19/05/2022 às 09h37min - Atualizada em 19/05/2022 às 09h17min

Uma breve história

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
Provavelmente a primeira competição entre motos aconteceu quando dois dos primeiros proprietários destes veículos, comercializados a partir de 1894, casualmente se encontraram nas ruas e um quis provar para o outro que podia ser mais veloz.

Para ordenar o uso dos equipamentos motorizados em espaços públicos e garantir a segurança dos transeuntes surgiram legislações sobre limites de velocidade. Em 1906, 12 anos depois, um grupo de entusiastas organizou o mítico Isle of Man TT, uma competição em um território do Reino Unido onde não havia limitações legais de velocidade.
 
Entre o início do século XX e o final da 2ª Guerra Mundial, as pessoas corriam com motos por estradas, campos, áreas urbanas e pistas de terra por toda a Europa. Em 1949, essas corridas foram oficializadas e o esporte começou a tomar forma.

A Federação Internacional de Motociclismo (FIM) foi fundada em 1949 e uma de suas primeiras realizações foi organizar os campeonatos para as categorias de 125cc, 250cc, 350cc, 500cc e sidecar 600cc. A primeira corrida oficial foi disputada em um traçado que mesclava estradas e trechos urbanos da Ilha de Man.

 

Leslie Graham – 1º Campeão Mundial de Motociclismo
 
O primeiro título mundial da principal categoria, 500cc, foi vencido pelo britânico Leslie Graham, que durante a 2ª Guerra pilotou um bombardeio Lancaster para a Real Air Force (RAF). A moto que utilizou foi um equipamento produzido pela AJS (A. J. Stevens & Co. Ltd, um fabricante com sede em Wolverhampton, Inglaterra). Outro britânico, Freddie Frith, com uma Velocette produzida em Birminghan, também na Inglaterra, ficou com o título da 350cc.

Nos primeiros 26 anos da categoria de 500cc os fabricantes italianos monopolizaram as competições, conquistaram títulos 24 vezes. A MV Agusta, uma empresa originalmente formada pelo conde Giovanni Agusta para construir aviões perto de Milão, foi particularmente dominante. Venceu o primeiro campeonato em 1956 e acumulou títulos sucessivos entre 1958 e 1974.  Equipou os campeões britânicos John Surtees (4 títulos), Mike Hailwood (4) e o italiano Giacomo Agostini (7). O domínio do fabricante italiano era tal que entre 1968 e 1971 foram disputados 69 grandes prêmios do Mundial de Motociclismo nas duas classes principais, 500cc e 350cc. Essas 69 corridas consecutivas tiveram apenas um vencedor, Giacomo Agostini, um recorde extraordinário que nunca foi sequer ameaçado na história dos mundiais.



Giacomo Agostini & MV Agusta 500cc
 
Embora a supremacia da MV Agusta fosse inquestionável, Agostini ficou sem seus maiores rivais no final de 1967 quando, insatisfeito com a proteção do conde Agusta ao italiano, o britânico Mike Hailwood migrou para a Honda, no mesmo ano em que o finlandês Jarno Saarinen, um piloto promissor, morreu em um acidente em Monza.
Noutras classes a competição era muito mais disputada, com construtoras como a Honda e Suzuki (japonesas), Norton (inglesa) e NSU (alemã) conquistando troféus.

Na década de 60 os fabricantes perceberam a importância das corridas no marketing de seus produtos e a MZ, uma empresa da Alemanha oriental, trabalhou no desenvolvimento de um motor de dois tempos, que existia desde a década anterior. A MZ conseguiu construir um propulsor 2T que produzia perto de 200cv e obteve diversas vitórias com o piloto Ernst Degner contra equipes mais bem estruturadas nas categorias de 50cc, 125cc e 250cc. Em 1961 Degner recebeu uma proposta da Suzuki, o que se passou então nunca foi bem explicado, em setembro no fim de semana do GP da Suécia, Degner conseguiu desertar para o lado ocidental e meses depois, em novembro, o alemão mudou-se para o Japão e começou a trabalhar com a Suzuki no desenvolvimento do motor a dois tempos.
 


Ernst Degner com uma Suzuki 2T
 
Na mesma década (anos 60) aconteceram dois dos 7 títulos de Giacomo Agostini de 350cc e quatro dos oito títulos de 500cc. As máquinas italianas dominavam a categoria principal, porém era sensível a evolução dos japoneses com motos Honda, Yamaha e Suzuki, sendo que a Honda venceu o primeiro GP 500cc em 1966.

Houve então um grande desconforto quando a FIM decidiu combater a escalada de custos, impondo um limite de gastos para os fabricantes em 1967. A intervenção da federação foi interpretada como uma atitude contra os fabricantes japoneses, que investiam muito em desenvolvimento, causando o afastamento da Honda, Yamaha e Suzuki da disputa dos mundiais. O abandono dos orientais propiciou à MV Agusta um reinado absoluto na categoria 500cc. Yamaha e Suzuki regressaram em 1973 e 1974, respectivamente, mas a Honda só voltou à competição em 1979.

No início da década de 70 os japoneses registraram várias vitórias nas categorias de acesso 125cc e 250cc, mas uma máquina produzida no Japão só conseguiu chegar ao título mundial das 500cc em 1975, com uma Yamaha pilotada por Giacomo Agostini.

A façanha de Agostini inaugurou uma era de ouro para os fabricantes japoneses que venceram todos os mundiais até os dias atuais, com uma única exceção, a vitória de Casey Stoner com uma Ducati em 2007.

Após um intervalo de 12 anos a Honda regressou à categoria principal em 1979 e tentou algo diferente dos motores a dois tempos que exerciam um grande domínio nas pistas.  A construtora japonesa desenvolveu o projeto da NR500, uma máquina equipada com um motor de 4 cilindros, quatro tempos, com pistões ovais e oito válvulas, duas hastes de conexão por cilindro, além de uma estrutura semi-monochoque de alumínio com um garfo frontal invertido. A máquina surpreendeu a todos com suas tecnologias inovadoras. Os regulamentos da competição já limitavam o número de cilindros em quatro, então para um motor de quatro tempos ser tão potente quanto uma unidade de dois tempos, teria que alcançar o dobro de suas rotações por minuto (RPMs).
 

Motor Honda 4 Tempos com pistões ovais
 
A solução da Honda foi aumentar a eficiência da admissão e projetar um sistema de válvulas com maior resistência ao atrito e ao acúmulo de calor em altas rotações. Esta necessidade resultou na ideia de dobrar o número de válvulas para oito. Ao examinar as posições potenciais da válvula no contexto de seu layout do motor de quatro tempos, a forma do pistão teve de ser alterada de circular para oval. O resultado final foi um motor frágil, com graves problemas de durabilidade. A inovação não foi bem sucedida, o NR500 estreou no GP da Grã-Bretanha de 1979, 11ª corrida da temporada, e viu ambas as motos da equipe abandonarem a prova por problemas mecânicos.

Os anos 80 foram uma época caracterizada por motos japonesas pilotadas por norte-americanos e australianos e proporcionaram duelos memoráveis. Foi um período que consagrou pilotos como Wayne Rainey, Freddie Spencer, Eddie Lawson e Wayne Gardner com espetáculos em Yamahas e Hondas, que ajudaram a popularizar o esporte.
 


Wayne Rainey – Campeão de 1991 com a Yamaha YZR500
 
O novo milênio trouxe consigo diversas mudanças. Depois da Honda ter dominado o final dos anos 90 e Valentino Rossi ter vencido o seu primeiro título da categoria de 500cc em 2001, o esporte renasceu com a marca MotoGP em 2002. Com a mudança de nome foram introduzidas novidades e novos regulamentos técnicos. Os motores de quatro tempos regressaram à categoria principal e a cilindrada foi aumentada para 990cc. Esta capacidade cúbica serviu para caracterizar protótipos e diferenciar das motos 1000cc das linhas de produção.

Depois de ter sido coroado como o último campeão dos 500cc, Valentino Rossi venceu quatro títulos consecutivos da MotoGP entre 2001 e 2005. Em 2007 houve nova mudança dos regulamentos técnicos na categoria principal, com a capacidade cúbica dos motores reduzida para 800cc. A Ducati, fábrica italiana de Borgo Panigale, Bolonha, foi muito feliz na mudança e venceu o campeonato com o australiano Casey Stoner, na única ocorrência desde 1975 em que o campeão não pilotou uma máquina japonesa.

Em 2012 houve mais uma mudança técnica, a capacidade das motos subiu para 1000cc e forneceu combustível para a rivalidade entre os espanhóis Jorge Lorenzo e Marc Márquez. Jorge Lorenzo venceu títulos em 2010, 2012 e 2015 com a Yamaha, Marc Márquez conquistou seu primeiro título em 2013, seu ano de estreia na categoria já com um histórico de campeão na 125cc e Moto2. Márquez foi o campeão de MotoGP mais jovem da história e já somou 6 títulos na categoria principal.
 
 

Jorge Lorenzo (Yamaha) e Marc Márquez (Honda)
 
A administradora da MotoGP iniciou um processo de equalizar a competitividade entre equipamentos e em 2016, a Michelin substituiu a Bridgestone como fornecedora exclusiva de pneus. Foram padronizados pacotes de hardware e software, acabando com o software proprietário que facilitava em muito a condução dos equipamentos.  Nesse ano, nove pilotos de quatro fabricantes diferentes venceram Grandes Prêmios, um recorde da competição.

 

Joan Mir (Suzuki) e Fábio Quartararo (Yamaha)
 
No início do ano 2020 a pandemia mundial do Covid 19, associada com um acidente na prova inaugural da temporada em Jerez de la Frontera na comunidade autônoma da Andaluzia, Espanha,  foram determinantes para um campeonato estranho. O campeão do ano anterior, Marc Márquez, fraturou um braço e complicações em sua recuperação o mantiveram afastado durante toda a temporada e nas duas primeiras etapas do ano seguinte. Todas as 14 provas foram realizadas na Europa por limitações impostas pela pandemia, que afetaram o transporte de equipamentos entre os circuitos e outras políticas sanitárias.

O campeão foi um espanhol pilotando uma Suzuki, Joan Mir, com uma única vitória em todo o ano. A temporada de 2021 foi totalmente controlada por um piloto francês, Fábio Quartararo, que encerrou mais de uma década de supremacia dos pilotos espanhóis.
 
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