02/02/2021 às 16h23min - Atualizada em 02/02/2021 às 15h46min

Como tudo começou (4)

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
 
Em 13 das 16 temporadas entre 1878 e 1993 pilotos norte-americanos foram vencedores do campeonato mundial. Neste intervalo o hino da bandeira estrelada reinou absoluto na MotoGP.



Kenny Roberts estreou na MotoGP em uma única prova na 250cc em 1974 tendo conquistado o pódio com o 3º lugar. Retornou em 1978 na 500cc e conquistou o título em sua 1ª temporada completa, repetindo o feito em 1979 & 1980. Roberts utilizou o conhecimento adquirido em disputas em pistas de terra (dirty tracks) nos EUA, ignorando a técnica utilizada por seus concorrentes europeus e responsável pelos sucessos do britânico Barry Sheene. Apoiado pela Yamaha, a máquina conduzida por Roberts foi desenvolvida com ênfase na aceleração, enquanto seus adversários preferiam equipamentos ajustados para desenvolver mais velocidade no contorno de curvas. 


 
Kenny Roberts

A Yamaha disponibilizou para Roberts uma tecnologia capaz de variar o tempo de abertura da válvula de escape conhecida, na ausência de um termo mais adequado, por válvula de potência (Power Valve). Em vez do compromisso usual, a abertura da exaustão muito cedo em baixa rotação implicava em menor potência e em alta rotação em mais força, o tempo de exaustão foi grau adaptado às rpm. O resultado foi uma curva de potência mais ampla e controlável. Se outros equipamentos tivessem maior torque, Roberts poderia usar a potência para começar a aceleração nas curvas mais cedo.

 
Power Valve


Depois do tricampeonato de Kenny Roberts houve duas temporadas vencidas por italianos, Marco Lucchinelli em 1981 e Franco Uncini em 1982, ambos com Suzuki.

A temporada de1983 presenciou uma disputa pela supremacia das 500cc entre Freddie Spencer da Honda e o ex-campeão Kenny Roberts da Yamaha. Roberts utilizou um equipamento de 4 cilindros apostando na potência e Spencer com uma máquina de 3 cilindros, menos potente, porém mais ágil. O título foi decidido em favor do piloto da Honda por apenas 2 pontos na corrida final da temporada. Freddie Spencer na ocasião foi o piloto mais jovem a conseguir um título mundial, seu recorde só foi batido em 2013 por Marc Márquez. Na temporada seguinte (1984) Spencer era o favorito, obteve 5 vitórias (de 12 provas) porém não pontuou em 6 ocasiões e permitiu a Eddie Lawson com uma Yamaha vencer o campeonato com 4 vitórias e 4 2ºs lugares. Nesta temporada Randy Mamola conquistou 3 vezes o lugar mais alto do pódio, confirmando a hegemonia dos norte-americanos, que venceram todas as provas do campeonato.

 
Freddie Spencer & Eddie Lawson

A disputa entre Freddie Spencer (Honda) e Eddie Lawson (Yamaha) continuou em 1985, com o piloto da Honda conseguindo um feito inédito e nunca repetido, primeira vez na história os títulos de 250cc e 500cc foram conquistados por um piloto na mesma temporada. Lawson classificou-se em 2º lugar com escassos 8 pontos o separando do líder. Um fato a ser destacado em 1985 foi a 3ª colocação do piloto francês Christian Sarron (Yamaha), cuja vitória na 500cc do GP da Alemanha foi a primeira de um não norte-americano desde o GP da Suécia em 1982.
Spencer não conseguiu defender seu título em 1986, acometido por uma doença chamada de síndrome do túnel do carpo, causada pela compressão do nervo mediano que impede o controle da região externa da mão. O piloto norte-americano nunca mais subiu ao degrau mais alto do pódio, abrindo o caminho para o não menos talentoso Eddie Lawson obter com sua Yamaha seu segundo título. Sem Spencer o australiano Wayne Gardner assumiu como principal piloto da Honda e conquistou o vice-campeonato. Randy Mamola, com uma Yamaha da equipe formada por Kenny Roberts, terminou em terceiro na contagem de pontos.
 
 


Síndrome do túnel do carpo

 
Um breve intervalo no domínio dos norte-americanos ocorreu na temporada de 1987, Wayne Gardner (Honda) se tornou o primeiro australiano Campeão do Mundo de 500cc em uma temporada em que pontuou em todas as provas. Randy Mamola foi mais uma vez o vice-campeão (Yamaha), um único ponto à frente de Eddie Lawson, apesar de suas 5 vitórias. O campeonato expandiu suas fronteiras, incluiu GP do Japão em Suzuka, GP Brasil (Goiânia) e GP da Argentina (Buenos Aires, autódromo Oscar y Juan Galvez).  A última rodada foi realizada na Argentina, que não hospedava um Grande Prêmio de motos desde 1982, foi caracterizada pela péssima organização, incluindo uma ameaça de boicote de pilotos e equipes. A segurança do Autódromo Buenos Aires era inadequada para uma prova do mundial, a organização como um todo foi muito ruim, incluindo espectadores com acesso ao circuito durante as corridas. O Grande Prêmio da Argentina não voltou até 1994. 

Eddie Lawson reconquistou o título em 1988, uma temporada que apresentou o início da rivalidade entre Wayne Rainey e Kevin Schwantz, dois novatos que conseguiram vitórias em seu primeiro ano na 500cc. Interessante a avaliação na época de um dos especialistas em competições na mídia: “Rainey é bom piloto, mas nunca será um futuro brilhante. Certamente nunca vai ser um Randy Mamola”. 

As máquinas V4 utilizadas nos equipamentos eram extremamente potentes, a combinação com chassis rígidos resultava em acidentes high side onde os pilotos descuidados eram catapultados do equipamento com consequências imprevisíveis. Nesta temporada foi realizado em Monterey, Califórnia, o GP dos EUA após uma ausência de 23 anos.

Eddie Lawson obteve seu 4º título na temporada seguinte, após uma inesperada troca de equipe, da Yamaha para a Honda, sendo o primeiro piloto a conseguir dois títulos consecutivos por marcas diferentes (feito repetido anos mais tarde por Valentino Rossi). A explicação sobre a sua saída da Yamaha foi exclusivamente financeira, “Giacomo Agostini, administrador da equipe Yamaha alegou que não tinha condições de aumentar seus ganhos pessoais depois de ter vencido três títulos. A Malboro, patrocinadora principal, ao saber da sua mudança para uma equipe rival propôs duplicar seu salário, mas o contrato com a Honda já havia sido assinado. Foi o ano em que Mick Doohan, australiano, fez a sua estreia na MotoGP e seu compatriota Wayne Gardner realizou uma temporada atípica depois de sofrer uma fratura da perna em Laguna Seca. Por decisão da FIM a pontuação do GP da Bélgica foi contabilizada pela metade depois que os organizadores esqueceram o livro de regras e reiniciaram a prova 3 vezes. Por razões de segurança, houve um boicote generalizado do GP de Misano, a prova foi realizada sem a participação dos pilotos de ponta.


 
Wayne Rainey 


1990 marcou o início da era Rainey com o piloto da Marlboro-Yamaha conquistando 7 vitórias e marcando pontos em todas as corridas com exceção do GP da Hungria. O companheiro de equipe de Rainey foi o campeão de 1989, Eddie Lawson, que machucou o tornozelo esquerdo na primeira etapa e, em seguida, quebrou o tornozelo direito na etapa seguinte em Laguna Seca. Rainey mudou de Dunlop para pneus Michelin este ano. Kevin Schwantz continuou a vencer com  sua Suzuki, conquistou 5 vitórias na temporada e Mick Doohan venceu seu primeiro GP para a Honda em Hungaroring. Para reduzir a tendência de quedas criada pela potência dos 2 tempos V4, a Honda apresentou uma proposta limitando a classe superior a 375cc e 3 cilindros, não foi aceita.



 Mick Doohan lidera Kevin Schwantz, Wayne Rainey e John Kocinski – GP Japão 1991

Uma peculiaridade da temporada de 1991 foi que, para efeitos de campeonato, as duas piores pontuações do ano deviam ser descartadas. O GP da Iugoslávia foi cancelado em função de uma guerra civil, e foi substituído por uma prova em Jarama. O GP Brasil foi cancelado por falta de segurança e substituído por uma corrida em Le Mans. Em 1991 a Michelin decidiu ser fornecedora exclusiva da Honda, todo o restante do grid utilizou Dunlop.


Wayne Rainey venceu seu terceiro mundial consecutivo pilotando uma Yamaha da equipe de Kenny Roberts. Seu título deve ser creditado à falta de sorte de Mick Doohan que venceu as 4 primeiras etapas. A principal prova desta temporada foi o GP de Assen, Rainey sofreu um acidente durante os treinos e abandonou a prova. Doohan poderia garantir o título, porém sofreu um acidente sério e a cirurgia a que foi submetido resultou em um desastre ainda maior. O australiano ficou fora 4 etapas, voltou sem condições físicas e perdeu o título por apenas 4 pontos.

Os pilotos da Honda de fábrica estrearam um motor "big bang" no NSR500, onde a ordem de disparo dos cilindros fez com que a energia fosse gerada em pulsos. O benefício obtido foi maior tração, permitindo que os pneus aderissem à pista entre os pulsos em vez de girar por causa da força excessiva do 500cc 2T. A novidade foi rapidamente replicada pela Yamaha e Suzuki. O conceito de big bang é utilizado até os dias atuais nos motores 1000cc 4T da MotoGP. 

Kevin Schwantz venceu o campeonato mundial de 1993 em uma temporada marcada pelo trágico acidente que resultou no fim da carreira de Wayne Rainey. Schwantz e Rainey disputaram a liderança prova a prova, até que no GP da Italia Rainey sofreu um trágico acidente que resultou em graves lesões na coluna vertebral. O 3 vezes campeão mundial da MotoGP nunca mais voltou a andar.

 
Acidente com Wayne Rainey – GP da Itália 1993

A temporada de 1993 registrou a primeira vitória de Alex Barros na MotoGP. A Honda voltou na inovar com uma terceira moto no grid, alegadamente para testar novos conceitos. Havia rumores que se tratava de injeção eletrônica e quando o equipamento quebrou a barreira de 320 km/h a informação foi confirmada.  Oficialmente os 3 equipamentos da fábrica receberam a novidade ao mesmo tempo.

O acidente de Rainey marcou o fim da era do domínio da bandeira de estrelas e listras na MotoGP. Um norte-americano só voltaria a ser campeão do mundo em 2000 com Kenny Roberts Jr. (filho de Kenny Roberts) e em 2006 com Nicky Hayden.
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