29/10/2021 às 19h29min - Atualizada em 29/10/2021 às 18h21min

Emilia Romagna

A prova que decidiu a temporada 2021

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
Em meio à segunda prova realizada em Misano parecia que a disputa pelo campeonato de MotoGP de 2021 iria até o final da temporada em Valência, em 14 de novembro. Pecco Bagnaia, esperançoso pelo título, estava estabelecendo um ritmo alucinante na liderança, enquanto o líder por pontos na disputa do mundial, Fabio Quartararo, estava atrapalhado no pelotão, avançando lentamente desde a quinta fila, seu pior desempenho no treino classificatório desde que chegou à MotoGP em 2019.

Quartararo parecia ter uma boa vantagem de pontos para a penúltima rodada em Portimão, onde em abril venceu a prova à frente de Bagnaia, cuja pole na classificação foi cancelada, relegando-o a largar da 4ª fila. Havia uma boa chance de Bagnaia manter vivas suas esperanças de título para a etapa de Valência, onde, salvo desastres, Quartararo garantiria o título.
 


Pecco Bagnaia lidera, escoltado por Jack Miller e Marc Márquez
 

Em vez disso, o desastre foi todo de Bagnaia. Em Misano, ele tinha Marc Márquez em sua perseguição, o seis vezes campeão mundial da Honda, que acompanhava o ritmo do principal piloto da Ducati volta após volta, porém incapaz de chegar perto o suficiente para tentar a liderança, e lentamente seus problemas físicos começavam a se manifestar.

Na volta 23 de 27 Bagnaia perdeu a frente na Curva 15, caindo na área de escape, um tipo de “deja vu” com o que tinha acontecido com seu companheiro de equipe da Ducati, Jack Miller,  18 voltas antes. Com aqueda de Bagnaia, Quartararo conquistou o título de campeão mundial de MotoGP em 2021.
 
A causa da queda de Bagnaia foi a escolha do pneu dianteiro. Cinco semanas antes, ele havia vencido o GP de San Marino, sob grande pressão de Quartararo, usando opção hard da Michelin na frente. No domingo ele escolheu o mesmo pneu dianteiro, desconsiderando o fato de que a temperatura da pista era 6 graus mais fria. Apenas Bagnaia e Miller escolheram a frente hard, o resto do grid optou pelo médio.

Ambos estavam convencidos de que os hard eram mais adequados e resultariam em uma vantagem competitiva.

"A opção sempre foi o pneu hard", disse Miller. "Optei por esta decisão por volta das 11 horas quando vi que a temperatura da pista estava subindo, porque tínhamos problemas de travamento em linha reta com o médio, que foi o que aconteceu com Jorge Martin (bloqueou a frente na Curva 1 e bateu na volta 13)”.
 


Jack Miller na traiçoeira Curva 15
 
"Parecia uma sacada genial, o sentimento era bom. Por volta das 13 horas (faltando uma hora para a largada) ainda parecia a escolha acertada, como se fosse uma ótima ideia. Então, quando estávamos no grid as nuvens começaram a surgir e a temperatura da pista a cair, quando a prova começou a pista não estava quente o suficiente."
 
Misano é um circuito no sentido horário, com apenas seis curvas à esquerda. A curva 15 é a primeira esquerda após a Curva 8, alcançada cerca de 35 segundos depois, por isso é imperativo que os pilotos ataquem a Curva 8 com força, para gerar calor no lado esquerdo do pneu dianteiro, e ter temperatura suficiente quando chegam à Curva 15.
Este foi o erro de Miller na quarta volta, quando ele estava andando nas linhas de Bagnaia, tentando defender a posição do italiano e ajudá-lo a levar o máximo de pontos.

"Estava perto de Pecco na Curva 8 naquela volta, então eu não freei com tanta força, não forcei o pneu, e acho que isso pode ter prejudicado a sua temperatura", acrescentou. "Quando cheguei na Curva 15, não tinha esperanças de contornar, iniciei a inclinação e o pneu perdeu a aderência, a moto caiu. Ficou registrado na telemetria”.
 
Trinta minutos depois, a situação se repetiu com Bagnaia, perdeu a frente alguns metros antes.
 
Durante toda a corrida Pecco tinha Márquez logo atrás dele. O espanhol não parecia exatamente confortável acompanhando a Ducati, porém o líder da corrida não sabia disso. Bagnaia queria evitar uma disputa com Márquez na última volta, porque precisava de cada ponto que pudesse conseguir, então com dez voltas para o final começou a acelerar mais, tentando abrir alguma distância.

Na volta 16 quebrou o recorde da pista, mas Márquez o acompanhou. Finalmente, o ritmo implacável de Bagnaia começou a fazer a diferença. Da volta 19 para 22, ele dobrou sua vantagem de três para seis décimos. Sem dúvida estava correndo riscos, dançando no fio de uma navalha, porque é isso que deve ser feito quando existem poucas chances de vencer um campeonato.

Finalmente Márquez decidiu desistir da vitória, porque seu braço já não estava em condições e não podia acompanhar o ritmo do líder. Naquele exato momento Bagnaia exigiu demais de seu pneu dianteiro e caiu.

Bagnaia foi o último a cair na Curva 15 no fim de semana. Durante os três dias, a curva à esquerda complicada fez nada menos que 19 vítimas.
 


Pecco Bagnaia cai a 4 voltas do fim
 
 
Provavelmente nada disso teria acontecido se Bagnaia, Miller e todos os outros tivessem tido dois dias de treino seco para a corrida, então poderiam ter feito todo o trabalho que precisavam na configuração e escolha dos pneus.

Em vez disso, o clima de sexta e sábado foi hostil, frio e molhado, sem uma única seção de treino seco. Pilotos e equipes tiveram que extrapolar o que tinham aprendido na primeira corrida de Misano e no teste de dois dias subsequentes para adequar as máquinas para a prova de domingo.
 
Ironicamente, a chuva parecia um problema muito maior para Quartararo. As condições escorregadias do piso fizeram dos treinos e da qualificação um ambiente ideal para os V4, um pesadelo para os quatro-em-linha.

Os motores V4 equiparam todos os 11 pilotos melhores classificados, com uma única exceção, nos 3 treinos oficiais. Na qualificação todos, exceto um dos 12 melhores, estavam com V4.

Quando não há aderência, as Suzuki e Yamaha com quatro-em-linha não podem usar a velocidade de curva que precisam para fazer o tempo de volta, enquanto as Ducati, Honda, KTM e Aprilia, com V4 mais potentes,  podem  passar pelas curvas e liberar sua potência superior nas retas.

No qualificatório, Quartararo foi o segundo melhor quatro-em-linha em 14º lugar e todos sabem como o YZR-M1tem dificuldades para avançar rapidamente quando em um grupo de pilotos.

O clima auxiliou o vencedor Márquez. Desde que ele voltou de sua ausência de nove meses, em Portimão, todos os fins de semana de corrida têm sido complicados. Dois dias de luta contra sua Honda RC213V em torno de uma pista de corrida durante o treino e a qualificação deixam seu braço e ombro direitos exaustos. Não foi o que aconteceu em Misano, a falta de pista seca era uma vantagem para o espanhol de 28 anos, pois exigia muito menos dele fisicamente.

"Este é o primeiro domingo que eu tive energia", disse ele após sua 59ª vitória na MotoGP. "Acordei e senti que o braço estava lá, senti o poder."

As vitórias anteriores de Márquez em 2021 vieram em circuitos anti-horário (Sachsenring e CotA), com menos curvas para a direita, onde a falta de força no braço direito tem menor desvantagem.

Apesar da sexta-feira e do sábado relativamente fáceis, esta foi uma grande vitória para Márquez, seu primeiro sucesso em um circuito no sentido horário desde o GP do Japão de 2019 em Motegi, há quase dois anos.

Seus rivais, se não estavam totalmente convencidos por suas vitórias anti-horário, certamente estão agora. Quartararo, Bagnaia, e todos os demais pretendentes a vencer o campeonato mundial de MotoGP de 2022, terão que passar por Márquez para chegar lá.
 
Na CotA no início deste mês, ele disse que estava sofrendo em três curvas no traçado do circuito do Texas, enquanto duas semanas antes em Misano estava sofrendo em todas, exceto três curvas. Cinco semanas depois, em Misano, ele estava rodando em ritmo recorde ao longo da corrida, então não há dúvida que na abertura da temporada 2022 no Catar ele estará pelo menos 99% apto.

A saída de Bagnaia não só presenteou Márquez com a liderança, também promoveu seu companheiro de equipe Pol Espargaro, da Repsol-Honda, para o 2º lugar, o melhor resultado da MotoGP do espanhol de 30 anos, em oito anos de tentativas e, mais, o primeiro 1-2 da Honda desde que Cal Crutchlow ficou em segundo lugar atrás de Márquez em Phillip Island em 2019 e o primeiro 1-2 da Repsol-Honda desde Dani Pedrosa terminou em 2º lugar (Márquez 1º) em Aragon em 2017, há mais de quatro anos.
 


1-2 da Repsol-Honda e 1º pódio de Pol Espargaro em 8 anos de MotoGP
 

A fabricante nipônica está voltando ao jogo. Durante os testes de Misano do mês passado, Márquez e Espargaró pilotaram pela primeira vez o RC213V modelo 2022 da Honda. Eles não podem usar a moto este ano, mas algumas ideias podem ser portadas para a RC213V atual.

Não é surpresa que a HRC tenha entrado em marasmo desde o verão passado, porque quando uma equipe perde seu piloto principal, é altamente provável que perca também a sua linha de desenvolvimento.

Aconteceu quando o pentacampeão mundial da Honda, Mick Doohan, se machucou em 1992. Quando Doohan testou pela primeira vez a NSR500 da Honda em 1993, ele disse que a moto estava toda errada e pediu seu motor de 1992, assim como Márquez pediu seu chassi de 2020 logo após seu retorno no início deste ano.

A maior preocupação da Honda tem sido a adaptação ao novo slick traseiro da Michelin, introduzido no início do ano passado. Márquez não colaborou com a equipe na forma como a Honda lutou com a aderência traseira, tanto na saída quanto na entrada da curva. O modelo atual da RC213V já tem mais aderência traseira e isso ajudou a HRC com a moto 2021.

"Embora não possamos usar a moto 2022, temos algumas ideias daquela moto que tentamos nos testes de Misano, então fomos melhores e mais rápidos", acrescentou Márquez.

Há dois anos, Márquez realizou a maior temporada de todos os tempos, 12 vitórias e 6 segundos em 18 corridas e um acidente na 19ª, devido a uma falha técnica, enquanto liderava. Isso, numa época em que as motocicletas nunca foram tão iguais, foi um feito alucinante.

Se conseguir vencer um campeonato, alcançará o maior retorno da Grand Prix Racing, porque nenhum outro piloto voltou a vencer um título depois de nove meses fora da MotoGP.
 


Santi Ernandez e Jenny Anderson acompanham a vitória de Márquez
 

O último piloto no pódio de Misano também merece uma menção.

Correndo em sua casa, o novato e herói local Enea Bastianini conquistou seu primeiro pódio na MotoGP na 1ª corrida de Misano em 2021 e repetiu o 3º lugar no domingo, mais uma vez partindo de uma posição desfavorável no grid.

Em 18º no final da primeira volta, o jovem de 23 anos foi o 12º no meio da prova e 4º com 4 voltas para o final, graças à uma corrida extremamente acidentada com 8 pilotos sinistrados, mais de um terço do grid.

 

Enea Bastianini ultrapassa Fabio Quartararo na disputa pelo pódio


A última vítima de Bastianini foi o novo campeão mundial, que atacou a 3 curvas da linha de chegada, com plena certeza que Quartararo dificilmente ofereceria muita resistência. "Quando vi o Fabio muito perto na última volta, sabia que tinha que ultrapassar o limite", sorriu Bastianini, que mais uma vez fez o impossível em seu modelo 2019 da Ducati.

No próximo ano, o atual campeão da Moto2 deve andar em uma Desmosedici 2021, porém seu empresário está em contato com a direção da Ducati Corse tentando uma máquina de 2022.
 
"Acho que é impossível receber uma moto 2022 no próximo ano", declarou Bastianini. Mas então ele sorriu e acrescentou: "Depois desta corrida vamos verificar novamente com Gigi [Dall'igna, gerente geral da Ducati Corse) e (Davide Tardozzi, o gerente da equipe de fábrica) e fazer a pressão possível.

O brilhante pódio de Bastianini não veio sem custo, na tarde de sábado ele caiu três vezes em menos de uma hora, todas elas em curvas para a esquerda, Curva 15 e Curva 2 no FP4 e Curva 6 no Q1. Deu um bocado de prejuízo porque destruiu 3 motos em oito voltas.

De certa forma é uma reedição de Quartararo em 2019, quando bateu toda a equipe oficial com uma Yamaha ultrapassada e com limitador de giros para preservar os motores. Seria sábio a Ducati ajudar Bastianini como puder no próximo ano.
 


Jack Miller & Pecco Bagnaia – Os dois foram vítimas da Curva 15
Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »