10/12/2020 às 09h04min - Atualizada em 10/12/2020 às 08h29min

Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia

Carlos Alberto Goldani - stilohouse.com.br
“Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia”. O verso escrito por Lulu Santos no início da década oitenta explica porque algumas leis naturais, que sempre foram aceitas sem restrições, já não são mais consenso. Por exemplo, a cultura popular aceita como verdade que uma imagem vale por mil palavras, enquanto os avanços da tecnologia apresentam fatos que desmentem esta premissa. Um texto descrevendo uma das retas do circuito da Ilha de Man TT utiliza 117 palavras e demanda, formatado com MS Word, 12 kb. Uma foto com boa definição da mesma reta ocupa, em formato JPG, 2.669 kb. Neste contexto a foto requer o espaço equivalente aproximadamente a 26 mil palavras.

Uma outra frase que ganhou credibilidade é original dos operadores do Jogo do Bicho, uma bolsa ilegal de apostas considerada como uma contravenção (crime menor) que faz parte da cultura tupiniquim: “Vale o que está escrito”. As instituições que fazem parte do poder judiciário emitem com frequência sentenças onde o que o texto explicito da lei está sujeito a interpretações, poucos dias atrás o Supremo Tribunal Federal estava julgando o que significa um artigo da Constituição que diz que “é vedada a reeleição”. Quatro 4 juízes entenderam que, em algumas circunstâncias, “vedada” significa “permitida”.
 


Longa reta do Ilha de Man TT
 
Uma peça inadequada na construção dos motores da YZR-M1, associada à livre interpretação do texto do regulamento da MotoGP para a temporada 2020, causaram um enorme constrangimento para a Yamaha e criaram um mal-estar entre os participantes pela punição esdrúxula aplicada pelos comissários da FIM para a equipe.  

A MotoGP foi seriamente afetada por crises financeiras na segunda metade da década dos anos 2000. Em 2006 a pressão da Organização Mundial de Saúde (OMS) surtiu efeito e a União Europeia baniu o patrocínio do tabaco em competições esportivas. Grupos que patrocinavam múltiplas equipes da MotoGP, como Malboro e Gauloises, foram proibidos de anunciar na categoria. Os donos de equipes ainda não tinham absorvido o baque quando em 2008 importantes grupos financeiros sofreram perdas significativas com a crise das hipotecas nos EUA, que costuma ser representada pela falência do Banco Lehman Brothers. A crise se espalhou pelo mundo e o dinheiro ficou escasso. Não houve uma reposição rápida de patrocinadores e, como resultado, em 2010 o grid ficou comprometido com poucos participantes.

Neste ambiente foi criado o primeiro pacote de regulamentos para reduzir custos na MotoGP, que incluía a limitação do número e do desenvolvimento de motores durante uma temporada, menor duração de treinos, limitação de testes, restrição do número de pneus, normatização dos tamanhos de rodas e proibição de alguns controles eletrônicos.

Ainda assim o grid continuou muito reduzido e, em 2012, o regulamento permitiu a participação das equipes Claiming Rule Team (CRT), uma classe específica para que grupos com menor orçamento pudessem participar do Mundial com até 12 motores por temporada (o normal é 6) e tanques de combustível com capacidade maior (24 litros em vez de 21). Os CRTs foram substituídos pela classe Open a partir de 2014, desta vez, os inscritos nesta classe concordavam em utilizar uma central eletrônica padronizada (Magneti Marelli) em troca de certos privilégios, novamente ligados ao número de motores, consumo de combustível e tipos de pneus. Os mesmos privilégios (concessões) foram estendidos aos fabricantes que não tinham conquistado vitórias em anos anteriores ou que estavam fazendo sua estreia. A opção estratégica da Ducati foi ingressar nesta classe para se preparar adequadamente para o futuro.

A regra atual é que os motores devem ser lacrados antes da primeira prova e não podem ser alterados durante a temporada. O livro de regras da competição especifica explicitamente que “Um motor aprovado é aquele que tem todas as peças na sua construção idênticas em todos os aspectos às peças de um motor de amostra lacrado e entregue ao Diretor Técnico da MotoGP”.

 

Exemplos de lacres utilizados pela MotoGP
 

 As restrições exigem que todas as unidades sejam lacradas para impedir que as fábricas modifiquem os motores. Todas as peças devem ser idênticas em todos os motores alocados para cada piloto (em temporadas normais 7, em 2020 foram 5 porque o número de etapas foi reduzido por causa da pandemia).

Os rumores que a Yamaha teria alterado seus motores após o lacre sugeriam que os engenheiros haviam quebrado os selos de seus motores YZR-M1, para substituir as válvulas defeituosas fabricadas por um fornecedor externo que não resistiram e avariaram os motores de Valentino Rossi, Maverick Vinales e Franco Morbidelli no GP de abertura da temporada em Jerez. O procedimento da Yamaha foi instalar novas válvulas no seu segundo lote de motores, que foram selados e disponibilizados para uso após o desastre de Jerez. Independente de interpretações, mesmo que as peças tenham as mesmas característica, a troca de fabricante caracteriza uma infração ao regulamento.

De acordo com as regras "alterações em peças lacradas são permitidas exclusivamente por questões de segurança e que não podem ser um fator de benefício de desempenho", as alterações podem ser realizadas com o consentimento unânime do MSMA (Associação dos fabricantes). O problema é que uma válvula queimada não caracteriza um problema de segurança. A Yamaha justifica que mudou as peças por um “entendimento incorreto da regulamentação atual” e que “as válvulas de dois fornecedores diferentes foram fabricadas de acordo com uma única especificação”.

A fabricante encaminhou um pedido formal à MSMA para substituir as válvulas defeituosas em seus motores sobreviventes do GP da Espanha, os rivais exigiram detalhes exatos para que pudessem considerar o pedido, o que levou a Yamaha a cancelar a solicitação.



Os melhores pilotos da Yamaha no início da temporada - Vinales e Quartararo

Os problemas identificados em Jerez deixaram os 4 pilotos Yamaha com três motores cada para completar os 13 GPs restantes da temporada, um par equipado com as válvulas problemáticas já estava selado. Em circunstâncias normais a vida útil de um motor é de 1.500 km, o problema da Yamaha obrigava os pilotos a rodarem mais de 2.400 km com cada motor sobrevivente. Vinales não conseguiu, um de seus motores foi destruído quando ele saltou da moto no GP de Estíria e ele foi obrigado a recorrer a um 6º motor, em consequência foi penalizado para largar dos boxes no GP da Europa disputado em Valência.

Durabilidade não é uma ciência exata, Morbidelli venceu em Valência utilizando um motor que, pelos registros, rodou mais de 2.500 km. Já havia sido utilizado parcialmente nas 2 provas de Misano, Barcelona, 2 de Aragon e em Valência (GP da Europa). Provavelmente é o motor com maior quilometragem que venceu um GP na era dos 4 tempos.

 

Morbidelli vence em Valência com um motor com mais de 2.500 km de uso
 

Estranhíssima foi a posição dos comissários da FIM. Depois de toda a lambança patrocinada pela Yamaha, decidiram que os pilotos não foram beneficiados e aplicaram sanções apenas para o fabricante no mundial de construtores. Algo do tipo, curar um cavalo manco não favorece ao jóquei.
Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »