06/11/2021 às 19h35min - Atualizada em 06/11/2021 às 19h06min

Números das motos da MotoGP

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Antes da ditadura do “Politicamente Correto”, quando piadas eram apenas gracejos hilariantes ditos com intenção de fazer rir, serviam unicamente para divertir e não eram considerados ofensivos. Uma afirmação recorrente era uma maneira de obter lucro rápido, “comprar um argentino pelo que vale e vender pelo que ele acha que vale”. É proverbial a autoestima exacerbada dos “Hermanos”. Aquele dito popular antigo que “peixe morre pela boca” pode ser interpretado como um conselho sábio: ser muito explícito com as palavras pode ser prejudicial.
 
O esporte motorizado apresenta diversos exemplos que palavras podem prejudicar relacionamentos. Em 2015 disputando o GP de Fórmula 1 do Japão, Fernando Alonso expressou sua inconformidade com a potência do motor Honda de sua McLaren ao ser ultrapassado por uma Red Bull Renault. Tendo plena ciência que estava em solo japonês e que todas as transmissões de rádio com a equipe podem ser divulgadas no áudio da transmissão da TV, reclamou acintosamente do propulsor classificando-o de “Motor de GP2”.
 


Fernando Alonso com a McLaren-Honda 2015
 

Fiel ao ditado que “Vingança é um prato que se come frio”, a revanche deve ser estruturada de forma cautelosa, e reservada para uma hora oportuna onde seus efeitos sejam mais sentidos. A hora de Alonso chegou 5 anos depois, o fabricante nipônico vetou no início de 2020 a participação do espanhol nas 500 milhas com um carro da Andretti com motor Honda. Pelas informações divulgadas, a equipe americana tinha um acerto com a Honda Performance Development, divisão que opera nos Estados Unidos para assuntos relacionado com a Indy, foram então realizadas tratativas com a matriz para receber autorização. A fábrica japonesa disse não. Junto com o veto, foram abortadas as participações esporádicas de Alonso em provas da Indy com os carros da Andretti.
 
A fase mais obscura da carreira de Valentino Rossi foi sua passagem pela Ducati entre 2011 e 2012. O italiano que conquistou em sequência os campeonatos de 2008 e 2009, iniciou a temporada de 2010 no Catar com uma vitória, sua única real ameaça para manter a sua hegemonia compartilhava o box da equipe oficial da Yamaha, o piloto de Maiorca Jorge Lorenzo. Depois de 3 etapas o espanhol liderava o campeonato com 70 pontos, seguido de Rossi com 61. Então aconteceu o acidente nos treinos do GP da Itália, em Mugello, que resultou na fratura da perna do 9 vezes campeão do mundo, e o obrigou a ficar fora por 4 etapas. Quando retornou, Rossi encontrou a liderança de Lorenzo consolidada. O espanhol conquistou o título obtendo 9 vitórias e 16 pódios em 18 etapas, um recorde de 383 pontos, dez a mais do que o melhor resultado até então na MotoGP, alcançado por Valentino Rossi em 2008. Os números de Lorenzo foram superados por Marc Márquez em 2019, 420 pontos, 12 vitórias e 18 pódios em 19 provas.
 
 

Jorge Lorenzo (#99) & Valentino Rossi (#46) em 2010
 

No início das tratativas de renovação de contrato do italiano em 2011, a Yamaha propôs uma redução nos salários de Rossi e uma alteração na hierarquia da equipe, passando a privilegiar o atual campeão Lorenzo. Rossi até aceitou uma recompensa financeira menor, mas considerou a perda de status de piloto principal inaceitável. Não houve acordo e como Casey Stoner havia ocupado a vaga aberta por Andrea Dovizioso na Repsol-Honda, só restou ao piloto a equipe Ducati, que apesar das 3 vitórias no ano anterior já não demostrava o mesmo fôlego.
 



 

Em 1986 a equipe John Player Team Lotus substituiu o veterano piloto Elio de Angelis pelo inexpressivo Johnny Dumfries (de Angelis faleceu no mesmo ano enquanto testava um Brabham no circuito de Paul Ricard). Ayrton Senna foi promovido a primeiro piloto da equipe e herdou o número 11 que pertencia ao italiano. Houve pedidos da mídia e patrocinadores que tinham um extenso acervo de fotografias do brasileiro no comando da Lotus preta identificada com o número 12. Atendendo às solicitações, Senna voltou a ser inscrito com o seu número original.
 
Este episódio ilustra que o número que identifica um piloto transcende às eventuais honrarias, tradições e é suscetível a superstições e interesses comerciais. Antes da pandemia, quando os circuitos lotavam com espectadores, as bandeiras amarelas com o #46 e as vermelhas com o #93, ocupando espaços reservados com muita antecedência para simpatizantes de Valentino Rossi e Marc Márquez.
 



Torcidas de Valentino Rossi & Marc Márquez
 

O regulamento atual da MotoGP faculta ao campeão da temporada anterior o uso do #1 em sua moto, privilégio que foi exercido pela última vez em 2012 por Casey Stoner, que venceu o mundial de 2011 com uma Honda. Todos os campeões subsequentes, Jorge Lorenzo (2012 & 2015) Marc Márquez (2013, 2014, 2016, 2017, 2018 & 2019) e Joan Mir (2020) optaram por defender o título utilizando seus números habituais. Embora a temporada atual não tenha sido encerrada, já tem um campeão definido, Fábio Quartararo, que já anunciou que prefere continuar com o #20, seu número atual. A tradição foi inicialmente quebrada pelo britânico Barry Sheene que embora tenha sido campeão em 1976 e 1977, decidiu utilizar o #7 em 1978.
 
A origem dos números que identificam os pilotos tem diversas motivações, pode ter sido o numeral que utilizavam na origem de suas carreiras (algumas vezes ainda no kart), preferências pessoais ou imposição de patrocinadores.
 
 

#46 – Valentino Rossi
 

O icônico número #46 que acompanha Valentino Rossi desde suas primeiras incursões ao mundo da motovelocidade foi herdado de seu pai, Graziano Rossi, que o utilizou quando venceu o mundial de 250cc em 1979. O #46 é talvez o número mais importante deste esporte, porque capitalizou todo o merchandising realizado em torno do piloto mais longevo e carismático da MotoGP. Nos dias atuais existe um vínculo estreito entre o piloto e o império comercial e esportivo que criou com sede em Tavullia (Itália). Não tem como dissociar o criador da criatura, o VR46 é uma máquina de fazer dinheiro.

 

#93 Marc Márquez


Outro número que está se transformando em lenda na MotoGP é o #93, que identifica o 8 vezes campeão Marc Márquez.  O maior vencedor da década passada utiliza este identificador desde que participou do Campeonato Espanhol de Velocidade. A explicação da escolha deste número em particular é prosaica, é o seu ano de nascimento.
 
Seu irmão mais moço, Alex Márquez tem uma história bizarra para a escolha do #73 que utiliza desde 2015. Sua preferência pessoal era o dia de seu nascimento, 23, mas estava ocupado, então subtraiu 23 do ano em que nasceu, 96, chegando ao #73.
 


#04 Andrea Dovizioso
 

A história da escolha de 04 por Andrea Dovizioso também tem aspectos inusitados. Seu ídolo no motociclismo era o americano Kevin Schwantz, ele utilizou o número #34 do campeão de 1993 das 500cc quando venceu o mundial de 125cc em 2004. O número do americano foi aposentado quando Andrea chegou na MotoGP, então simplificou para #4. Posteriormente adicionou um zero (#04) por razões comerciais.
 
A fidelidade de um piloto ao seu número nem sempre é muito respeitada. Maverick Vinales por exemplo, usou o dia 12 em que nasceu no início da sua carreira, porém quando chegou ao Campeonato Mundial na 125cc, escolheu o #25 porque é o número de pontos atribuídos ao vencedor da corrida, quando progrediu para a Moto2 mudou para o #40 por exigência de patrocinadores. Posteriormente voltou ao #25 quando migrou para a classe principal e finalmente, na temporada 2019, decidiu retomar o #12 original, porque com esse número ele tinha vencido Marc Márquez quando ambos eram crianças.
 


#33 Brad Binder


O sul africano Brad Binder desenvolveu sua carreira utilizando o #41, porém quando chegou à MotoGP o identificador estava associado à Aleix Espargaro. Brad escolheu o #33 por razões estéticas, por ter um grafismo semelhante ao acrônimo de seu nome, BB.
 
Quando Jack Miller competia na motocross utilizava o numeral 543, porém as provas do mundial de velocidade só admitem 2 dígitos, então inicialmente abandonou o 5, o número estava ocupado na Moto3, então assumiu o #8. Quando foi promovido para a MotoGP, pôde recuperar o #43 que utiliza atualmente.
 
O piloto Pol Espargaro sempre usava o #4 em sua moto como homenagem ao seu ídolo, o tupiniquim Álex Barros, porém por razões comerciais mudou para o #40 na Moto2. Na MotoGP não conseguiu recuperar o 4, que era (e é) de Andrea Dovizioso, então decidiu dobrar a homenagem a Barros e assumiu o 44.
 


#44 Pol Espargaro
 

A escolha do número de um piloto por vezes reflete a sua personalidade. Jorge Lorenzo escolheu o #99 porque, em suas próprias palavras, era o que mais se aproximava dos 100%. O português Miguel Oliveira usava o #44 nas classes de acesso, que já tinha dono na MotoGP (Pol Espargaro), então, otimista em futuros resultados, dobrou para #88. Quando Pecco Bagnaia foi promovido para a Moto2 em 2017, teve que desistir do número #21 porque já era de Franco Morbidelli. Decidiu duplicar, optou pelo #42, que não foi uma escolha feliz porque na categoria principal este número já era utilizado pelo piloto de fábrica da Suzuki, Alex Rins. Bagnaia então adicionou outros 21 quando foi promovido para a MotoGP em 2019, resultando no #63.
 
Joan Mir foi campeão do mundo de Moto3 de 2017 com o #36 e foi autorizado a trazer seu número tradicional para a Suzuki Ecstar. O número já tinha sido utilizado pelo piloto de testes da KTM Mika Kallio (sua idade), mas como o finlandês não era um piloto regular, Mir obteve a prioridade. Quando veio do Japão para disputar o campeonato espanhol MotoGP Academy, Takaaki Nakagami recebeu do então diretor da equipe Alberto Puig o #30. O japonês utiliza este número até os dias atuais por uma questão de respeito.
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