26/04/2022 às 10h05min - Atualizada em 26/04/2022 às 09h44min

Silly Season

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Silly Season é um jargão jornalístico que define uma época em que as publicações são preenchidas com histórias que não são importantes, porque nada de extraordinário acontece. Um período de tempo em que as pessoas especulam, dizem coisas que são carentes de confirmação.

No universo da MotoGP a Silly Season define a época em que os contratos dos pilotos com as equipes são negociados e renovações ou transferências são acertadas.
 
Até o meio da primeira década deste século este período ficava restrito aos últimos meses de uma temporada e este prazo tinha uma certa lógica. As equipes hesitam em compartilhar novos desenvolvimentos com pilotos que podem, em um futuro breve, estar a serviço de um concorrente (a exemplo da migração de Ernst Degner da MZ quando levou para a Suzuki o motor de 2 tempos em 1961). 

São raros pilotos que desenvolvem toda ou parte substancial de sua carreira defendendo uma mesma equipe. Fidelidade a um fabricante não é um conceito valorizado neste esporte. Existem, entretanto, alguns casos esporádicos que são significativos. Marc Márquez, por exemplo, está associado a Honda desde sempre, onde foi campeão em 2013, seu ano de estreia na MotoGP. Dani Pedrosa, seu colega de equipe durante muitos anos, constantemente reclamava que a RC213V era desenvolvida de acordo com a imagem e semelhança das características de condução de Marc. Mick Doohan sempre pilotou para a Repsol-Honda, que inclusive adaptou seus equipamentos para facilitar o trabalho do australiano quando este competia com limitações físicas (o acionamento do freio traseiro com um botão, por exemplo, quando ele não tinha sensibilidade no pé). Entre 1966 e 1972 Giacomo Agostini venceu 14 campeonatos mundiais entre 350cc e 500cc, sempre com a MV Agusta, seu 15º título foi conquistado com uma Yamaha em 1975. 

 
Giacomo Agostini – Multicampeão com a MV Agusta

Valentino Rossi foi três vezes campeão do mundo com a Honda antes de migrar para a Yamaha, onde conseguiu mais 4 títulos. Incomodado com a perda do campeonato de 2015 para Jorge Lorenzo, seu companheiro de equipe, Rossi inviabilizou a permanência do espanhol em 2017, não esperando pela Silly Season e renovando seu contrato com muita antecedência.

 
MotoGP 2015 – Lorenzo vs Rossi

A Silly Season deste ano parece particularmente interessante. Antes mesmo de chegar à etapa 06 em Jerez as discussões nos bastidores estão em pleno andamento. Este ano, a maioria dos contratos dos pilotos está terminando, e tal é a situação que nos encontramos nestes dias, colocar a caneta no papel é algo para ser resolvido o mais rápido possível. Somente quatro dos pilotos do grid tem contrato assinado para a temporada de 2023: Marc Márquez (Repsol Honda Team); Brad Binder (Red Bull KTM Factory Racing Team); Francesco Bagnaia (Ducati Lenovo Team); e Franco Morbidelli (Monster Energy Yamaha MotoGP). A Dorna (administradora da MotoGP) considera um grid com 24 máquinas como ideal para o campeonato mundial, portanto ainda há diversos assentos sem um titular.

A Monster Energy Yamaha MotoGP tem uma vaga garantida para Franco Morbidelli, existem negociações em curso com o atual campeão Fabio Quartararo, cujo contrato termina no final desta temporada. No GP de Austin seu empresário admitiu que estão sendo realizadas conversações com outras fábricas. Não se sabe o quanto isto é real ou jogo de cena para valorizar o francês, também não significa que “El Diablo” esteja procurando uma mudança

 

Yamaha de Franco Morbidelli

Uma das equipes mais cobiçadas pelos pilotos é a Repsol Honda Team. Marc Márquez já está confirmado, mas a vaga de seu parceiro ainda está em aberto. Com um pódio no Catar e mostrando grande velocidade no novo RC213V, Pol Espargaro impressionou, mas até agora não houve confirmação de quem dividirá o box com Márquez.

O parceiro de Francesco Bagnaia na Ducati Lenovo Team é outro grande ponto de interrogação. O vencedor de Jerez e Le Mans em 2021, Jack Miller, espera manter seu lugar, mas nomes como Jorge Martin (Pramac Racing), Enea Bastianini (Gresini Racing MotoGP) e Johann Zarco (Pramac Racing) estão na disputa. Os dirigentes da equipe afirmam que esperam manter Miller, porém isto pode ser só uma manobra para tranquilizar o piloto. O recente incidente que ele protagonizou na prova de Portimão causando o seu segundo abandono em cinco provas (o primeiro foi na etapa de abertura da temporada no Catar) é um atestado eloquente de sua intranquilidade.

A Red Bull KTM Factory Racing já fechou com Brad Binder e seus dirigentes confirmam que pretendem manter Miguel de Oliveira.  

 
KTM de Miguel Oliveira

As seguintes equipes não têm ninguém confirmado em suas escalações para a temporada de 2023. A Suzuki Ecstar que disputa a atual temporada com Joan Mir e Alex Rins espera contar com a dupla em 2023, porém não antecipa nenhum movimento.

A surpresa da atual temporada, Aprilia Racing, ainda não confirmou Aleix Espargaro, o piloto que conseguiu a primeira vitória para a equipe e Maverick Vinales. As negociações estão em curso, porém Aleix já declarou que esperava proposta melhor da equipe.

Nas equipes independentes tudo está em aberto. Pramac Racing, de Jorge Martin e Johann Zarco nenhum piloto confirmado, embora o dirigente da equipe tenha afirmado que vai fazer tudo para manter o francês.
Na LCR Honda Castrol/Idemitsu ainda não houve negociações com Alex Marquez e Takaaki Nakagami, porém a renovação de ambos e dada como certa. 

Gresini Racing MotoGP, do vencedor de duas provas nesta temporada Enea Bastianini, ele e seu colega Fabio Di Giannantonio não estão confirmados, a exemplo do que acontece com a Luca Marini e Marco Bezzechi da Mooney VR46 Racing Team. O grau de parentesco de Marini com o dono da equipe (meio-irmão) aparentemente garante a sua confirmação.

Para as demais vagas, as equipes Yamaha RNF MotoGP (de Andrea Dovizioso e Darryn Binder) e Tech3 KTM Factory Racing (de Remy Gardner e Raul Fernandez) ainda não se pronunciaram, embora a decepção de Dovizioso com a Yamaha seja evidente.

Existem diversos pilotos das categorias de acesso (Moto2) que podem ser aproveitados na classe principal, alguns inclusive foram convidados pela Aprilia no passado e recusaram por considerarem a equipe sem condições e estarem livres se surgissem melhores oportunidades.

Depois de conquistar a primeira vitória da Aprilia na MotoGP, Aleix Espargaro recordou pilotos que recusaram a oferta de guiar a RS-GP quando Andrea Iannone foi suspenso por doping. Massimo Rivola foi ao mercado e ouviu recusas de Marco Bezzecchi, Fabio Di Giannantonio e Joe Roberts.

Bezzecchi na época tinha pré-contrato com a VR46 e preferiu ficar na Moto2, Di Giannantonio estava com um acordo verbal com a Gresini. Ambos estão na MotoGP nesta temporada com resultados inexpressivos. O americano Joe Roberts preferiu esperar e não está mais cotado para a elite do Mundial.

Atualmente, com os resultados de Aleix Espargaro, a Aprilia desperta a atenção dos jovens competidores.

 
Aprilia RS-GP 2022
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