03/05/2021 às 18h27min - Atualizada em 03/05/2021 às 18h07min

Postura dos pilotos

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br

Conta a lenda que as primeiras reclamações de atletas em competições de velocidade sobre rodas de seus equipamentos são muito antigas. Nas corridas de bigas do tempo de Ben Hur, mais de 2000 anos atrás, já haviam justificativas como cavalos mancos, gordos, velhos ou rodas defeituosas, sempre apontados como culpados por maus resultados. 



Corrida de bigas

Nos esportes motorizados como a MotoGP as desculpas são recorrentes, ninguém perde porque os adversários adotam as melhores estratégias ou são mais competentes. Existe um sem número de desculpas que podem ser citadas, potência insuficiente do motor, falta de aceleração, mapeamento de software inadequado, dificuldades de aquecimento de pneus, falta de aderência da pista ou moto desequilibrada. 

Na cultura árabe existe um ensinamento que “Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha" -  a versão tupiniquim é mais realista, o complemento da condição é que o profeta desiste da temporada na serra. Este ensinamento pode ser portado para a MotoGP. Existem os que desenvolvem uma técnica de pilotagem e necessitam que o protótipo seja adequado, o exemplo de Jorge Lorenzo é típico, entre 2010 e 2016 ele e a sua Yamaha M1 tinham uma relação quase simbiótica e trabalhavam muito bem juntos. Quando trocou de equipamento, Lorenzo enfrentou dificuldades, sofreu no 1º ano na Ducati e fracassou na Honda. 

Há os que preferem aceitar as características próprias do equipamento disponível e adotam um estilo de pilotagem de modo a obter o melhor resultado possível, Marc Márquez e Franco Morbidelli podem ser incluídos neste grupo. Franco Morbidelli é o único piloto Yamaha que utiliza um modelo defasado, em 2019 era uma M1 2018 e este ano herdou uma moto utilizada pela equipe oficial em 2020. Na última temporada foi o piloto Yamaha melhor classificado e utilizou nas últimas provas motores que excediam em muito a sua vida útil do projeto. Um propulsor da YZR-M1 é especificado para rodar a plena carga por volta de 800 milhas, em função da pandemia o número de motores disponível para cada piloto em 2020 foi limitado a 5, graças ao erro da Yamaha em relação às válvulas e ao acidente na Áustria o piloto da Sepang Petronas disputou as 10 últimas provas dispondo de apenas 2 motores. Em Valência, Franco alinhou para a largada com uma unidade de potência que já havia rodado em testes e competições 1.600 milhas, o dobro do limite projetado. Ninguém sabe ao certo, mas é provável que ele tenha vencido a prova com o motor com maior milhagem percorrida desde que a categoria mudou para 4 tempos em 2002. Morbidelli com certeza já enfrentou problemas mecânicos, porém nunca procurou a mídia para justificar seus fracassos culpando o equipamento. Ele entende que o protótipo que pilota é o melhor disponível e procura adequar-se para conseguir o máximo desempenho possível.

 

Franco Morbidelli  - Ex-aluno da Academia VR46


Marc Márquez pilota um protótipo RC213V, reputado por 10 entre 10 pilotos como um equipamento arisco, de condução complicada. Com um motor V4, não tem a agilidade dos 4 em linha em trechos sinuosos. Para compensar esta deficiência, o piloto espanhol emprega uma técnica eficiente e com riscos calculados, provoca o deslizamento da roda dianteira para fazer o tempo nas entradas de curvas e poder sair com maior potência. Na corrida em que se acidentou em Jerez (2020), progrediu da 17ª para a 3ª posição com uma performance excepcional girando meio segundo por volta melhor que os líderes. Desde 2013 quando foi promovido para a equipe oficial da Honda até os dias atuais nunca usou a mídia para pressionar o fabricante e exigir melhor desempenho do equipamento. Certamente não deve ter só elogios para os engenheiros, porém considera que estes assuntos devem ser tratados intramuros.  

A autoridade conferida por sua história a Valentino Rossi lhe permite atribuir sus insatisfação ao protótipo que utiliza. Em 2019 foi muito enfático ao dizer que a fábrica da Yamaha no Japão devia corrigir a M1, a divisão europeia já havia feito tudo o que podia. É uma postura estranha, a última vitória de Rossi foi em 2017 e desde então as Yamaha continuam vencendo provas com Quartararo, Vinales e Morbidelli, inclusive em 2020 venceu 7 das 14 provas da temporada. O francês Fabio Quartararo depois de um início perfeito na temporada de 2020, quando chegou a comentar que, depois de confirmado o afastamento de Márquez, o seu maior adversário para o título era a Covid 19, naufragou durante a competição e não hesitou em apontar a reponsabilidade para o equipamento. Estranho, seu colega de equipe Morbidelli com uma máquina defasada e conseguiu na segunda metade da temporada seus melhores resultados, que resultaram no vice-campeonato, Quartararo ficou em 8º. Em 2020 na disputa interna das Yamaha, até então defendendo a equipe oficial, Valentino Rossi (15º) foi o pior classificado.

Andrea Dovizioso entrou em rota de colisão com a direção técnica da Ducati no ano passado ao tornar públicas as suas críticas à linha de desenvolvimento do protótipo. Gigi Dall’Igna privilegia a potência, velocidade final e aerodinâmica, enquanto o piloto solicitava maior maneabilidade, melhor comportamento em curvas. Como resultado o contrato do italiano não foi renovado e a Ducati perdeu a maior referência técnica que teve depois de Casey Stoner.

Quando a HRC renovou o com Marc Márquez por um período de 4 anos algumas pessoas estranharam, um prazo muito longo e inédito na categoria. O acidente de Jerez no início de 2020 que tirou o piloto da temporada de certo modo deu razão aos críticos, a aposta do fabricante nipônico era de alto risco. Os resultados obtidos pelos equipamentos Honda em 2020 e no início de 2021 entretanto absolvem e justificam a atitude da empresa. Após a brilhante campanha de 2019, Márquez conquistou praticamente sozinho a tríplice coroa para a Honda, os mundiais de pilotos, equipes e fabricantes. Até a 2ª prova deste ano, coincidindo com o seu afastamento os resultados desapareceram. Nas duas primeiras etapas da temporada 2021 os resultados são pífios. A Honda continua sendo uma potência e é a maior vencedora da motovelocidade mundial, entretanto é dependente de seu melhor piloto, que está atuando com limitações físicas. A equipe satélite, a LCR, não conseguiu marcar um único ponto nas duas etapas iniciais, e 4º lugar da máquina de Takaaki Nakagami na última prova é o melhor resultado da temporada. O fabricante na classificação geral não comparece entre os top ten. Pol Espargaro, que foi contratado para compor a equipe com Márquez, em 4 participações acumulou apenas um ponto a mais que Marc que disputou apenas 2. 

 

Arm Pump -  Um mal que assombra os pilotos


O desempenho das Yamaha neste início de temporada em Losail e no Algarve foi tão convincente quanto possível: 3 vitórias conquistadas pelos pilotos oficiais, considerando que as duas no Catar entram para a história como as corridas mais rápidas e com o menor intervalo entre os top ten da história. Não é exatamente uma novidade para a fábrica japonesa, Quartararo venceu as 2 primeiras corridas de 2020 e Maverick Vinales as duas primeiras provas de 2017, porém no restante das 2 temporadas deu tudo errado. Losail particularmente é sempre estranho, uma pista incomum e condições únicas, que têm pouca relevância para os outros 16 circuitos atualmente no calendário de 2021. E este ano foi mais estranho do que nunca, porque esta é a primeira vez que uma temporada começa com duas corridas no mesmo circuito depois de cinco dias de testes. Entretanto a vitória com autoridade de Quartararo em Portugal sugeriu que este ano poderia ser diferente. Na prova da Espanha o piloto francês estava liderando com sobras quando sofreu um desconforto chamado de “Arm pump” ou síndrome compartimental, os músculos do antebraço são submetidos a esforços brutais em uma prova e incham até quase dobrar de tamanho. Como a membrana que encapsula os músculos não expande, causa uma dor aguda ao realizar qualquer movimento. Quartararo arrastou-se até a 13ª ´posição e marcou apenas 3 pontos.


 
Valentino Rossi depois de mais uma jornada frustrante


O que comentar sobre Valentino Rossi. O mais longevo e mais laureado piloto em ação está tendo 
um início de temporada horroroso. Na pista onde no ano passado ele havia conquistado o único pódio de 2020, este ano terminou a corrida em 17º lugar, a 22 segundos do vencedor Jack Miller. Nem Valentino consegue encontrar uma explicação para mais uma performance ruim: "No papel tudo é muito parecido com 2020. A moto não é a mesma, pelo projeto deveria ser melhor, mas por alguma razão eu sou mais lento do que no ano passado", disse no final do GP. O mau desempenho do decano dos pilotos frustra as esperanças da Sepang Petronas de repetir os resultados obtidos em 2020. A nota positiva do fim de semana para o piloto de Tavulia foi a presença de 2 de seus ex-alunos, Francesco Bagnaia e Franco Morbidelli, no pódio.

Pol Espargaro cruzou a linha em Jerez na 10ª colocação, a pouco mais de um segundo de Marc Márquez na primeira corrida que ambos terminaram como  companheiros de equipe. Pol estava decepcionado e confuso após a prova porque os 4 equipamentos Honda na pista eram diferentes uns dos outros. Ele não sabe a que atribuir o seu mau desempenho quando ficou na frente apenas do “wild card” Stefan Bradl na disputa particular entre os protótipos da HRC.
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