29/09/2021 às 22h12min - Atualizada em 29/09/2021 às 21h30min

Fatores de risco

A exposição a riscos de acidentes pode surpreender.

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Pessoas em geral, incluindo pilotos de motovelocidade, são muito ruins em calcular probabilidades negativas. Passam muito tempo confiando em suas próprias habilidades, preocupadas com eventos menos comuns, embora mais traumatizantes, assaltos, impactos de meteoros, balas perdidas, quando deveriam estar preocupadas com, e prevenidas contra, riscos mais triviais como AVCs, ataques cardíacos e diabetes que têm muito maior chance de encurtar suas vidas. Muitos dos que tem medo de morrer em um desastre aéreo não se preocupam em dirigir falando ao celular.
 
Pilotos de motovelocidade são particularmente vulneráveis, os esforços dos organizadores em privilegiar a competitividade equalizando os recursos dos equipamentos faz os competidores andarem muito juntos, potencializando as oportunidades de acidentes.
 


 
O motociclismo esportivo pode ser extremamente cruel em algumas ocasiões, como ilustra o acidente que causou óbito de Dean Vinales. Dean tinha 15 anos, depois de competir algumas corridas da Talent Cup em 2020, estava disputando a sua primeira temporada completa na SuperSport 300, fez sua estreia este ano na categoria pilotando a uma Yamaha para a Vinales Racing Team, equipe chefiada por Angel Vinales, pai de Maverick Vinales. Faltando 3 voltas para o encerramento da prova, o jovem piloto espanhol saiu da pista na curva 1 devido a um contato com outro competidor, perdendo o controle e caiu, sendo atingido por outros corredores. O pronto atendimento médico e a transferência para o hospital foram inúteis, o óbito foi confirmado poucas horas depois devido a um duplo trauma, cabeça e tórax.
 
Acidentes são, por definição, eventos indesejados, inesperados e não intencionais, que podem causar danos físicos e materiais. Provas de motovelocidade contemplam uma miríade de possibilidades de acidentes, que incluem colisões, quedas e atropelamentos.


 
Red Bull Ring 2020
 
Alguns são espetaculares e impressionam por não causar danos significativos aos pilotos, como o ocorrido entre Franco Morbidelli e Johann Zarco no GP da Áustria em Red Bull Ring em 2020. Na ocasião a Tech3 Ducati de Zarco cortou a frente da Petronas Yamaha de Morbidelli e causou uma colisão. Ambas as motos saíram em alta velocidade pela área de escape. O equipamento de Zarco bateu em um airfence e foi catapultado cruzando a pista enquanto a prova prosseguia, passou feito um bólido a centímetros de distância das duas Yamaha de Maverick Vinales e Valentino Rossi. Por detalhes o acidente não causou maiores danos.
 


Acidente de Shoya Tomizawa
 
Shoya Tomizawa faleceu com 19 anos em 2010 durante a disputa do GP de San Marino na Moto2. Durante a 12ª volta perdeu a aderência sobre a zebra e caiu, foi atropelado pelas motos dos pilotos Alex de Angelis e Scott Redding.
 
O italiano Marco Simoncelli, conhecido como “Super Sic", morreu em outubro de 2011 durante o GP da Malásia no Circuito Internacional de Sepang.  Durante a segunda volta, sua a moto perdeu tração na curva 11 e começou a deslizar para o cascalho, os pneus recuperaram o grip e o equipamento voltou para a pista, no caminho de Colin Edwards e Valentino Rossi. Simoncelli foi atingido na parte inferior do corpo por Edwards e na cabeça por seu conterrâneo Rossi. O piloto, de 26 anos, teve o óbito anunciado ainda na pista.



Marco Simoncelli em Sepang

O acidente com Luis Salom aconteceu durante o 2º treino livre da Moto2 para o GP disputado no circuito da Catalunha em Barcelona. O piloto perdeu o controle na curva Europcar, uma das mais rápidas do traçado, a moto foi em direção à barreira de pneus e, após atingi-la, caiu sobre o piloto. O espanhol de Palma de Maiorca de 24 anos de idade foi a óbito.
 
O suíço Jason Dupasquier perdeu o controle de sua moto na saída da curva Arrabbiata 2 no final do treino classificatório para o GP da Itália da Moto3, em Mugello.Foi atropelado pelo japonês Ayumu Sasaki. Depois de ser atendido na pista com procedimentos de estabilização, foi encaminhado para o Hospital Carregi, onde não resistiu aos ferimentos. Faleceu aos 19 anos de idade. 
 
Em julho deste ano, no campeonato Espanhol de Velocidade, Hugo Millan de apenas 14 anos morreu em decorrência de um acidente na etapa de Aragon da Talent Cup Europeia. Millán caiu com 13 voltas para o fim da primeira corrida da Talent Cup. A queda foi forte, mas o impacto maior aconteceu na sequência. O polonês Milan Leon Pawelec vinha atrás, não conseguiu desviar e acabou atropelando o espanhol. Hugo Millán chegou a ser levado para o hospital com vida, mas não resistiu.



Hugo Millan em Aragon 2021
 
O esporte motorizado é uma atividade de alto risco. Os organizadores desenvolvem um trabalho contínuo para melhorar a segurança dos circuitos e competidores, mas não existe proteção que possa garantir a integridade física de pilotos envolvidos em acidentes resultantes de disputas acirradas. Tomizawa, Simoncelli, Dupasquier, Millan e Vinales perderam suas vidas em circunstâncias semelhantes. Depois de quedas que normalmente não teriam maiores consequências, foram atropelados por pilotos que corriam atrás.
 
Quando acontecem incidentes em que possa haver a contribuição do traçado da pista as providências são imediatas. O circuito de Suzuka cujas características podem ter colaborado com o evento que vitimou Daijoro Kato (26 anos) em 2003, foi considerado inseguro para motovelocidade e expurgado do calendário. A curva cujo desenho colaborou para a morte de Luis Salom já não existe.
 
Para preparar melhor as novas gerações de pilotos e atender as exigências de motores menos poluentes, as características das máquinas da Moto2 e Moto3 foram redimensionadas. Na Moto2 os motores 250cc de 2 tempos foram substituídos por 4 tempos com 765cc, a Moto3 trocou os 125cc 2T por monocilíndricos de 250cc 4 tempos.
 
Desde o acidente que vitimou Daijoro Kato em 2003 até o início desta temporada a MotoGP em todas as classes contabilizou 5 acidentes fatais, uma média 1 a cada 3,6 temporadas. Houve um hiato grande entre os óbitos de Daijiro Kato e Shoya Tomizawa em 2010, 16 anos, porém este ano está sendo particularmente trágico.
 
Três mortes de Moto3/WorldSSP300 em circunstâncias idênticas em menos de quatro meses requerem uma análise mais profunda. O piloto do GP de Moto3 Dupasquier morreu em maio, o da Moto3 ETC Millan se acidentou em julho e o da WorldSSP300 Vinales em setembro.
 
Esta taxa de mortalidade atual é inaceitável depois de décadas da IRTA, Dorna e fabricantes de equipamentos investirem para aumentar a segurança de circuitos e pilotos. O problema é que para aumentar a competitividade dos equipamentos e oferecer um espetáculo mais justos, as motos são muito semelhantes e, nas classes menores, fáceis de pilotar. Todos têm essencialmente o mesmo desempenho do motor e os equipamentos são basicamente clones uns dos outros.
 
Não é coincidência que Vinales, Millan e Dupasquier tenham perdido a vida em acidentes muito semelhantes, não por erros próprios, mas pelo acaso de estarem na hora errada no local errado. Os 3 foram a óbito em eventos da organizados pela Dorna; MotoGP, mundial de Superbike e a chamada Road to MotoGP, então a empresa precisa encontrar uma solução urgente tralhando em conjunto com a FIM, parceiros e patrocinadores.
 
 
A MotoGP é um misto de competição e espetáculo, as pessoas não frequentam autódromos para testemunhar “incidentes lamentáveis”.
 



 
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