02/11/2021 às 19h59min - Atualizada em 02/11/2021 às 19h38min

Valência 2006 – A primeira grande derrota de Valentino Rossi

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
O ambiente estava todo armado, nos dias que antecederam o GP Rossi teve um encontro com Romano Prodi, primeiro ministro da Itália, conseguiu a pole na classificação e vinha em uma sequência de bons resultados, enquanto seu adversário não havia pontuado na prova anterior no Estoril. O italiano liderava a contagem geral por 8 pontos. Porém como ensinou o multi campeão de Fórmula 1 Juan Manuel Fangio, “carreras son carreras”, o final do GP de Valência em 2006 coroou Nicky Hayden, o último campeão mundial norte-americano da MotoGP.
 
 

Nicky Hayden & Valentino Rossi
 

No esporte, como em outros contextos, quando um resultado surpreendente se manifesta, teorias absurdas de conspiração tentam explicar o fato. Aconteceu quando uma doença misteriosa acometeu Ronaldo, o Fenômeno antes da final da Copa do mundo de futebol na França de 1998, passou pela ultrapassagem de Lewis Hamilton sobre Timo Glock na última curva de Interlagos no encerramento da temporada de Fórmula 1 em 2008, resultado que sonegou o título mundial de Felipe Massa, até a impressionante recuperação da equipe norte-americana Oracle no mundial de vela em 2013, revertendo um placar adverso de 0 a 8 em um 9 a 8 nas regatas finais. O GP de Valência de 2006 não foi uma exceção, segundo todos os especialistas deveria ter dado a Valentino Rossi o 6º título mundial consecutivo na MotoGP.
 
Uma pesquisa que entrevistou 49.004 internautas, conduzida pelo site da MotoGP nos dias que antecederam a prova indicou que 77,3% dos consultados expressaram que o “The Doctor”, então com uma vantagem de 8 pontos, seria reconfirmado como Campeão Mundial. Já na época, pesquisas de opinião não correspondiam à realidade dos fatos.
 
A temporada de 2006 tinha sido diferente das anteriores, anos em que Rossi liquidou as aspirações de seus rivais desde as primeiras etapas. Na abertura em Jerez colidiu com Toni Elias na primeira curva, e em uma corrida de recuperação conseguiu apenas 2 pontos. Depois do triunfo no Catar, ele perdeu a liderança do mundial na Turquia (4º), passou em branco na China (problema com pneus) e na França (falha mecânica quando liderava a 8 voltas do final). Após cinco GPs o campeonato parecia comprometido, Rossi estava 43 pontos atrás e Hayden (4 pódios, nenhuma vitória), 39 de Marco Melandri e Loris Capirossi e 33 do novato Dani Pedrosa. Em sua frente também estavam o companheiro de equipe Colin Edwards e as Honda de Casey Stoner e Toni Elias.
 
Com uma dupla vitória em Mugello e Barcelona (corrida acidentada, na 1ª volta houve uma colisão entre as Ducati de Sete Gibernau e Loris Capirossi que envolveu também Melandri e Pedrosa), Rossi voltou ao jogo, porém com mais dois pódios Nicky continuou com uma margem de 29 pontos. O Kentucky Kid venceu a prova seguinte em Assen aproveitando uma queda de Edwards a metros da linha de chegada, Rossi foi apenas o 8º. O americano abriu 42 pontos sobre Pedrosa, 44 de Capirossi e 46 de Rossi e Melandri.
 
 

Acidente em Barcelona entre Gibernau e Capirossi também envolveu Melandri e Pedrosa
 

Três etapas depois, o americano conquistou a vitória em Laguna Seca, sem pontuação devido a uma a falha do motor da M1 Rossi ficou a 51 pontos do Kentucky Kid com apenas seis etapas (150 pontos) restantes. Nas cinco corridas seguintes, entretanto, Rossi conquistou diversos pódios e Hayden nenhum, com o agravante de ter sido envolvido em um incidente com seu colega de equipe Dani Pedrosa no Estoril e ter que abandonar a competição. Com os resultados das últimas provas, na etapa final em Valência Hayden tinha 236 pontos e Rossi 244, considerando ainda que perdeu a vitória em Portugal para Toni Elias por dois milésimos de segundo. Estes 5 pontos fariam falta no final.
 
Entre as corridas na península ibérica foram duas semanas que, além dos treinos, Valentino aproveitou para ir com Andrea Dovizioso ao Comitato Olimpico Nazionale Italiano – CONI, buscar um Diploma de Honra ao Mérito e conhecer o primeiro ministro Romano Prodi.  Nicky recebeu um e-mail do presidente da HRC, Suguru Kanazawa, se desculpando com o fogo amigo no Estoril, que além de abalar o moral da equipe, ainda resultou em lesões no ombro e bíceps direito do ex-líder:  Hayden desabafou: "Como vocês querem que eu me sinta? Passei quase toda a temporada no centro da mesa de conferência de imprensa e agora no meu lugar está Valentino.”
 


A Yamaha de Valentino Rossi
 

Nicky precisava de pelo menos um aliado que no último GP ficasse entre ele e seu rival, mas o próprio Vale se antecipou e procurou o apoio de Colin Edwards que, como mencionado, em Assen tinha praticamente batido Hayden na corrida, mas a queda subsequente do piloto do Texas foi um duro golpe para as chances de título de Rossi: "Depois de Estoril eu falei com Colin: as Honda estão bem e ele poderia ser útil em Valência”. O texano conhecia bem a pista e havia corrido lá na Superbike."
 


 
Arianna Matteuzzi
 

Rossi em Valência estava com a sua namorada na ocasião, a milanesa Arianna Matteuzzi. Nicky, solteiro, acompanhado de seu pai, Earl, sua mãe Rose e três dos quatro irmãos. O americano havia aceitado voluntariamente participar de um documentário da MTV, que não desistiu em momento nenhum da realização de uma série de TV em 4 capítulos, intitulada "The Kentucky Kid".
 
No primeiro treino livre Rossi foi o mais rápido, mas Stoner ficou a 6 milésimos e Hayden a 7. No FP2, com a pista emborrachada os tempos de volta caíram quase 1 segundo, as motos equipadas com pneus Bridgestone dominaram, a Ducati estava na liderança com Capirossi, seguida pela Kawasaki, de Randy De Puniet e a Suzuki, de Chris Vermeulen. O primeiro equipado com Michelin foi Hayden, que havia mudado a inscrição em seu traje de Kentucky Kid para “All in 69”" acompanhado de batatas fritas e cinco cartas de baralho, que ficou a 8 décimos; ainda assim o piloto declarou que estava muito satisfeito com a Honda. O norte-americano comentou com a imprensa que tinha esperanças em muita sorte na prova, simultaneamente com muito azar do italiano.
 
Nem um pouco preocupado Rossi ficou em sétimo, autor de 16 voltas seguidas com um ritmo de 1'33 "5, declarou depois do treino: “Eu sei que posso confiar em Capirossi, se ele ganhar os 25 pontos estraga a festa do Nicky”. No dia seguinte, porém, a desejada ajuda já não era necessária: Valentino foi o primeiro na FP3 com 37 milésimos mais rápido que seu rival. No grid de largada ficou com a pole, Hayden foi relegado à 3ª fila em 5º.
 
Na manhã seguinte, havia 125.000 espectadores no circuito, a maioria deles fãs de Rossi, como evidenciado pela multidão de camisetas e bonés amarelos. Em uma das provas preliminares Jorge Lorenzo conquistou o título da 250cc, um aperitivo digno para a classe principal. Quando as luzes apagaram e autorizaram a largada, a Yamaha na pole não conseguiu descarregar toda a potência na pista, alegadamente por uma regulagem errada na embreagem. Na primeira curva as Ducati de Troy Bayliss (substituto do lesionado Sete Gibernau) e Capirossi contornaram em primeiro, seguidos por Pedrosa, Stoner e Rossi. Na curva seguinte, Rossi foi ultrapassado por Hayden, que também passou pelo australiano no meio da volta. Após a primeira volta, Nicky estava em 4º e Vale em 7º, mas nas duas voltas seguintes o americano passou Loris e Dani, ganhando o 2º lugar atrás do líder Bayliss. Na 7ª posição, atrás de 2 Ducati e 4 Honda, Valentino contabilizava 3 pontos atrás na contagem geral.
 
 

Queda de Rossi na 5ª volta
 
Na 5ª volta, em uma curva de baixa velocidade (curva 2, contornada a 80 km/h) Rossi perdeu o controle da Yamaha e caiu. Recuperou a moto e voltou à prova na última posição e progrediu até a 13ª colocação. Avisado pelos boxes, Hayden assumiu uma postura mais conservadora e não ofereceu resistência ao ataque de Capirossi, que fechou a dobradinha da Ducati. Com os 16 pontos do 3º lugar Hayden conquistou o título da temporada, totalizando 5 pontos a mais que Valentino Rossi. Ironicamente Valentino perdeu 5 pontos na prova anterior no Estoril por 2 milésimos de segundo.
 
Nicky Hayden festejou o resultado dizendo que era um grande dia: “Dediquei toda a minha vida para viver esse momento!".
 
Rossi admitiu o erro, mas deixou claro que o título havia sido perdido antes de sua queda. “Fiquei preso atrás das Ducati na largada e perdi o campeonato. As condições da pista não eram as mesmas do dia anterior.”.
 
 

Nicky Hayden – Campeão da MotoGP em 2006
 
Alguns dias depois, nos boxes da Yamaha começaram a surgir rumores sobre uma suposta teoria da conspiração. Seu chefe de equipe Jeremy Burgess deixou escapar: "Parece que na volta 5 Valentino acelerou demais, mas não está claro. Vimos fotos da frente, há uma sensação de algo estranho no comportamento do pneu dianteiro." 
 
Uma teoria também apoiada por Casey Stoner, certamente não o melhor amigo de Rossi, em sua autobiografia: "Assim que as luzes se apagaram, Rossi se viu em apuros. Eu fui um dos seis que o ultrapassaram na primeira volta. Os pneus dianteiro e traseiro pareciam não querer cooperar um com o outro. Acho que lhe deram um pneu defeituoso. Eu não sei por que alguém teria feito isso.
 
Foi o epílogo de uma temporada assombrada para Rossi, na primeira derrota real de sua carreira. O multi campeão que se aposentou recentemente teve outra temporada amarga em 2015, quando perdeu o título para seu desafeto Jorge Lorenzo.
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