05/05/2022 às 21h15min - Atualizada em 05/05/2022 às 21h08min

IoMTT – Isle of Man TT

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
A Ilha de Man, também conhecida como Mann, é uma nação insular e dependência autônoma da Coroa Britânica no Mar da Irlanda. Seu chefe de estado, a rainha Elizabeth II, ostenta o título de Lord of Mann e é representada por um vice-governador. O Reino Unido é responsável pela defesa militar da ilha.
 
A Ilha tem autonomia administrativa e parlamento próprio. Com 572 km2 e topologia razoavelmente plana, seu ponto mais elevado é o monte Snaefell, localizado ao norte com 621 metros de altura. A ilha tem uma população de pouco mais de 85 mil habitantes e não é considerada um país soberano, não participa da Comunidade Britânica e não tem representação própria na União Europeia. A Ilha de Man tem mais de 1.100 quilômetros de vias públicas e trilhas abertas ao tráfego, totalmente pavimentadas e em excelente estado de conservação.

A lei de Manx que regulamenta a circulação de veículos é semelhante à do Reino Unido.
 
Nos dias atuais a Ilha de Man é internacionalmente reconhecida pela realização de eventos esportivos de motociclismo, que têm no desafio ao perigo e consequências adjacentes a sua maior característica.
 
Desconsiderando a argumentação dos “politicamente corretos”, a manutenção destas competições só é sustentada por sua tradição. No contexto histórico, a Ilha de Man é o berço das provas de velocidade em veículos automotores.
 
No início do século XX não existiam circuitos permanentes (autódromos) e no Reino Unido estava em vigor uma lei que limitava a velocidade máxima em vias públicas a 20 mph (cerca de 32 km/h). A Ilha de Man, por uma característica que até hoje vigora nos territórios britânicos fora da ilha da Inglaterra (“offshore”), ter alguma liberdade legislativa, os responsáveis pelo “Automobile Car Club of Britain and Ireland” convenceram as autoridades locais para permitirem disputas de provas de velocidade com nas estradas públicas da ilha.
 
Em 1904 houve uma disputa na modalidade contra-relógio no primeiro evento destinado a automóveis de turismo, utilizando um traçado chamado de “Highroads Course”, de 52.15 milhas (cerca de 83,93 km). Clifford Earl foi o vencedor da prova, disputada em 6 voltas do percurso.
John Napier com um Arrol-Johnston de 18 HPs
 
Em setembro de 1905 houve outra corrida de automóveis, chamada na época de Royal Automobile Club (RAC) Tourist Trophy, que foi vencida por John Napier com um Arrol-Johnston com uma impressionante velocidade média de 33,90 mph (54,56 km/h).

No dia seguinte à corrida de automóveis, foi disputada a primeira prova de motocicletas. Como as motos utilizadas eram incapazes de vencer a  parte mais íngreme da montanha, a organização optou por um percurso alternativo com cerca de 25 milhas (40 km), entre Douglas, Castletown, Ballacraine e voltando a Douglas. A prova foi vencida por J. S. Campbell que, apesar do incêndio na sua moto durante um reabastecimento, conseguiu cumprir as 5 voltas da prova (125 milhas/201 km) a uma velocidade média de 30,04 mph (48,34 km/h).
 
As provas de automóveis aconteceram na ilha nos anos de 1905, 1906, 1907, 1908, 1914 e 1922. Foram a origem do RAC Tourist Trophy, que não foram disputadas entre 1923-1927 e a partir de 1928 migraram para o continente. As razões da mudança de cenário foram em função do perigo do traçado e ao fato de, estarem sendo criados circuitos permanentes na Grã-Bretanha continental.
 
Em 1907 disputou-se na Ilha de Man uma prova para motocicletas com o nome de Auto-Cycle Tourist Trophy, a designação TT foi em função de só admitirem motos estritamente de acordo com as regras especificadas para circular em vias públicas, com freios, guarda-lamas e caixa de ferramentas. Desde então até os dias atuais, exceção feita aos períodos das Grande Guerras (1915-1919 e 1940-1945), a prova mantém a designação “Tourist Trophy” ainda que as características dos equipamentos possam ser adaptações de motos produção em série ou protótipos.

 
O vencedor de 1907, Charlie Collier ao comando de uma Matchless alcançou a média de 38,21 mph (61,49 km/h)
 
Entre 1907 e 1910 a prova foi disputada no “St. John's Short Course”, um circuito de 15 milhas (cerca de 24 km). Em 1911 o evento passou a utilizar o “Snaefell Mountain Course”, um circuito de 37,40 milhas que é utilizado até os dias atuais com ligeiras alterações no desenho da rede viária, e tem 37,73 milhas (cerca de 60,725 km).
 
O “Snaefell Mountain Course” recebeu desde o início a triste fama de circuito mais perigoso do Mundo, até hoje mais de 260 pessoas perderam a vida neste percurso, em provas do evento principal (cerca de 150), e eventos paralelos. 
Diagrama do circuito da Ilha de Man
Ralph Bryans e Luigi Taveri, corrida de 50cc em 1966 
 
Os grandes fatores de perigo do traçado são a extensão (dimensão) do circuito que dificulta sua memorização. Alguns pilotos decidiram viver lá para estarem melhor familiarizados com o traçado.

Embora tenha alguns pontos bastante lentos, por exemplo “Quarter Bridge”, “Braddan Bridge”, “Ginger Hall”, “Parliement Square”, “Hairpin” ou “Water Works”, o traçado é em seu conjunto muito rápido, o que aumenta as implicações negativas no caso de acontecer um acidente. Atualmente nas classes de maoir potência são percorridos grandes trechos do percurso desenvolvendo mais de 300 km/h. A volta mais rápida já registrada foi realizada em 2018 por Peter Hickman, na Senior TT Race ”, com o tempo de 16m42,778s e média de velocidade de 135,452 mph (217,989 km/h).

Como curiosidade, nas 50cc disputadas entre 1962-1968, válidas para o Campeonato Mundial de Velocidade (atual MotoGP), em 1966 (há 53 anos) Ralph Bryans com uma Honda venceu a corrida com média de 85,66 mph (137,86 km/h). 

As limitações próprias de um circuito de estrada onde não existem guard-rails, falta de segurança passiva (áreas de escape), existência de desníveis e obstáculos próprios de áreas urbanas (postes, cordões de calçada tampas de esgotos) e até o controle de circulação de animais num perímetro desta dimensão (já aconteceu um piloto atropelar um cavalo que se espantou com o ruído feito por um helicóptero acionado para assistir outro piloto acidentado), determina a impossibilidade de alcançar os padrões de segurança utilizados em autódromos.  

A extensão do traçado limita, a exemplo do que acontece em algumas provas de Enduro, a monitoração de toda a pista. 

Um circuito tão extenso e com variações de cota de até 400 metros permite variações de condições atmosféricas. Frequentemente durante uma mesma volta o piloto encontra clima seco em Douglas e nevoeiro com pista úmida na montanha. 
 
Entre 1954 e 1959 foi também utilizada uma variante do circuito batizada de “Clypse Course”, exclusiva para Sidecar e motos ultra-leves. Em 1960 estas classes passaram a competir juntamente com as outras no “Snaefell Mountain Course”. O “Clypse Course” tinha um perímetro de 10,92 milhas (17,63 km) e utilizava secções do “Snaefell Mountain Course”.
 
Mike "The Bike" Hailwood (DUCATI), 1979
 
O traçado da Ilha de Man hospedou o GP de Inglaterra nos Campeonatos dos Mundiais de Motociclismo, que antecederam a MotoGP, entre 1949 (ano da criação do mundial) e 1976.
 
As 50cc disputaram as provas entre 1962 e 1968, as 125cc entre 1951 e 1973, as 250cc, 350cc e 500cc entre 1949 e 1976. Na relação dos vencedores constam os nomes de Mike Hailwood, Phil Read, Giacomo Agostini, Jim Redman, John Surtees e Geoff Duke, entre outros.
 
Depois da prova de 1972, Giacomo Agostini anunciou que nunca mais correria na Ilha de Man, afirmando que era muito perigoso e que não entendia como este circuito ainda permanecia no calendário. Gradualmente outros pilotos passaram a boicotar o evento e em 1976 foi realizada a última prova válida pelo mundial.
 
Descontentes com a perda, os administradores do circuito utilizaram o prestigio da ACU (a federação inglesa) na FIM e conseguiram que fosse criado um Campeonato Mundial de TT, que teria como principais características as motos admitidas serem derivadas de série e de os circuitos utilizarem estrada (naturais).
 
Este campeonato nunca teve um grande impacto internacional. 
 
Joye Dunlop 1988
 
O Isle of Man TT nos últimos 28 anos é uma prova com enorme tradição e explora a imagem de perigo e aventura extrema, que atrai os esportistas mais audaciosos. Ele tem o apoio de uma comunicação agressiva por parte dos responsáveis pela organização e autoridades da ilha, cuja maior receita vem do fato de ser um paraíso fiscal e as receitas do turismo que o circuito gera.
 
Os melhores pilotos da Ilha de Man não são necessariamente bem sucedidos quando confrontados com a nata dos pilotos de circuitos permanentes e isto deve-se essencialmente a técnica de condução ser fundamentalmente diferente.

Em circuitos permanentes os pilotos conduzem até ao limite, com as condições de segurança passiva que minimizam o risco de acidentes. Na Ilha de Man, os pilotos rápidos sabem que se caírem têm uma grande probabilidade de bater num muro, poste, árvore ou de caírem por uma ribanceira, naturalmente esta realidade não permite andar à procura do limite de forma sistemática, exige uma condução mais defensiva.
 
Não existe confronto entre as duas classes de pilotos, alguns da MotoGP são proibidos por contratode correr na Ilha de Man, outros não estão habituados a andar no limite extremo da moto que conduzem. Os pilotos que fazem carreira na Ilha de Man são classificados como temerários.
 
Os três nomes que mais vezes chegaram ao degrau mais alto do pódio, nas diversas provas/classes, são Joey Dunlop em 26 oportunidades, John McGuinness que venceu 23 vezes e Michael Dunlop campeão em 18 edições.
 
Sem dúvida falar da Ilha de Man é também falar família Dunlop, proveniente de Armoy (Irlanda do Norte), que detém um impressionante histórico na ilha. Joey venceu por 26 vezes e faleceu em 2000 num acidente em Tallinn, um circuito de estrada na Estónia. O irmão Robert venceu em 5 oportunidades e faleceu em 2008 num acidente na “North West 200” na Irlanda do Norte, circuito de estrada. O filho de Robert, sobrinho de Joey, Michael Dunlop venceu 18 edições. Por fim William, irmão de Michael, filho de Robert e sobrinho de Joey, teve participações honrosas na ilha e faleceu em 2018 num acidente na “Skerries 100 Road Races” em Dublin na Irlanda do Norte.

Michael Dunlop disputando uma prova em sua cidade natal -  Armoy

​Robert Dunlop faleceu devido a um acidente durante uma sessão de treinos da classe 250cc na prova North West 200  2008 na Irlanda, em que seus dois filhos também participavam.

A sua moto foi modificada e tinha as alavancas de freios da frente e embreagem do lado esquerdo devido aos condicionantes físicos de um acidente anterior. Robert caiu ao acionar o freio a 160 mph (260 kn/h) inadvertidamente ao tentar utilizar a embreagem, foi atropelado por um piloto que o seguia. No dia seguinte, os seus dois filhos, consternados pela perda do pai, fizeram questão de participar na corrida como forma de honrar a sua memória.

Surpreendentemente Michael venceu a corrida.

Um acidente de Robert Dunlop no "North West 200" de 1998 resultou em ferimentos graves que o incapacitaram durante muito tempo e dos quais nunca se recuperou 100%. Na ocasião Robert tripulava uma Honda 125cc, curiosamente o mesmo modelo que o seu irmão Joey conduzia quando teve o acidente fatal 
 
Mesmo circulando em moderno e seguros circuitos a média de velocidade da MotoGP está entre 160 km/h e 180 km/h. Um indicativo da insanidade do Isle of Man TT pode ser obtido comparando a volta realizada por  Peter Hickman em 2018 no comando de uma BMW S1000RR, média de 135.452 mph (217.998 km/h).
 
Após uma ausência de dois anos, o icônico Isle of Man TT retorna em  2022 com um novo visual e o objetivo de ter uma audiência global maior com transmissões ao vivo pela TV.
 
A programação com treinamentos e testes inicia em 29 de maio.

Em 04 de junho iniciam as provas com classificatórias com 6 voltas para a RST Superbike e duas provas de 3 voltas para sidecar ao longo dos sete dias.
 
Cada piloto inicia a sua participação na linha de largada em Glencrutchery Road, com uma diferença de 10 segundos entre eles e seus rivais.

Nas classes Superbike e Senior TT foi confirmada a presença de John McGuinness, que recebeu a condecoração  MBE (Membro da Ordem Mais Excelente do Império Britânico), em seu retorno às corridas TT e seu retorno à Honda.
John McQuiness – Número 1 no Ilse of Man 2022

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