21/04/2021 às 11h00min - Atualizada em 21/04/2021 às 10h33min

O ocaso de uma lenda

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
No último fim de semana (18/04) houve a 3ª etapa do Mundial de MotoGP 2021 no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão. Duas notícias dividiram a atenção da mídia, a 3ª vitória consecutiva da Yamaha, segunda de Fabio Quartararo, e o regresso, depois de um afastamento de 265 dias causado pela fratura do braço direito, de Marc Márquez. A queda de Valentino Rossi na 14ª volta foi uma notícia marginal. Uma nova geração busca afirmação, um vencedor busca manter sua hegemonia e uma lenda sonha com suas glórias do passado.

 

Queda em Portimão
 

A última vitória de Valentino Rossi em uma prova oficial do mundial de MotoGP aconteceu em julho de 2017, com uma Yamaha, em Assen na Holanda. Na época ele já havia perdido o papel de principal desafiante aos títulos sucessivos da Honda de Márquez para a Ducati de Andrea Dovizioso. Os resultados obtidos por Rossi desde 2017 não condizem com a sua história e importância na motovelocidade. Em 2018 obteve a 3ª colocação no mundial, com um déficit de 123 pontos em relação ao campeão. Em 2019 foi o 7º classificado, com expressivos 246 pontos o separando do vencedor do título na temporada e sua pontuação foi menor que as Yamaha de Maverick Vinales (equipe oficial) e Fábio Quartararo (satélite). O ano de 2020 foi um desastre total, amargou a 15ª posição na classificação geral e comandou a pior colocada das quatro YZR-M1 inscritas na competição.
 
Em função da ausência de resultados e da política de renovação da Monster Yamaha, perdeu a sua condição de piloto oficial de fábrica e migrou para a Sepang Petronas, equipe satélite, com a promessa de dispor sempre de um equipamento no estado da arte, com todas as atualizações.
 
Em diversas entrevistas já divulgadas na mídia o italiano tem reiterado que a aposentadoria será considerada a partir do momento em que não se sentir mais competitivo, Rossi não se contenta em apenas participar, quer ser protagonista. Ao que tudo indica, este dia está próximo.



 Valentino Rossi no comando de uma YZR-M1  da Sepang Petronas
 

Há alguns anos, como é natural para todos os esportistas de sucesso, Valentino Rossi iniciou a fase de declínio em sua carreira. O que quase ninguém previa era um colapso acentuado no seu desempenho em um prazo relativamente curto. Várias possíveis razões podem ter contribuído: , a ascensão de novos talentos como Quartararo, Joan Mir, Francesco Bagnaia e até seu antigo aluno e amigo particular Franco Morbidelli; as contínuas tentativas dos promotores da MotoGP de aumentar a competitividade do campeonato nivelando os protótipos por limitações nas regras; a nova concepção dos pneus Michelin que introduziu uma nova variável na equação de ajuste da configuração dos equipamentos.
 
A Yamaha pagou caro por sua decisão de optar por entender os segredos do software Magneti Marelli imposto como obrigatório a partir de 2016, utilizando apenas recursos próprios (Do it yourself – DIY), enquanto as outras fabricantes preferiram atalhos contratando engenheiros e técnicos que participaram da concepção da eletrônica padronizada para uso da MotoGP. Para esta temporada o fábrica recrutou pessoal especializado da fornecedora do software padrão e técnicos da Ducati, que trabalham com os produtos Magneti Marelli há décadas. Talvez esta manobra explique a sensível melhora dos equipamentos na pista.
 
Existe um fator externo que pode estar associado aos últimos maus resultados de Rossi, após testar positivo para o Corona Vírus, seu único resultado aceitável foi a colocação na 2ª fila de largada no GP de abertura desta temporada. Um contraste radical com a posição de largada na 2ª prova no Catar onde conseguiu estar à frente apenas do novato Lorenzo Salvatori da Aprilia, na última fila. Rossi só havia largado um GP nas últimas posições devido a penalizações, como em Valência em 2015, por ter provocado a queda de Marc Márquez no episódio que ficou conhecido como “Incidente de Sepang”.  
 

 
Rossi & Márquez no Incidente em Sepang (2015)


A comprovação numérica dos maus resultados de Rossi pode ser identificada desde novembro de 2020. Até o GP da França realizado de 9 a 11 de outubro, seu desempenho não era brilhante, em Le Mans ele tinha sido o 8º no primeiro livre, 7º no FP3, 4º no FP4, 10º no classificatório e 12º no treino livre e aquecimento (warm-up). Na corrida, disputada em piso molhado, sofreu uma queda.

Em 15 de outubro de 2020 um exame de rotina diagnosticou contaminação por Corona vírus, Rossi perdeu as duas provas disputadas em Aragon por estar em quarentena e retornou no GP da Europa, disputado em Valência. Desde então seu desempenho é irreconhecível, como mostra o quadro abaixo:
 
 
GP Temporada Grid de largada Classificação
Europa  2020  19  NC
Valência  2020  15  12
Portimão  2020  14  12
Losail 1  2021  4  12
Losail 2  2021  21  16
Portimão  2021  17  NC
 

O experiente piloto que em 22 temporadas na principal classe do motociclismo esportivo (26 incluindo as classes de acesso), contabiliza 417 GPs com 115 vitórias, acumulou 6317 pontos e 9 campeonatos mundiais (em todas as categorias), nos 3 GPs disputados este ano ficou atrás das duas Yamaha da equipe oficial, embora tenha um equipamento idêntico. Enquanto Quartararo lidera com 61 pontos e Vinales tem 41 na contagem geral, Rossi conseguiu apenas 4, que o classifica na 18ª posição.

A análise das temporadas de 2020 e 2021 registra em 17 GPs apenas um pódio, o 3º lugar no GP da Andaluzia, 2ª etapa da temporada passada. Depois disso seus melhores resultados foram um 4º lugar em Misano e dois 5ºs em Brno e Red Bull Ring.

Todos os números indicam que depois de contrair a Covid 19 Valentino Rossi não se encontrou mais nas pistas. Ninguém discute o talento e a coragem de um atleta de 42 anos, que disputa espaço com gerações bem mais jovens, porém a biografia do decano das pistas está sendo manchada por esta sucessão de maus resultados, e é complicado dividir a culpa com um equipamento que venceu todas as provas desta temporada.
 

 
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