12/05/2022 às 12h22min - Atualizada em 12/05/2022 às 11h50min

GP da Argentina 1961 e a saga de Ernst Degner

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
As dificuldades para realizar o GP da Argentina neste ano lembram 6 décadas depois o que ocorreu no primeiro GP disputado fora da Europa, em 1961 no autódromo Juan & Oscar Gálvez nos arredores de Buenos Aires.

Este ano, o contexto externo complicado devido à guerra na Ucrânia reduziu a oferta de voos de carga e dificultou a logística do evento. Um dos cinco cargueiros que faziam o transporte de equipamentos do paddock entre a Indonésia e a Argentina apresentou problemas operacionais na escala realizada em Mombaça, no Quênia.

A opção foi direcionar uma das aeronaves que já estavam na Argentina para resgatar a carga, mas este segundo avião também apresentou falhas mecânicas. A organização da prova foi obrigada a cancelar os treinos livres de sexta-feira e encurtar o evento para apenas dois dias. A prova resultou na primeira vitória de uma Aprilia (Aleix Espargaro) na classe principal de um campeonato mundial.
 
 

Degner (17) em seu MZ persegue as Honda de Kunimitsu Takahashi (1), Tom Phillis (19) e Jim Redman (3) durante o GP de Ulster de 1961
 
Corridas de motos têm tudo a ver com desafiar o limite e escapar impune, foi isso que a MotoGP fez no último grande prêmio em Rio Hondo. O pesadelo do atraso no transporte dos equipamentos, que quase cancelou o Grande Prêmio da Argentina, foi o equivalente logístico de perder a frente do equipamento em uma curva, salvar com o cotovelo, controlar a derrapagem da roda traseira, colocar a moto de lado e sair do contorno com o joelho esquerdo roçando o piso.

Foi de tirar o fôlego!

Na extensa história do Mundial de Motociclismo, Termas de Rio Hondo certamente não foi o primeiro Grande Prêmio a ter problemas de transporte. Um dos primeiros GPs disputados em Laguna Seca, um autódromo situado em Monterey, Califórnia, foi retardado pela chegada tardia de carga do GP do Japão no fim de semana anterior em Suzuka.

A rodada argentina da MotoGP tem diversas  histórias. Quando o evento voltou ao calendário em 1987, após um hiato de quatro anos, os funcionários da alfândega de Buenos Aires criaram uma série de dificuldades. A Dunlop foi particularmente penalizada, a alfândega se recusou a liberar seus pneus sob a alegação que, em função da Guerra das Malvinas (os livros de história no Reino Unido falam em Falklands), os produtos britânicos não eram permitidos no país. Versões não confirmadas dão conta que um suborno de vários milhares de dólares resolveu o problema.
 
Em 1961 Ernst Degner, o piloto alemão que liderava por pontos na classe 125cc, desertou durante a penúltima prova do mundial realizada na Suécia. As autoridades da Alemanha Oriental ficaram furiosas com a deserção de Degner e telegrafaram para os organizadores do GP em Buenos Aires, anunciando que haviam cassado a sua licença de pilotar, portanto ele não teria permissão para participar da prova.

O mais desconcertante de tudo é que uma dificuldade no transporte de carga, ou pior, o resultado de uma sabotagem no transporte de carga, foi o fator decisivo no campeonato mundial. A Argentina sediou a última prova da temporada, na primeira competição válida para um mundial a ser disputada fora da Europa.

Se o até então líder da MotoGP este ano, Enea Bastianini, estava preocupado com o fato de suas motos talvez não pudessem chegar na Argentina, sua aflição era infinitamente inferior ao do aspirante ao título mundial de 1961 de 125cc, Ernst Degner.

Em agosto de 1961, no auge da Guerra Fria, o piloto de fábrica da MZ (acrônimo de Motarradwerke Zschopau), Ernst Degner, desertou do Leste para o Oeste durante o GP da Suécia, enquanto sua esposa e filhos foram contrabandeados para o ocidente no porta malas de um carro que cruzou o Muro de Berlim. Degner desertou para se libertar da Alemanha Oriental comunista e ganhar um robusto contrato com a Suzuki, que esperava com ele obter os segredos dos motores dois tempos super rápidos da MZ. Na época, nenhuma outra máquina produzia mais cavalos por litro do que os pequenos motores de indução com válvulas rotativas que permitiam a entrada assimétrica de sincronismo do motor de dois tempos.
 
 

Degner vence com seu MZ em Sachsenring em 1961, assistido por 300.000 fãs da Alemanha
 
Restou um problema, Degner não tinha uma moto para a prova final da temporada, o  GP da Argentina. Se ele conseguisse uma moto competitiva, ainda teria a chance de vencer o título mundial, então ele contatou o engenheiro austríaco britânico Dr. Joe Ehrlich, um judeu vienense que havia fugido quando os nazistas anexaram a Áustria em 1938. A bicicleta de 125 GP EMC (EMC é o acrônimo de Ehrlich Motor Cycles) era semelhante à MZ, porque Ehrlich e o genial engenheiro da MZ Walter Kaaden costumavam ser parceiros em alguns negócios. Kaaden não tinha acesso a suspensões ocidentais de alta qualidade e outras peças, então Ehrlich era seu fornecedor, em troca, Kaaden o ajudava com seus motores.

Ehrlich concordou em fornecer a Degner um EMC para a prova final da temporada na argentina e providenciou o transporte da máquina do aeroporto de Heathrow em Londres para Buenos Aires, via Nova York. Degner na época desenvolveu uma paranoia e passou a andar armado. Encasquetou que a polícia secreta da Alemanha comunista o mataria em Buenos Aires e era sensível a simpatia dos políticos sul-americanos com os nazistas que se refugiaram no país no pós guerra.

Porém este era o menor de seus problemas. As autoridades da Alemanha Oriental estavam furiosas com a deserção de Degner, então telegrafaram aos organizadores do GP da Argentina, anunciando que haviam cassado a sua licença de corrida para impedir a sua participação no evento. A essa altura, Degner já estava a caminho da América do Sul, acompanhado do principal mecânico da EMC, enquanto Ehrlich obtinha uma licença para competir representando a Alemanha Ocidental. Na manhã de sexta-feira, Degner estava na pista nos arredores da capital argentina, aguardando ansiosamente a chegada da sua moto, foi quando uma empresa transportadora britânica ligou para Ehrlich em sua loja em Watford, na grande Londres, perguntando o que deveriam fazer com a motocicleta que estavam armazenando há vários dias.

Quando os organizadores do GP argentino receberam o telegrama das autoridades da Alemanha Oriental, entraram em contato com a transportadora contratada pela EMC e a aconselharam a não enviar a moto. Ehrlich ficou apoplético. Telegrafou para a organização da prova em Buenos Aires com os seguintes termos: “Máquina retida em Londres devido ao seu telegrama de pânico para a companhia aérea. Chegará a Buenos Aires 15:45 de sábado. Considerem-se totalmente responsáveis por esse atraso. Informe Degner da chegada da máquina e deem-lhe toda a assistência possível”.

Enquanto isso, a espera agonizante de Degner continuava. Na tarde de sábado ele entendeu a terrível verdade, a moto chegou a Nova York, mas não seguiu em frente.
 

Suzuki de competição desenvolvida com o auxílio de Degner – 1963
 
A organização da prova, com sentimento de culpa pela trapalhada, ofereceu a ele uma moto Bultaco, mas o equipamento não teria chance de vencer a Honda quatro tempos de fábrica do rival Tom Phillis, então tudo o que Degner pôde fazer no domingo foi assistir o australiano vencer a corrida e o campeonato.

Degner desenvolveu duas teorias para a não chegada da EMC: as autoridades da Alemanha Oriental conspiraram com o presidente argentino Arturo Frondizi para garantir que a moto não chegasse ao seu destino, ou os comunistas radicais entraram em contato com antigos nazistas alemães refugiados na Argentina e os convenceram a abandonar o equipamento em Nova York. Dando vazão à sua paranoia, Degner adquiriu um revólver no centro de Buenos Aires. Os alemães orientais obviamente queriam se vingar e ele ficou apavorado com a ideia que eles enviariam a polícia secreta da Stasi para matá-lo.

Claro, só porque você é paranoico não implica em que não estejam atrás de você, especialmente neste caso, porque a Stasi era conhecida por executar desertores, para desencorajar outros de irem para o oeste.

Então a FIM se envolveu. A Fédération Internationale de Motocyclisme considerou diversas hipóteses, porém todas criavam algum tipo de favorecimento para um dos aspirantes ao título. Até examinaram a possibilidade de ignorar os resultados da corrida de 125cc no GP da Argentina devido à ausência da máquina de Degner, mas finalmente o resultado foi validado.

Ainda assim, a história não acabou. Degner foi julgado perante um tribunal da FIM, a federação da Alemanha Oriental fez várias acusações, incluindo quebrar seu contrato com a MZ, vender segredos industriais da MZ e não cumprir suas obrigações com seu clube da Alemanha Oriental. Ele foi considerado culpado da última acusação e multado em 250 francos suíços.

O piloto foi recompensado no final. O know-how que ele aprendeu (ou roubou conforme o ponto de vista) de Kaaden, criou as primeiras motos dois tempos  competitivas da Suzuki, uma de 125cc simples e uma de 50cc, com a qual Degner conquistou a primeira vitória de um GP da Suzuki, a 50cc em Isle of Man TT de 1962, e seu primeiro título mundial, o campeonato mundial de 50cc de 1962.

Foi uma rara ocasião onde a Suzuki se impôs frente as gigantes japonesas Honda e Yamaha.


Isle of Man – Versões dos anos 60 e 80
 
 
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