27/01/2021 às 18h24min - Atualizada em 27/01/2021 às 18h07min

A fé remove montanhas

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
MotoGP – A fé remove montanhas
 
Quando a Infraero autorizou ouso de aeronaves jato puro para substituir os obsoletos Electra II na ponte aérea Rio-São Paulo, uma rota entre os aeroportos de Congonhas e Santos Dumont recordista em volume de passageiros no mundo, houve uma concorrência feroz entre os grandes fabricantes, Boeing e Airbus. Um dos entraves para o uso de aeronaves com maior capacidade nesta rota é a localização do morro do Pão de Açúcar, um obstáculo geográfico muito próximo da cabeceira da pista do aeroporto no Rio de Janeiro. Na época um engenheiro norte americano recomendou uma solução óbvia, já que era inviável mudar de aeroporto por causa da sua localização privilegiada, a montanha tinha que ser eliminada. Afinal, segundo a lógica capitalista do profissional, se a fé remove montanhas, um ótimo negócio para sua empresa poderia ser viabilizado eliminando uma das mais conhecidas atrações turísticas do Rio de Janeiro.

Quando a fé não é suficiente, até os costumes mais arraigados do comportamento social de um povo podem ser alterados. Os nipônicos estão abandonando a postura de optar sempre por resolver problemas, em vez de procurar culpados. A contratação de Marc Márquez por 4 temporadas envolveu um investimento vultuoso, estima-se (os valores exatos estão protegidos por cláusulas de sigilo) que o piloto catalão receba 15 milhões de Euros por temporada, mais bônus por desempenho. Ficar uma temporada ausente tem um custo alto para a Honda Racing Company, a perda de exposição da marca prejudica negociações com os patrocinadores.


 
Hospital Internacional Ruber – Madri

 
Marc Marquez está lentamente avançando em seu processo de recuperação. Uma revisão médica realizada no Hospital Internacional Ruber, em Madri, revelou uma evolução positiva de sua 3ª intervenção cirúrgica e no combate do processo infeccioso que foi identificado no membro sinistrado. Marc retomou a atividade em redes sociais e postou imagens onde aparece exercendo atividades aeróbicas (bicicleta ergométrica) e fisiculturismo (apenas no braço esquerdo, o direito segue imobilizado).



Marc Márquez retornando aos exercícios
 

O piloto da Honda combate uma infecção com antibióticos e sua volta às atividades físicas sugere algum otimismo, depois de várias semanas com completa ausência de informações. A falta de informações oficiais é um campo fértil para especulações. A revista francesa “Moto Revue”  publicou em sua última edição o que pretende que seja uma análise completa da situação de Marc Marquez e do que aconteceu nos últimos meses. Revela que o catalão tem preocupado a Honda, sua equipe, que teria encomendado uma pesquisa abrangente enviando várias pessoas para a Europa em dezembro para esclarecer o que aconteceu, como está sendo administrado e determinar responsabilidades se eventualmente existirem. A Honda estaria duplamente preocupada, em primeiro lugar por causa da longa ausência de seu principal piloto e falta de resultados, em segundo lugar pelo salário que Marc Márquez recebe sem proporcionar qualquer tipo de retorno. Mesmo que não tenha competido na temporada de 2020. a empresa honrou os termos contratuais. Há sempre o risco que, se a recuperação não evoluir satisfatoriamente, seja necessário um 4º procedimento cirúrgico. Neste caso é possível rever as condições do contrato catalão, lembrando que as condições mudaram radicalmente desde a data de assinatura. Ele era a principal referência da Honda e a pandemia não havia afetado o desempenho comercial da empresa. A Honda quer saber se houve algum culpado e qual a participação do piloto em decisões equivocadas.
Há um risco de nova intervenção ser necessária se os antibióticos não produzirem os resultados esperados. Quando o retorno às pistas é realizado quatro dias após uma operação, a responsabilidade deve ser compartilhada com múltiplos envolvidos, porem a principal cobrança recai sobre o cirurgião que realizou a intervenção. Um dos integrantes da Clínica Móvel de Claudio Costa explica que a primeira calcificação inicia a solidificação em 3 semanas, são necessárias mais 3 para ser concluída. O piloto não tem formação profissional para assumir sozinho esta responsabilidade.
 
A condição de Márquez preocupa. Se os antibióticos não forem efetivos, uma nova cirurgia será necessária para remover a placa, limpar o osso, descartar as áreas afetadas, fazer novos enxertos e voltar a imobilizar.
 
O alarmismo refletido da análise da publicação francesa é lastreado em afirmações categóricas do Dr. Bernard Achou, um osteopata que presta serviços à 'Clinica Mobile' que acompanha os GPs nos circuitos para prestar os primeiros socorros aos pilotos. O especialista foi contundente em sua avaliação: "Voltar para a moto quatro dias depois da 1ª operação foi uma loucura. Especialmente em Jerez, um circuito onde os pilotos não têm um momento de folga, as frenagens são fortes e muito próximas. Uma fratura e uma cirurgia implicam na perda de massa muscular. Se uma clavícula estiver quebrada, pode ser bloqueada facilmente imobilizada, mas o úmero...”. O médico não hesita em apontar para os grandes culpados por este imbróglio. “Todos são responsáveis. A negociação que liberou a volta do piloto não respeitou os tempos de cura e não avaliou os riscos de complicações. A equipe médica do Hospital Dexeus, liderada pelo Dr. Mir (cirurgião da 1ª intervenção) e da Clínica Móvel de MotoGP, capitaneada pelo Dr. Chartre, autorizaram seu retorno. Vale lembrar que foi o próprio piloto que decidiu não disputar a segunda prova de Jerez por não se sentir capaz, percebendo uma perda de força após algumas voltas.

 

Dr. Xavier Mir, especialista em Traumatologia

 

Dr. Chartre (MotoGP)

 
A possibilidade de uma nova intervenção é compartilhada por outros especialistas e projeta um quadro nebuloso para a piloto, talvez ele perca também a temporada de 2021. O Dr. Bernard considera inaceitável que talvez o melhor piloto não possa voltar às pistas e expressa sua preocupação com o fator psicológico: “Márquez voltará a competir sob uma espada de Dâmocles”. Se sofrer uma nova queda e ferir seu braço novamente, pode ser dramático. E isso, para quem vive sempre desafiando os limites, é mentalmente complicado”.
 
 A espada de Dâmocles

Dionísio era rei de Siracusa, o centro comercial mais bem-sucedido da antiga Sicília. Rico e poderoso, muitos o invejavam, entre estes, Dâmocles, seu companheiro desde a infância. Cansado com os frequentes comentários sobre sua sorte, Dionísio ofereceu à Dâmocles a oportunidade de trocarem de posses, confortos e atribuições pelo período que conviesse ao amigo. Dâmocles aceitou na hora e, na mesma noite, já ocupou as instalações reservadas ao rei, usufruindo dos bajuladores, músicos e bailarinas durante o jantar.
Na manhã do dia seguinte, ao ocupar o trono para audiências com os súditos, Dâmocles era a própria felicidade e concentrou-se em exercer o poder com sabedoria e responsabilidade. Em um raro momento de intervalo, satisfeito com o seu próprio desempenho, recostou-se no trono e seu olhar perdeu-se no teto, onde descobriu uma coisa que o deixou apavorado. Sobre o local de trabalho do soberano pendia uma espada, presa por apenas um fio de crina de cavalo, com a lâmina brilhando, apontada para o trono. Dâmocles tentou mover o assento real para um local mais seguro, mas o mesmo era fixo no chão e não foi possível.

 

A espada de Dâmocles
 
Sem coragem para voltar a sentar no local reservado ao governante, Dâmocles mandou chamar Dionísio, e perguntou sobre a espada. “Ela sempre esteve ali”, disse o rei. “Ela me assombra todos os dias. Para quem exerce o poder, sempre existe a possibilidade de alguma coisa ou alguém romper o fio. Inimigos, pessoas descontentes com alguma decisão ou amigos enciumados podem atentar contra a pessoa do governante ou prejudicar a sua reputação. A ameaça está associada ao poder. Quem exerce atividades de responsabilidade deve aceitar este risco.
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