11/05/2022 às 15h14min - Atualizada em 11/05/2022 às 14h55min

​A Ducati em relação ao “Pneugate”

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
A MotoGP, assim como o futebol, é uma caixinha de surpresas. A figura de linguagem, chamada de metáfora, tem por finalidade no caso destes esportes, indicar a semelhança que há entre os dois elementos (uma símile). Assim como uma caixinha de surpresas, os resultados são inesperados. Não há como prever resultados, na MotoGP atual há uma surpresa atrás da outra.

Enquanto o caso Sexit (Suzuky exit) permanece nebuloso em função do mutismo da fabricante japonesa, as atenções atuais são concentradas na Ducati, e em particular no sucesso de Pecco Bagnaia no primeiro GP da temporada europeia.  A recente vitória do italiano em Jerez acabou sendo maculada porque ele, junto com outros três pilotos, teriam burlado o regulamento, utilizando a pressão dos pneus dianteiros menor do que o limite permitido. A acusação, publicada por Mat Oxley em Revista Moto Sports Magazine, teria como fonte um engenheiro anônimo de uma equipe rival da Ducati, é veementemente contestada pelo fabricante italiano.

 

Peco Bagnaia vence em Jerez 2022
 
A equipe Ducati, comandada por Gigi Dall’Igna, tem a reputação de interpretações muito particulares dos regulamentos. Até hoje a “colher” instalada no braço oscilante, criação da Ducati e hoje um componente de quase todas as motos, foi definida como um deflector de água da chuva e sistema de arrefecimento do pneu traseiro, sem nenhuma menção à sua contribuição aerodinâmica.

O regulamento é explícito ao especificar uma pressão mínima de 1,9 bar, reconhece Dall’Igna, mas não especifica como devem ser feitas as verificações, considerando que os sensores que uma equipe utiliza podem ser diferentes de outras fábricas, e ainda há o risco de ter um método de controle incorreto.

O método pelo qual os sinais dos sensores são adquiridos não é blindado e, portanto, qualquer pessoa pode modificar os sinais antes de os transmitir para a unidade de controle que deve lê-los. O engenheiro assegura que a Ducati não fez nenhuma alteração nos sinais, porém deixa em aberto a possibilidade de outras equipes o terem feito. Outro detalhe é que atualmente os dados adquiridos pelo órgão de controle não levam em conta os erros inerentes de   cada sensor, de modo que aqueles que indicam valores abaixo do mínimo podem não ser reais

O Motorcycle Sport Manufacturers Association (MSMA) que tem a atribuição de definir os regulamentos para a MotoGP, padronizou na última sexta-feira (06/05) quais os sensores que todas as equipes deverão usar a partir de 2023, quando não será mais possível modificá-los. A regra também deve definir claramente um sistema de controle.

Dall’Igna afirma que não quer se colocar no mesmo nível daqueles que compartilharam tais dados, mas pode dizer com certeza que outras motos venceram utilizando o mesmo artifício. 

Para o pneu dianteiro não é fácil ficar dentro dos limites impostos pela Michelin, a pressão do componente depende muito de como um piloto se comporta na sequência da corrida. Se um piloto permanece na disputa encaixotado por outras mortos, a medida deve ser interpretada de certa maneira, caso contrário, quando a pista está livre à frente, pode acontecer que pressões reais sejam menores do que o esperado. A janela de pressão correta é muito estreita, e ligada a isso há uma questão de segurança, na qual a Ducati está trabalhando em conjunto com outras equipes e com o fabricante do pneu para haver uma uniformidade em 2023.
 


Fabio Quartararo exigindo o máximo do seu pneu dianteiro
 
O importante é que os dados em questão sejam compartilhados tanto com a Michelin quanto com aqueles que têm que fazer as verificações. Por enquanto não existe a previsão de penalidades, porque há um acordo entre as várias partes, pelo qual os dados deste ano sejam monitorados para que a próxima regra seja implementada e controlada corretamente no próximo ano.

O fato é que existem muitas regras que foram corrigidas e gerenciadas nos últimos tempos. O sistema está evoluindo na direção correta, e as regras acompanham esta evolução. Tem que ser definido um método preciso de controle, que não pode ser desvinculado da própria regra. Todos estão cientes da situação atual, e não pode ser alegada qualquer infração regulatória, porque foi estabelecida tanto pelos fabricantes quanto pela Dorna e FIM que o método atual de medição da pressão está incorreto.

A principal preocupação é com a segurança, e todas as equipes trabalham tentando ficar com as janelas definidas por Michelin. Todos têm presente a situação enfrentada pelo piloto Loriz Baz em um dia de testes no circuito de Sepang em 2016. O francês estava com o acelerador a pleno a dois terços da reta em frente aos boxes quando um pneu simplesmente explodiu. O piloto foi ejetado da moto a mais de 290 km/h e miraculosamente apenas luxou o cotovelo. Na época a Michelin enfatizou a necessidade de respeitar os limites de pressão recomendados.

A Ducati não gerou nenhuma controvérsia em relação ao fato de que pilotos de outros fabricantes, em corridas anteriores, alcançaram alguns excelentes resultados, embora provavelmente não dentro dos limites corretos. Isso porque, como mencionado, o método de controle não é inteiramente confiável e, portanto, os valores atuais não valem nada.
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