumeração mínima. A farta oferta de candidatos fragiliza a negociação com as equipes.

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