02/10/2021 às 20h58min - Atualizada em 02/10/2021 às 20h06min

Motociclismo é um esporte perigoso, o que pode ser feito?

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Sugestões de pilotos da MotoGP para melhorar a segurança nas classes de acesso, Moto3/SSP300, após as trágicas mortes de Hugo Millan(14), Jason Dupasquier (19) e Dean Berta Vinales(15) este ano.

“Ardil 22” é uma expressão criada por Joseph Heller em seu romance “Catch 22” publicado em 1961, que descreve uma situação paradoxal onde a solução de um problema acaba recriando a situação original. Conjunturas de “ardil-22” podem ser encontradas na definição de “deadlock” utilizada em computação quando dois processos encontram um impasse, paradoxalmente esperando um pelo outro para terminar.


 
Homenagem ao piloto Jason Dupasquier - acidentado no GP da Italia, Moto3, em Mugello


A crescente popularização do motociclismo esportivo, principalmente o mundial de pilotos, está criando um Ardil 22. Maior público implica em mais visibilidade pela mídia, mais retorno para os patrocinadores, maior valorização (leia-se salários) para os pilotos e, por consequência, número crescente de candidatos a participar dos eventos. O supersalário negociado por Jorge Lorenzo quando em 2017 se transferiu para a Ducati e os rendimentos atuais associados aos contratos de Valentino Rossi e Marc Márquez funcionam como um poderoso argumento para atrair pilotos cada vez mais jovens. 

Motociclismo é sabidamente um esporte perigoso, porém após três mortes de adolescentes em quatro meses, profissionais da MotoGP concordam que medidas devem ser tomadas para lidar com a série de lesões fatais para os pilotos da Moto3/SSP300 que caem na frente de outros competidores.

“É mais do que terrível, é atroz o que acontece este ano com tantas vidas jovens sendo perdidas”, disse Jack Miller, piloto oficial da Ducati. Comentando sobre o Dean Berta Vinales avaliou que “o pobre garoto não teve vida plena, e isso é terrível”. Acrescentou que “um dos jovens australianos que reside em Andorra e foi envolvido no acidente, Harry Khouri, está arrasado. Com toda a certeza a ocorrência destas tragédias afeta essas crianças”.  O piloto da Ducati entende que “que não se deve impedir jovens de participar de competições porque é isso que eles amam, sabem dos riscos envolvidos e não há muito que possa ser feito, exceto tentar tornar a corrida mais segura”. Miller acrescentou: “Tem que haver uma grande evolução no tocante a segurança. Este ano tem sido especialmente ruim, é inaceitável perder 3 pilotos no espaço de poucos meses. Acho que falo em nome de todos quando digo que estou ficando doente e cansado de participar de minutos de silêncio para crianças tão jovens. É tão ruim que não pode continuar, com certeza. Não pode, de jeito nenhum. Algo precisa ser feito.”





Aleix Espargaro, companheiro de equipe do piloto da Aprilia Maverick Vinales, que retirou do GP de Austin após a morte de seu primo, disse: “Precisamos mudar alguma coisa, porque o maior problema não são as três mortes que tivemos nos últimos seis meses, que por si só já é uma tragédia. O maior problema é a tendência que está sinalizando, preocupa porque existem muitas competições programadas para as classes menores nas próximas semanas em toda a Europa. Com certeza acredito que além de aumentar a idade mínima, existem mais coisas que podem ser feitas. Espero que a Dorna e todos os outros pilotos da MotoGP possam fazer um brainstorming e sugerir soluções. Durante os últimos dias, escrevi muitas das ideias que me vieram à mente e quero discutir com Dorna porque tenho certeza que eles também estão trabalhando duro nisso. Compilei uma grande lista que espero possa ajudá-los”.



Aleix Espargaro - Piloto da Aprilia


Além de elevar a idade mínima, estas são algumas medidas sugeridas por Aleix Espargaro, Jack Miller e outros pilotos de MotoGP reunidos em Austin (CotA) para a etapa do GP dos EUA :

Talvez a preocupação mais comum é que colocar jovens pilotos em circuitos do tamanho de grandes prêmios com máquinas com potência reduzida e fáceis de pilotar resulta em grande número de pilotos disputando o turbilhão gerado pelo vácuo. “Os equipamentos não tem muita potência nas classes menores e a estabilidade é muito alta. Então não é complicado ser rápido com esse tipo de moto e é muito difícil fazer a diferença”, disse Aleix Espargaro. “Podemos ver, por exemplo, na Moto3. Pedro Acosta é muito mais talentoso que os outros pilotos, mas ele nunca pode se destacar nas corridas. Este é um exemplo claro”.



Adeus a Hugo Millan, de apenas 14 anos, falecido em uma etapa da Talent Cup em Aragon


“O talento desses jovens é incrível e eles atingem o alto nível dessas motos pequenas e motores com pouca potência muito rapidamente”, disse o seu irmão mais novo Pol Espargaro. “Então o problema é que todas essas crianças chegam ao nível mais alto das motos muito rápido e a diferença de performance é pequena, então as vantagens de andar no vácuo são significativas, por isso andam agrupados. Com certeza os problemas estão centrados em potência da moto, pouca idade e baixa experiência dos pilotos. Então, se queremos melhorar a situação, uma coisa é talvez aumentar a idade e elevar o nível de cada bicicleta. As motos são muito lentas e muito “ruins”.  Quando existia a 125cc (substituída pela Moto3 em 2012) as motos eram bastante agressivas e fortes e um piloto sem ritmo não conseguia seguir um com meio segundo mais rápido porque a chance de queda era grande. Talvez aumentar a potência seja uma solução, mas precisa ser melhor analisado.“

“Os três trágicos acidentes deste ano aconteceram quando as motos andavam juntas, talvez a solução seja equipamentos com mais potência” concorda Alex Rins, da Suzuki.

Aleix Espargaro acredita que outra solução seria atrasar a mudança para circuitos onde são realizadas provas da MotoGP. “Minimotos em pistas de kart são uma excelente escola. Talvez obrigar crianças a ficar mais tempo em pistas de kart onde a velocidade é menor e pilotos podem ter um acidente sem grandes consequências”, disse ele. “Poderiam adiar de 1 a 2 anos a chegada a uma pista oficial, por exemplo. No passado a popularidade das minimotos era muito alta, atualmente todo mundo quer correr nas classes de acesso da MotoGP ou Supersport 300 em pistas homologadas.  “Talvez essa seja uma solução também, correr mais em pistas pequenas como o kart, porque acho que lá as crianças podem aprender o mesmo ou até mais.

“O problema é que uma criança pode participar de uma competição organizada em uma pista oficial como Barcelona com uma Moto4 (quadricículo), que é quase uma Moto3, a partir de 12 anos.”

No caso do Supersport 300, Miller sente que a falta de desempenho em relação ao tamanho da pista é agravada pelo peso das motos.

“Na Supersport, essas motos não são muito rápidas e há muita variedade, essas motos não podem ser consideradas leves por qualquer ponto de vista”, disse o australiano. “Com certeza é muito peso.”

A redução do tamanho do grid foi levantada por vários pilotos da MotoGP.  “Há muitos pilotos no grid de largada e quando algo infelizmente dá errado, a chance de um acidente acontecer é duplicada ou triplicada, são muitos pilotos buscando se destacar”, disse Miller.

No entanto, Pol Espargaro ressaltou que os piores acidentes não são exclusividade do excesso de pilotos: “Existem ocorrências trágicas que não podem ser atribuídas ao excesso de pilotos, Dupasquier estava na qualificação com apenas três pilotos atrás”.

Aleix Espargaro acredita que o motociclismo precisa incorporar parte da tecnologia avançada que está sendo testada para veículos rodoviários, como detecção automática de acidentes e até mesmo cortar automaticamente a potência das motos perto do local de um acidente. “Uma variedade de coisas diferentes pode ser feita para minimizar o evitar o contato entre equipamentos com uso da tecnologia,

Existe recursos disponíveis que sequer estão sendo utilizados. “Por exemplo, airbags não são obrigatórios, no Campeonato Mundial Júnior”, encarece muito o custo das equipes. 



Marc Márquez & Pol Espargaro - pilotos da equipe oficial da Honda


Marc Marquez e Pol Espargaro, companheiros de equipe da Repsol Honda, destacaram que o número crescente de classes juniores significa que estatisticamente mais jovens estão sujeitos a sofrer acidentes graves. “Estão (acidentes) acontecendo como mais frequência nos últimos anos porque há mais crianças correndo”, disse Espargaro. “Eu me lembro quando comecei a correr era apenas o campeonato espanhol e o campeonato mundial de MotoGP. “Não havia muitas categorias de jovens correndo. Agora, cada vez mais, há muitas competições diferentes, que também aumenta a probabilidade de que as coisas ruins possam acontecer.”

Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »