21/02/2021 às 16h38min - Atualizada em 21/02/2021 às 16h25min

Soluções criativas

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
 
A McLaren, a exemplo de outras equipes da F1, foi duramente atingida pelo impacto econômico do Covid-19 em 2020. A falta de receita das atividades de automobilismo, a paralisação de sua fabricação de carros rodoviários aliada a uma enorme queda nas vendas, além da redução da demanda por suas soluções tecnológicas, fez a empresa britânica que cortar 1.200 empregos em seus múltiplos negócios de Fórmula 1, carros de estrada e tecnologias aplicadas. Em tentativas de reequilibrar suas finanças, a equipe obteve um empréstimo de US$ 150 milhões em junho (2020) do banco nacional do Bahrein e anunciou planos de vender a sua própria sede, o McLaren Technology Centre, alugando as instalações para continuar a operar no local. Não há, entretanto, notícia da confirmação deste negócio.
 

McLaren Technology Centre – Woking, Inglaterra
 
 A Fórmula 1 decidiu reduzir em US$ 30 milhões (pouco mais que 160 milhões de reais) o limite de gastos para a temporada de 2021. O limite orçamentário de 2020 de US$ 175 milhões caiu para US $145 milhões em 2021, lembrando que este valor deve cobrir todos os custos operacionais das equipes em toda a temporada, com exceção dos custos de marketing, contratos dos pilotos e dos 3 maiores salários dos projetistas ou engenheiros.

A engenharia financeira de uma equipe de Fórmula 1 é complexa, lembrando que os termos budget (orçamento) e forecast (previsão de gastos) utilizados pela mídia especializada são números diferentes, porém complementares. Budget o um orçamento estático, inclui planejamento de metas, despesas, custos e gastos em um prazo de tempo limitado, forecast é a o ajuste deste orçamento se houver algum imprevisto no decorrer do período. Na execução de um orçamento na Fórmula 1 é importante ter objetivos claros, o sucesso e o retorno econômico para investidores e patrocinadores é medido por resultados nas pistas, portanto todo o esforço é direcionado para economizar recursos em tarefas de apoio para aplicar o máximo em tecnologias para o desenvolvimento do carro. O limite orçamentário com certeza não deve ser um problema para as equipes médias da Fórmula 1, porém cria dificuldades consideráveis para os gigantes Mercedes, Ferrari, Red Bul e Renault (atual Alpine).

Para a Mercedes, que apresenta o seu novo carro com mudanças aerodinâmicas em 2 de março, a adoção de um teto orçamentário de US$ 145 milhões representa um enorme desafio. A equipe é heptacampeã mundial de pilotos e construtores e estima-se que em 2020 tenha gasto aproximadamente 500 milhões de euros, quase 4 vezes o limite imposto pela F1 para a próxima temporada. A estratégia é lançar um carro incrivelmente rápido desde o início. Ter um produto muito bom deve consumir menos recursos para desenvolvimento durante a temporada e permite que a equipe continue operando em alto nível sob esta nova restrição, quando durante a luta pela hegemonia todos os concorrentes estão utilizando os mesmos recursos. A Mercedes está trabalhando para descobrir como fazer para que os componentes o durem mais, como construí-los de forma mais barata e como manter o mesmo tipo de desempenho apesar do orçamento geral ter diminuído. Lembrando, a construção é apenas parte do processo, tem que operar e desenvolver o carro durante toda a temporada, com as incertezas de quantas vezes pode falhar e qual a confiabilidade dos componentes, Consertar qualquer coisa exige recursos.

 

Lewis Hamilton com o Mercedes no GP de Abu Dhabi em 2020
 
A equipe McLaren F1 encontrou algumas das soluções criativas para cumprir o limite de orçamento. Durante os testes realizados em Silverstone, onde Daniel Ricciardo e Lando Noris tiveram o primeiro contato com o carro de 2021, não só os monopostos eram novos os equipamentos dos mecânicos na garagem e instrumentos de apoio também estavam reluzentes, uma indicação visível de como o limite orçamentário da Fórmula 1 está mudando a maneira como as equipes administram seus negócios. Normalmente depois do teste haveria uma atividade febril em empacotar todas as ferramentas e remeter para o próximo circuito. Não foi o que aconteceu.
 

McLaren MCL35M 2021
 

Este ano, em um esforço para reduzir custos, a McLaren encomendou cinco conjuntos de equipamentos de apoio nas garagens para a temporada, em vez de dispor de um único como em 2020.

A ideia inicial de um custo desnecessário é errada, adotando um procedimento meticulosamente analisado a equipe utilizou um recurso inovador, cálculos precisos indicaram que é mais vantajoso replicar todos os equipamentos de garagem cinco vezes e distribuir em pontos estratégicos no mundo via frete marítimo, em vez de utilizar um conjuntp e utilizar o transporte aéreo com urgência entre a realização das etapas. Toda a parafernália inclui além do ferramental básico, estantes de cronometragem, monitores, recursos para habilitar a comunicação direta com os laboratórios da fábrica, suporte para telemetria e outros equipamentos utilizados de engenharia.

O objetivo é cortar custos em todos os lugares possíveis. A despesa com frete marítimo é bem menor que o correspondente aéreo e a economia feita durante toda a temporada é real. Os custos contínuos de transporte de material são bem mais em conta quando se usa frete marítimo.

Soluções criativas podem oferecer às equipes uma vantagem na nova era do limite orçamentário da Fórmula 1, o que não é gasto em atividades de apoio pode ser aplicado no desenvolvimento dos carros. Manter os gastos dentro do orçamento é vital para manter a saúde financeira da McLaren e orientar os recursos para o desempenho dos carros é o objetivo principal. Um requisito básico para garantir a permanência da equipe na Fórmula 1 de um modo competitivo e sustentável.

Em fevereiro/2021, com um clima chuvoso,  os pilotos da McLaren participaram em Silverstone um teste de checagem de componentes do modelo MCL35M. Ricciado  destacou a importância de sua cada vez maior integração com mecânicos e engenheiros do time.

 

Teste da McLaren em Silverstone
 
O evento serviu para encaixar o australiano na metodologia de trabalho da nova equipe, com reuniões com engenheiros e todo o departamento de corrida. O piloto está iniciando a 11ª temporada na Fórmula 1, já disputou 188 grandes prêmios e tem sete vitórias, todas pela Red Bull, equipe pela qual foi terceiro colocado nos campeonatos de 2014 e 2016. Nos últimos dois anos, Ricciardo foi piloto da Renault, tendo ficado em quinto na tabela em 2020.
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