03/03/2021 às 16h34min - Atualizada em 03/03/2021 às 16h02min

F1 & MotoGP – Números

carlos alberto goldani - stilohouse.com.br
No início da década de 70 os valores, interesses e anseios da sociedade eram diferentes. O cantor Luiz Américo emplacou (nos dias atuais o termo correto seria viralizou) um sucesso explorando um tema que então angustiava a maioria dos brasileiros, o refrão da música dizia: “Dez é a camisa dele, quem é que vai no lugar dele”. A seleção brasileira de futebol havia conquistado a copa do mundo de 1970 e o seu maior e mais confiável atleta solicitou aposentadoria. A mítica da camisa 10 da seleção brasileira persiste até os dias atuais e remete a todos a lembrança do Rei Pelé.
 
Associar um número para identificar a um atleta é um costume antigo, cuja origem se perde no tempo. Nos esportes motorizados, onde as atuais proteções físicas (principalmente o capacete) impedem visualizar as feições do condutor, a indicação numérica é a maneira mais fácil de identificar o piloto. Em1986 o inexpressivo Johnny Dumfries substituiu Elio de Angelis na formação da Lotus (Fórmula 1) e Ayrton Senna foi promovido para 1º piloto da equipe. A organizadora atendendo a insistentes pedidos do pessoal de marketing solicitou e foi atendida pela equipe para manter o piloto brasileiro com o nº 12. Havia farto muito material publicitário pronto associando Ayrton Senna ao número.
 


Ayrton Senna com o Lotus #12


A Fórmula 1 e a MotoGP facultam aos campeões do ano anterior utilizarem o nº 1 na temporada seguinte. É uma forma de exaltar a conquista e tem um valor publicitário, uma foto do equipamento com o #1 estampado associa o piloto e a equipe ao sucesso.

Até 1973 não existia uma numeração fixa na Fórmula 1, a identificação dos carros podia variar durante a temporada, então a FIA determinou que "a equipe campeã do ano anterior usaria os números 1 e 2 e as outras equipes teriam número fixo até o fim da temporada". Em 1974 os números foram rearranjados de acordo com a classificação do campeonato de construtores do ano anterior, Ronnie Peterson foi beneficiado pelo campeonato de construtores da Lotus (Peterson e Senna) e usou o nº 1, a Tyrrell, equipe do piloto campeão da temporada (Jackie Stewart) ficou com os nº 3 e 4. Foi o único caso na história recente de um piloto usar o #1 sem ter sido campeão. Nos anos seguintes ficou estabelecido que a esquadra que tivesse o piloto campeão teria direito ao nº 1 e 2, quando uma equipe (através de seu piloto) conquistava o campeonato, a numeração era trocada com a do antigo campeão. Em 1979 Jody Scheckter venceu o campeonato com a Ferrari e a equipe trocou a numeração com a Lotus (11 & 12).

Alguns números ficaram associados às equipes, 3 e 4 na Tyrrell (nunca mais teve um piloto campeão) e o número 27 na Ferrari (entre e 1981 a 1995, a equipe italiana só não usou o 27 em 1990 (era o número de Ayrton Senna na McLaren que cedeu o nº 1 para Alain Prost).
 
 

Damon Hill com o Williams #0
 

Damon Hill da equipe Williams usou o nº 0 em 1993 porque Nigel Mansell, o campeão da temporada anterior, migrou para a Fórmula Indy e a nenhum piloto é concedido o direito de usar o nº 1 sem ter sido o campeão.

O maior numeral já utilizado na F1, #208, foi da única mulher que conseguiu pontuar, Lella Lombardi.

A partir de 2014, o critério de numeração mudou e cada piloto escolhe um número aleatório para usar durante um ano ou durante a toda a sua carreira, para ajudar a criar uma identificação que possa ser explorada pela mídia. Daniel Ricciardo, por exemplo, escolheu o #3, Valtteri Bottas optou pelo #77 e Pastor Maldonado selecionou o #13 que não havia sido usado em quase quatro décadas. O número 1 continua sendo usado apenas pelo campeão e o primeiro (e único) que utilizou este privilégio sob este novo formato foi o Sebastian Vettel. Em 2015 o britânico Lewis Hamilton teria direito a usar o #1 por ter sido o campeão, porém preferiu manter o nº 44, por superstição ou interesses comerciais.

O número 17 usado pelo francês Jules Bianchi quando sofreu o acidente fatal no GP do Japão de 2014 foi banido, não pode mais utilizado por nenhum piloto na Fórmula 1.
 
A MotoGP seguiu uma trilha semelhante.
 
Em Tavullia, Itália, o limite de velocidade no perímetro urbano é estranho, 46 km/h.  Não é resultado de um cálculo científico rigoroso para proteger a população, é uma homenagem que o pequeno município presta a seu mais ilustre cidadão, o 9 vezes campeão do mundo Valentino Rossi. Rossi herdou o #46 de seu pai Graziano Rossi que competiu sem muito sucesso nas classes 500cc e 250cc entre 1978 e 1982. Com uma visão comercial apurada, Rossi explorou o #46 como uma marca pessoal, aproveitou o seu sucesso nas pistas e inundou seus admiradores e fãs do motociclismo com bandeiras amarelas identificadas com o número. Embora tenha sido campeão em 7 temporadas, o italiano nunca incorreu na tentação de utilizar o #1.

 
 
Valentino Rossi com o #46
 
Dois campeões que antecederam a era de Valentino, Kenny Roberts Jr, e Alex Crivillé utilizaram o #1, que ficou ausente das pistas nos 5 campeonatos seguidos de Rossi. Nicky Hayden e Casey Stoner voltaram a usar o privilégio em 2007 (Hayden), 2008 e 2012 (Stoner), Rossi voltou a conquistar e manter o #46 no topo em 2009 e 2010. Jorge Lorenzo exerceu o seu direito em seu primeiro mundial (2010), nos dois seguintes preferiu manter a sua identidade tradicional (#99).

Marc Márquez sempre foi fiel à sua identidade, #93. O piloto espanhol costuma fazer a sua comemoração por vitórias desfilando pela pista com uma bandeira com o número 93. Márquez nasceu e vive na Catalunha, devido aos movimentos políticos separatistas da Espanha, o piloto evita um posicionamento político e não promove a bandeira nacional.
 

 
Barry Sheene – bicampeão mundial de 500cc
 

Durante a evolução da história alguns pilotos se tornaram sinônimos de seu número de corrida. Fazem mais de 4 décadas que Barry Sheene venceu o segundo de seus títulos mundiais de 500cc pela Suzuki, porém na Grã-Bretanha ele nunca é esquecido. Os dois títulos mundiais, a bravura e determinação para retornar após dois acidentes com risco de vida, o estilo de vida de rock-star e o casamento com a lindíssima modelo Stephanie McLean, Penthouse Pet de abril de 1970 e Pet of the Year em 1971, fazem parte desse legado. Para os britânicos tudo pode ser resumido ao número 7. Barry Sheene, falecido em 2003, foi o último campeão britânico da classe principal (500cc)  e ainda é conhecido como nº 7 por uma legião de fãs leais em todo o mundo.
 
 


Duas lendas da MotoGP – Jorge Lorenzo (#99) & Marc Márquez (#93)
 

Romper a tradição e recusar abandonar uma identidade própria para usar o #1 já não é entendido como um ato de rebeldia, é um diferencial pode ser explorado por profissionais de gestão de imagem com maior eficiência.  Marc Márquez conquistou oito títulos mundiais (3 categorias) e 82 grandes prêmios com o #93, o campeão mundial Jorge Lorenzo tentou o #1 após seu primeiro título na principal classe, mas voltou para o seu favorito #99 para vencer mais duas vezes.

Valentino herdou o #46 do seu pai, Marc Márquez muito provavelmente se inspirou em seu ano de nascimento (17/02/1993) para optar pelo #93 e Jorge Lorenzo explica que o #99 é o mais perto que pode chegar de seu objetivo, 100% de aproveitamento.

Um novo campeão egresso dos tempos de Covid começa a criar a sua própria história, o vencedor de 2020 Joan Mir comunicou aos organizadores que vai disputar a temporada 2021 com o seu #36.


 O campeão de 2020  Joan Mir com a Suzuki #36
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