19/03/2021 às 08h43min - Atualizada em 19/03/2021 às 08h22min

Doohan & Márquez, o longo caminho da recuperação

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
A história é feita por uma sucessão de eventos, que por vezes guardam alguma semelhança com fatos ocorridos no passado. Marc Márquez e Michael Doohan tem muito em comum, além de grandes campeões, ambos tiveram toda a carreira associada a um único fabricante - Honda, ambos tiveram sérios problemas com a consolidação de fraturas, agravadas por processos infecciosos.
 
A história de Doohan é mais antiga, sofreu um acidente em Assen em 1992 e na pressa por ser medicado optou por uma cirurgia na Holanda, com resultados trágicos. Enfrentou o risco de amputação do membro sinistrado, recuperou-se graças a coragem e tenacidade do Dr. Costa. Conquistou o pentacampeonato pilotando em algumas corridas com uma perna só, a Honda improvisou o acionamento do freio traseiro por um comando manual.

 

Mick Doohan medicado
 

O australiano, nascido em 4 de junho de 1965 em Brisbane, capital de Queensland na Austrália, demonstrou a capacidade de um piloto vencer cinco campeonatos mundiais consecutivos depois de correr sério risco de nunca mais subir em uma motocicleta.
 


 
 
Doohan chegou ao campeonato mundial de 500cc em 1989, pilotando uma Honda NSR500 da equipe oficial, a única que defendeu em toda a sua carreira. Seu estilo de condução desenvolvido em pistas de terra na Austrália era áspero e ao mesmo tempo limpo, apropriado para as características dos motores de 2 tempos. Conseguiu seu primeiro pódio em sua temporada de estreia, a primeira vitória veio no ano seguinte, na penúltima etapa realizada na Hungria.

Em 1991 Mick esteve perto do título, mas encontrou em seu caminho outro talento puro, o americano Wayne Rainey, que por nove pontos (233 a 224) conquistou o mundial. Em 1992 Mick esteve muito próximo do título, 5 vitórias e 2 segundos lugares nas primeiras 7 provas, então veio a fatídica etapa de Assen.
 
 

Doohan em 1992
 
Durante a qualificação para o GP da Holanda, Doohan caiu ficando preso sob sua Honda número 2, e causando uma fratura na tíbia e fíbula na perna direita. Um acidente horrível cujo resultado foi ainda pior após uma operação às pressas realizada nas horas depois, uma infecção oportunista atacou a perna durante a noite, colocando a vida do piloto em risco e levando os médicos a recomendarem a amputação do membro.

Surgiu então um personagem importante na carreira de Mick Doohan, Dr. Claudio Costa. “ Nós praticamente raptamos Mick no meio da noite – contou Costa anos depois – também trazendo conosco Kevin Schwantz, que estava sendo medicado no mesmo hospital". O Dr. Costa levou o australiano para uma clínica particular, apostando em uma solução médica ousada e criativa. A ideia que acabou revelando ser apropriada foi costurar as duas pernas juntas por cerca de 15 dias, para que o sistema de irrigação do membro saudável suprisse às necessidades do membro sinistrado.
 
A manobra maluca e arrojada representou a salvação para Doohan, que dois meses depois voltou ao grid no GP do Brasil, disputado em Interlagos, terminou em 12º lugar, e na etapa final disputada na África do Sul obteve a 6ª colocação. 1993 foi o ano do fim da era dos norte-americanos na MotoGP e uma temporada de transição para Mick Doohan, que foi caracterizada pelo trágico acidente com Wayne Rainey em Misano e a vitória de Kevin Schwantz na temporada. O australiano ainda conseguiu uma vitória em Misano.

 

 
 
Depois de tanto esforço e dedicação à sua paixão por motociclismo esportivo, Mick Doohan finalmente recebeu a merecida recompensa. Em 1994 pilotando sua Honda o australiano desconsiderou os rivais e venceu 9 corridas das 14 do calendário, alcançando pela primeira vez o título de campeão mundial, 2 anos depois de seu acidente em Assen.

Foi aberta a porteira. Mick Doohan adotou um ritmo alucinante reconfirmando o título ano após ano. Em 95 ele dobrou a resistência de seu compatriota Daryl Beattie, em 96 e 97 o de seus dois companheiros de equipe, o espanhol Alex Criville e o japonês Tadayuki Okada. O último adversário que disputou com Doohan foi Max Biaggi (1988), em um ano que ficou marcado pela desclassificação do italiano no GP de Barcelona depois de encerrada a prova.

Em todas as temporadas os títulos de Doohan já estavam decididos antes da etapa final, em 1997 abriu uma vantagem de 143 pontos sobre o segundo colocado, seu colega de equipe Tadayuki Okada.

A carreira do australiano terminou em 1999 com um acidente em Jerez com lesões no pulso, ombro e especialmente na perna direita, o mesmo membro que de alguma forma o ajudou a criar o mito de Mick Doohan.

Marc Márquez passou a temporada de 2020 inteira afastado, tratando de uma fratura do braço direito cuja recuperação foi agravada por uma infecção. Assim como Doohan ele nunca pilotou outra marca além da Honda, e aparentemente tem o mesmo apetite por vitórias. Os regulamentos atuais da MotoGP contemplam um número tal de restrições e componentes padronizados que é praticamente impossível um equipamento ter muitas vantagens sobre os demais, ainda assim em 2019 Márquez abriu mais de 150 pontos sobre o segundo classificado.

A história se repete?
 



Marc Márquez em seu primeiro treino com moto após ser liberado pelos médicos (O equipamento é uma SuperBike RC213V-S com o “livery” da MotoGP. Os protótipos de competição não podem ser utilizados por pilotos oficiais em testes particulares).
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