05/09/2021 às 17h03min - Atualizada em 05/09/2021 às 15h33min

W Series

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br

Acidente na curva Eau Rouge durante a qualificação no GP da Bélgica (2021)


A Eau Rouge é a curva mais icônica, traiçoeira e complicada das provas de velocidade. Suas peculiaridades são associadas ao clima instável da região de colinas montanhosas de Ardenas, onde se situa o circuito de Spa-Francorchamps na Bélgica. Eau Rouge tem características diferenciadas, é uma curva em “S” tomada em alta velocidade, antecedida por um longo trecho em descida.

Uma das poucas curvas do atual calendário da Fórmula 1 em que os pilotos tem que administrar os efeitos da força G vertical e não lateral. No bizarro GP realizado no circuito em 2021 houve diversos acidentes muito em função da imprevisibilidade do clima. O mais espalhafatoso aconteceu durante a qualificação da W Series, um incidente de grandes proporções que envolveu nada menos de seis carros.

O sinistro aconteceu quando Sarah Moore perdeu o controle de seu carro saindo da curva rápida Eau Rouge e bateu na barreira que limita a área de escape até a Raidillon. Moore foi rapidamente seguida por Abbie Eaton, Beitske Visser e Ayla  Agren antes de Belen Garcia entrar de frente nos carros descontrolados em uma a uma velocidade que se aproximava de 230 km/h. O impacto jogou Visser para cima na parede de pneus, depois ela ainda sofreu uma colisão na lateral pelo carro de Fabienne Wohlwend. Seu veículo foi arremessado para o meio da pista. Visser rastejou do carro antes de cair e rolar no asfalto. Foi imediatamente assistida e recolhida para o centro médico, em estado de choque. Em declarações posteriores ao evento a piloto holandesa declarou que “Todas aceitam os riscos inerentes ao esporte a motor. Fui treinada para lidar com isso e tenho total acesso aos protocolos de gerenciamento de crises. Esses documentos, que conheço de cor, não ensinam como lidar com um acidente desta magnitude e com o impacto emocional que resulta dele".

O objetivo da W Series é validar mulheres em um contexto de corrida. Quatro das envolvidas disputaram normalmente a corrida no dia seguinte. Visser e Agren que foram hospitalizadas e teriam competido se não tivessem sido proibidas pelos médicos, demonstrando a capacidade das mulheres de lidar com carros velozes nas condições mais exigentes.

Para muitos o que aconteceu pode ser um ponto de inflexão sobre a participação das mulheres no esporte a motor. Elas assumem os mesmos riscos que os pilotos de F1, F2 e F3. Quando todas aquelas pilotos voltaram para os boxes, tudo o que queriam era descobrir uma maneira de consertar os carros para que elas pudessem competir no dia seguinte. Todas menos Ayla e Beitske fizeram exatamente isso. Pessoas normais dificilmente teriam essa reação.


W SERIES
A W Series é um campeonato com acesso facilitado (free-to-enter), lançado em outubro de 2018, que oferece oportunidades iguais para as mulheres ao eliminar as barreiras financeiras que historicamente as impediram de fazer carreira no automobilismo de alto desempenho. 



 

As pilotos da W Series são selecionadas exclusivamente por sua habilidade, os carros são mecanicamente idênticos, o que significa que as corridas e campeonatos da serão vencidos pelas mais talentosas, sem a influência de altos investimentos por apoiadores.

Quanto mais talentos femininos de alto desempenho puder identificar, a categoria acredita que inspirará cada vez mais meninas a andar de kart, trazendo mais mulheres para os grids do automobilismo. Assim como no Brasil a Fórmula 1 virou paixão nacional ao aparecerem na mídia talentos como Emerson Fittipaldi, Ayrton Senna e Nélson Piquet, a missão da W Series é a divulgar os feitos de mulheres ao volante, criando um ambiente em que o sucesso depende exclusivamente da dedicação e força de vontade. 

De certa forma, o hábito de acompanhar a W Series ficou prejudicado em Pindorama porque a rede do Jardim Botânico sentiu a perda da Fórmula 1 e comprou a exclusividade para as transmissões ao vivo na TV pelos canais da SporTV, que não cultivam a fidelidade dos espectadores. Além do reduzido número de provas (8 na temporada 2021), a cobertura ficou perdida na programação. Quando o evento é uma prova de Fórmula (1, 2 & 3) a Rede Bandeirantes dá as cartas e joga de mão, na motovelocidade e cobertura das provas da Nascar o endereço procurado é um dos canais da Disney (Fox & ESPN). A W Séries ficou escondida na SporTV, embora a conte  com o atrativo da presença de uma brasileira, Bruna Tomaselli, cujas performances ainda não são entusiasmantes. 


 
Bruna Tomaselli – representante tupiniquim na W Series


Em 2021 o calendário da W Series coincide com a Fórmula 1 em oito finais de semana de Grandes Prêmios.


 
 
Carros na pista e o conjunto de pilotos da W Series
 


O carro da W Series


O carro utilizado pela W Series é o Tatuus T-318, homologado pela FIA para a F3. Tem um motor Alfa Romeo e utiliza pneus Hankook. Este é um equipamento com especificação diferente do FIA F3 que participa como categoria de acesso à F1, como costuma acontecer em competições regionais.

Em sua outra série, o T-318 corre com motor diferente e pneus diferentes, mas a concepção é o mesmo chassi básico. Todos os carros são produzidos pela Tatuus na Itália. 

Por estar sujeito a homologação, o carro tem que atender aos mesmos padrões de segurança que todos os monopostos FIA, obedece a critérios de projeto e passa por testes de colisão para garantir a máxima proteção para as pilotos. O carro é equipado com um HALO e estruturas de colisão e estofamento do cockpit, além da certificação de componentes de segurança.

O peso mínimo é 590kg sem a piloto, o motor tem a potência de 270cv (utilizando um preciosismo técnico, 1 CV = 0,98632 HP). O principal downforce é produzido pela aerodinâmica da carroceria e o T-318 permite um ótimo desempenho em pistas de corrida.


Pilotos que competem no campeonato de 2021
O grid de participantes inscritas para 2021 inclui pilotos de 13 países, a maioria das pilotos (6) é britânica, 3 são espanholas e existem representantes da Noruega, Holanda, Australia, Finlândia, Liechtenstein, Polonia, Rússia, Japão, EUA, Itália e Brasil. As idades são variadas, a mais velha tem 32 anos e as mais jovens (2) apenas 18.
 

 
Abbi Pulling
Inglesa, 18, campeã britânica de kart e com aspirações de fazer carreira na Fórmula 1. Competiu na Fórmula 4 do Reino Unido em 2020.

 


Abbie Eaton
 Britânica, 29 anos começou sua carreira no Junior Saloon Car Trophy, terminando entre os três primeiros. Em seu primeiro ano de troféu sênior de carros de produção (stock car) venceu 15 das 18 corridas e foi campeã da SuperCopa MX5. Mudou para a British GT, correndo um com Maserati GT4 e ficou em segundo lugar no Campeonato Pro-Am. Competiu no Blancpain Endurance GT3, onde venceu sua classe.

 
 
Alice Powell
Inglesa, 28 anos, em 2009 aos 16 anos ela competiu no Campeonato Britânico de Fórmula Renault, tornando-se a mais jovem piloto feminina em qualquer disputa da categoria. No ano seguinte, ela se tornou a primeira mulher a vencer um Campeonato de Fórmula Renault, e em 2012 a primeira mulher a marcar pontos na GP3 Series.
 

 
Ayla Agren
Norueguesa, 28, mudou para os EUA em 2012 onde foi aceita na Skip Barber Racing School. Em 2014, venceu a Fórmula Ford-spec F1600. Depois de vários sucessos na F1600, ela se mudou para Road Indy, onde completou uma temporada completa, antes de ser forçada a parar por falta de financiamento. Ayla trabalha como observadora oficial para a Indy 500.

  
 
Beitske Wisser
Holandesa, 26, ganhou um kart em seu quinto aniversário e vários prêmios da FIA durante uma brilhante carreira internacional de kart que começou em 2007. Fez sua estreia no ADAC Formel Masters cinco anos depois e se juntou ao programa Red Bull Junior em 2013, competindo contra vários pilotos atuais da F-1 na Fórmula Renault 3.5 Series no ano seguinte. Foi a primeira mulher a participar do programa Junior da BMW Motorsport três anos depois, vencendo várias corridas GT4 para a marca alemã.

 
 
Belen Garcia
Espanhola, 28, devido à falta de orçamento sua carreira de corrida nas  pistas começou relativamente tarde, competiu no kart aos 15 anos e teve sua primeira oportunidade de correr na Fórmula 4 espanhola aos 20 anos, onde venceu uma das provas da temporada. Foi a primeira mulher a vencer uma corrida oficial da FIA em um monoposto.


 
Bruna Tomaselli
Brasileira, 23, realizou a sua primeira corrida no kart aos sete anos. Apesar de ser a única garota na pista, e correr contra garotos muito mais experientes, ficou em terceiro lugar. Sua primeira prova internacional foi em Las Vegas 2011, que ela novamente terminou em terceiro lugar competindo com mais de 80 pilotos. Entrou no campeonato brasileiro de Fórmula Junior em 2013 e continuou no circuito internacional de kart, conquistando um pódio em sua primeira temporada e uma vitória em 2014. Migrou para a Fórmula 4 sul-americana em 2015. Depois de uma mudança para os EUA em 2017, competiu no Road Indy, Campeonato Nacional de F2000 dos EUA, onde em 2019 conseguiu um top-5 na prova de Mid-Ohio. 
 
 

Caitlin Wood
Australiana, 24, é a primeira mulher de sua nacionalidade a competir com sucesso na Europa em tempo integral, em corridas de circuitos. Começou sua carreira no automobilismo profissional em 2013 em um campeonato de Fórmula Ford, passando a competir no Australian Formula Ford Championship, GT4 European Series, Blancpain Sprint e Endurance Series, bem como na European Lamborghini Super Trofeo Series.
 
 


Emma Kimilainen
Finlandesa, 32, competiu pela primeira vez com 5 anos de idade. Mudou do kart para monopostos aos 15 e competiu no Campeonato de Fórmula Ford do Norte europeu em 2005. Três anos depois, ela se juntou à Audi como piloto de fábrica e competiu na Fórmula Masters Series em 2008. No ano seguinte financiou seu próprio caminho para a Fórmula Palmer Audi, terminando em quinto lugar após quatro pódios. Depois de uma pausa, em 2014 voltou a correr no Campeonato Escandinavo de Carros de Turismo. Ela terminou em quinto lugar no W Series Championship 2019, vencendo a corrida em Assen. 

 

Fabienne Wohlwend
Nascida no Liechtenstein, 23, iniciou em um kart e sua família comprou uma van e viajou para diferentes pistas em Liechtenstein e na Suíça, antes de Fabienne progredir para a corrida de carros em Aragon e no Campeonato Italiano de F4 de 2016. Um ano depois, ela estava competindo na Audi Sport TT Cup e no Ferrari Challenge European Championship.

 

Gosia Rdest
Polonesa, 28, aos 16 anos já corria profissionalmente, vencendo o Campeonato Polonês de Kart apenas dois anos depois. Venceu as 24 Horas de Dubai em 2018. Competiu na British Formula 4, VW Scirocco R-Cup, Audi Sport TT Cup, ADAC TCR germânica e GT4 European Series.


 
Irina Sidorkova
Russa, 18, é a mais jovem piloto a competir na W Series. Aos sete anos fez sua estréia em competições na italiana 50cc Easykart, na qual ficou em quinto lugar entre 80 competidores. Ficou em terceiro lugar no Campeonato Russo Rotax em 2015, quando tinha apenas 11 anos. Realizou a transição de karts para carros aos 12 anos, e aos 13 terminou em segundo lugar no Campeonato Júnior do Circuito Russo, em uma série de carros de turismo competindo com um Volkswagen Polo. Em 2017 venceu o Ice Circuit Racing Cup em São Petersburgo e foi medalhista de prata do Campeonato Nacional Júnior da Russian Circuit Racing, no ano seguinte venceu o RCRS. Como parte do atual programa da equipe SMP Racing, ela participou em provas da FIA de Fórmula 4 na Espanha com o DriveX Team no ano passado e conseguiu o pódio duas vezes na F4 russa.

 


Jamie Chadwick
Britânica, 24, foi a mais jovem e primeira mulher a vencer um Campeonato Britânico de GT, depois se tornou a primeira vencedora de uma corrida de Fórmula 3 britânica BRDC e do MR Challenge Championship. Duas vitórias em corridas e três outros pódios foram suficientes para Jamie conquistar o título inaugural da W Series em 2019, quando também foi contratada como piloto de desenvolvimento da equipe Williams F1. 


 
Jessica Hawkins
Inglesa, 26, com apenas 12 anos, Jessica venceu o campeonato britânico de kart e em 2008, também venceu o Honda Cadete British Open Championship. Alcançou um pódio na Copa Michelin Clio de 2014 e foi vice-campeã do Mini Challenge em 2017. Jessica atuou como dublê profissional nos filmes Velozes e Furiosos e em No Time to Die de James Bond, 


 
Marta Garcia
Espanhola, 21, aos seis anos de idade venceu o Troféu CIK-FIA de Kart e o Trofeo delle Industria em 2015, sendo esta última a corrida de kart mais antiga do mundo, com vencedores anteriores incluindo os campeões mundiais de F-1 Lewis Hamilton e Sebastian Vettel. Participou de teste de Prema F4 organizado pela Ferrari Driver Academy. Antes de sua estreia na F4 em 2016, ela subiu para o kart sênior e terminou em quarto lugar no Campeonato Europeu CIK-FIA. A vitória em Norisring e o pódio em Hockenheim viram a ex-piloto da Renault Sport Academy terminar em quarto lugar no W Series Championship 2019, e ela foi vice-campeã da W Series Sports League em 2020. 
 

 
Miki Koyama
Japonesa, 23, competiu no Campeonato Japonês de F4 da FIA. Ela também ganhou o campeonato feminino da Copa Kyojo em três anos seguidos. Em 2018, ela venceu a convidada e futura companheira de equipe da W Series, Beitske Visser. Antes da W Series, Miki nunca havia competido na Europa, mas realizou performances sólidas, incluindo a volta mais rápida da corrida em Hockenheim e excelentes participações nos treinos em Misano.


 
Nerea Marti
Espanhola, 19, seu pai construiu uma pista de kart privada quando ela tinha nove anos. Em 2017, ela quebrou recordes ao se tornar a primeira piloto a conquistar o título no Campeonato de Karting de la Comunidad de Valencia. Em 2018, conquistou o campeonato valenciano pela segunda vez e conquistou o segundo lugar no pódio da Série Rotax España. Em 2019, com o apoio dos especialistas em kart Praga Motorsport, ela deu o passo para a Fórmula Carros, competindo com a Fórmula de Campeones no Campeonato Espanhol de F4.


 
Sabré Cook
Norteamericana, 27, começou a andar de kart aos oito anos e venceu seu primeiro Campeonato Mundial em um kart júnior aos 13 anos. Apenas quatro anos depois, foi a primeira mulher a vencer o Campeonato Nacional Skusa Pro Tour.



Sarah Moore
Inglesa, 27, começou a competir a partir dos oito anos de idade. Sarah participou do Ginetta Junior Championship em 2007 e em 2009 conquistou o título, tendo conquistado cinco vitórias e marcado dezesseis pontos a mais que o vice-campeão. Ela também se tornou a primeira piloto feminina a vencer uma corrida em uma série que fazia parte do pacote TOCA, a primeira vitória de uma série de gênero misto no Reino Unido e foi premiada com o status BRDC Rising Star. Em 2011 avançou para a nova série do Campeonato InterSteps e correu em várias outras séries nos anos seguintes. Em 2019, Sarah combinou suas corridas na W Series com a série Ginetta G50.
Militante LGBTQ+ pretende ajudar a comunidade com sua participação no esporte.


 
Vicky Piria
Italiana, 27, começou a andar de kart em 2003, competindo principalmente na Itália e progredindo das categorias juniores para a categoria KF3 em 2008. Ela também correu na Fórmula Abarth por dois anos e foi pioneira em competir na GP3 pela equipe Trident. Largou em 16 corridas de GP3 em 2012, depois competiu na Euro 3, terminando em 4º lugar em Jerez e em Le Castellet. Após uma pausa, realizou seu retorno às corridas na W Series em 2019 como a única piloto italiana no Campeonato.

 
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