12/12/2020 às 20h47min - Atualizada em 12/12/2020 às 20h37min

2020, o “annus horribilis” da Yamaha

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
Se houver uma expressão que indique um resultado totalmente decepcionante para uma temporada pior que “annus horribilis” pode ser utilizado para caracterizar 2020 para a Yamaha. Tudo o que poderia ter dado errado aconteceu. O GP da Europa, realizado em Valência, foi a síntese das adversidades enfrentadas pela fábrica. Caracterizou um dos três piores resultados desde que a fábrica entrou no mundial de motociclismo da FIM em 1973. Excluindo o GP de Monza em 1973 (acidente fatal com Jarno Saarinen) e Misano em 1993 (desastre que deixou Wayne Rainey paraplégico), foi o fim de semana mais desastroso da fábrica do ponto de vista técnico. Quase tudo o que poderia ter dado errado aconteceu.
 
 
Acidente com Jarno Saarinen em Monza em 1973
 
 
Acidente com Wayne Rainey em Misano 1993

 
Na quinta-feira que antecedeu aao GP a fábrica foi comunicada de uma penalização pelos comissários da FIM por ter utilizado motores ilegais na prova realizada em Jerez. A inabilidade dos responsáveis pela comunicação criou constrangimento nos boxes.  Alguns afoitos imaginaram que a Yamaha havia propositadamente quebrado os lacres e alterado peças fundamentais no YZR-M1. A ausência de um comunicado oficial da fábrica ou dos comissários tornou impossível descobrir exatamente o que havia acontecido e sugeriu má fé e uma infração deliberada aos regulamentos. Lembrando, os motores utilizados devem conter peças exatamente iguais às do motor entregue para a diretoria técnica da MotoGP no início da temporada.

As agruras da Yamaha com as válvulas do motor iniciaram quando a produção das peças foi descontinuada na empresa terceirizada que fabricava os componentes. A fábrica encontrou um novo fornecedor, mas começou a temporada usando válvulas de duas empresas diferentes. As peças tinham a mesma especificação, porém eram de origens diferentes, que contraria as regras da competição. Semelhantes, mas não exatamente iguais as do motor de amostra entregue ao controle técnico da MotoGP antes da primeira corrida. Esta foi a gênese de todo o imbróglio. 
 
Quando 3 dos 4 motores Yamaha (2 da equipe oficial e 2 da Petronas) equipados com válvulas do novo fornecedor não resistiram no GP de abertura - ironia, o único que não teve problemas foi o do vencedor, Fábio Quartararo – a empresa construiu lotes subsequentes de motores com válvulas em estoque do antigo fornecedor, idênticas às instaladas no motor de amostra. A Yamaha desrespeitou o regulamento quando os 4 pilotos usaram as novas válvulas na primeira corrida e quando Morbidelli usou um dos primeiros motores durante os treinos e qualificação do GP de Styria (Áustria 2).  
 
A demora da divulgação da penalidade foi em razão da Yamaha ter encomendado uma análise independente de ambas as marcas de válvula, na esperança de provar ao controle técnico da MotoGP que eram exatamente iguais. Os resultados foram disponibilizados antes do GP da Europa, comprovaram que havia algumas diferenças mínimas de material e, em consequência, as sanções foram impostas sem, entretanto, penalizar os pilotos. 
 
A Yamaha ainda tem um problema sério. Em função da pandemia as 6 fábricas envolvidas na competição concordaram em utilizar os mesmos motores em 2021, talvez não haja peças antigas suficientes em estoque.
 
O GP da Europa foi desastroso para Maverick Vinales, um de seus mecânicos testou positivo para a Covid-19  e outros 4 que dividiam o mesmo alojamento tiveram que abandonar o circuito e foram colocados em quarentena. Vinales havia perdido um motor quando pulou da moto sem freios na Áustria e necessitou um extra, como penalidade foi obrigado a largar do Pitlane.
 
Maverick Vinales pulou da moto sem freios na Áustria
 
Durante a prova, o principal candidato ao título, Fabio Quartararo caiu na primeira volta. Recuperou o equipamento e voltou para a prova para ser o último dos 14 classificados, atrás de Vinales (13º) e de Morbidelli, que foi o 11º com uma calibragem errada no pneu dianteiro. Valentino Rossi em sua primeira prova depois da quarentena por ter testado positivo para a Covid, não completou por um problema elétrico. Desde Valência, em 2007, a Yamaha não via nenhum piloto com seus equipamentos no top 10.
 
Em 2019 Fábio Quartararo obteve um desempenho excepcional, em cinco oportunidades esteve no pódio a menos de1 segundo do vencedor Marc Márquez. Seu comportamento nas pistas por uma equipe independente, com uma limitação de giros no motor, resultou em um contrato com a equipe oficial para ocupar a vaga de Valentino Rossi. Em 2020, seu segundo ano na classe principal, obteve vitórias nas duas primeiras provas e encaminhou o título mundial, liderou a pontuação durante muitos meses, até seu desempenho despencar depois de 8 provas. 
 
 
 

Queda sincronizada de Aleix Espargaro e Fábio Quartararo no GP Europa em 2020
 
Quartararo atribui ao equipamento sua queda de rendimento. Alega que não se sente mais confortável, e sugere que as modificações feitas para 2020 deixaram a moto mais nervosa, imprevisível. O francês atribui as 3 vitórias de Morbidelli como resultado de utilizar o modelo 2019. Para a mídia o jovem piloto, 21 anos, já aprendeu um discurso muito utilizado por esportistas, “Eu ganho, o equipamento perde”. Estranha justificativa em uma temporada onde a Yamaha venceu metade das provas,7 (Quartararo 3, Morbidelli 3 e Vinales 1) em 14. 
 
A preparação do motor Yamaha para 2020 foi para atender às aos pedidos dos pilotos por maior potência, como resultado prejudicou a natureza dócil do motor e sua confiabilidade. Os principais problemas enfrentados pelos engenheiros são os mesmos que as temporadas passadas, déficit de potência e entrega agressiva de torque, que faz o pneu traseiro perder tração. Existem suspeitas que o problema pode ser combustão incompleta ou massa de virabrequim incorreta. O cerne do motor está congelado, então os esforços estão endereçando medidas alternativas como eletrônica, refrigeração e escape. Por enquanto, como resultado do congelamento do atual motor para 2021 devido à Covid, o inferno astral da fábrica nipônica está longe de acabar.

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